quarta-feira, 29 de junho de 2011

POR QUE ME DESVIEI? PARTE I I I

Lembrei-me de um texto bíblico constante no livro de Reis, mas também, mencionado pelo profeta Isaías,  em que os Judeus foram deportados para a babilônia (atual Iraque). Sitiada e invadida pelo rei Nabucodonosor, Jerusalém é destruída juntamente com seu templo e pouco mais de 40 mil judeus são levados para a Babilônia, ficando aqueles mais pobres para que pudessem cultivar a terra. (2Rs 25,1-21).
Até aqui, nada que já não se conheça. Mas um fato importante e extremamente oportuno se dá durante o exílio. Os exilados se articularam em comunidades e procuravam manter viva a fé no Deus de Israel não permitindo a morte do judaísmo. Ao mesmo tempo com que praticavam, também entravam em profundo desespero por não compreenderem como o mesmo Deus que tinha prometido protegê-los, havia permitido tamanha humilhação. O sofrimento por não habitarem em casa, sua terra, por perderem sua pátria e até sua identidade foi certamente, um dos momentos mais difícil daquele povo. 

O anseio pelo retorno e a dor da saudade pode ser lembrado através de alguns escritos comprovados em versos litúrgicos e também nos Salmos: “... ao pé dos rios da Babilônia sentamos e choramos ao nos lembrar de Sião...”  e “... Se eu me esquecer de ti, ó Jerusalém, que fique esquecida a minha mão direita...”.
É o registro de uma dor profunda. Uma dor que vai além de qualquer dor física, porque ela dilacera a alma e reduz o homem a nada. Registra ainda uma perda irreparável, algo que foi tirado de forma súbita e brutal.
Toda a dor e o sentimento desse povo, é por analogia a mesma dor daquele que se desviou.  Daquele que conheceu um dia o amor de Deus e hoje está sob o domínio de um déspota. Os dias passam e com eles os meses, mas em seu decorrer, tem aqueles dias e aqueles meses em que se é assolado por uma dor tão grande, que acaba por aniquilar toda e qualquer força, uma dor quem nem o pecado constante podem bloquear, antes faz aumentar. E na vã tentativa de querer aniquilar, se busca aquela que pode parecer fazer sumir por alguns instantes. Se busca uma forma de neutralizar o pensamento através do efeito anestésico da mente. Não faço referência à anestesia local aplicada, mas a outra que tem quase que igual efeito: A bebida com seu elevado teor alcóolico. Ela tem um poder destruidor, capaz de mudar o sentimento de piedade daquele momento, para um que faz com que nos sintamos bem e conformados em está no mundo, podendo assim ignorar os princípios dos ensinamentos divinos.

Talvez se houvesse a liberação por parte do império e que facilitasse o consumo de álcool pelos judeus no cativeiro, certamente aquele momento de dor, poderia encontrar um alívio momentâneo. O cativeiro existiu pelos pecados de Judá. Houve advertência pelo profeta que anunciou punição e juízo, mas não foi dado importância. Viver um cativeiro é viver o seu inferno. É perder sua própria identidade, é questionar sua existência e as verdades inquestionáveis. É a descida para o abismo, um salto para o nada.
O cativeiro pode significar a sua dor, o seu sofrimento de hoje, o seu pesadelo interminável. O cativeiro significa pra mim o desvio dos caminhos do senhor. O mesmo Senhor que Passados 50 anos, fez surgir um novo imperador, o Persa Ciro, que invadiu e dominou todo império babilônico, permitindo o retorno dos judeus à sua terra natal. Era o fim de um pesadelo. O fim de um cativeiro longo  e dolorido. O Deus em quem confiavam, havia  lembrado-se deles.
Durante todo exílio, muitos judeus perderam sua fé original, muitos foram os que se distanciaram de Deus. Mas também, claro, muitos os que conseguiram permanecer firmes. Estes criaram pequenos templos (sinagogas), onde exerciam a prática do culto como forma de suprir a ausência do Templo de Jerusalém, mantendo viva a fé monoteísta.
A certeza de que um dia retornariam estava escrita. Era uma promessa de que o tempo de cativeiro tinha data para acabar. Imaginar o dia do retorno era o momento de uma alegria inefável. Poder sentir essa sensação era algo que não tinha preço. Era a certeza de que O Deus de Israel não estava alheio aos seus anseios, ao seu abandono, a sua dor e ao seu sofrimento. Mas também era a certeza de conviver sem saber até quando com esse terrível pesadelo.
Para mim, o risco de perder a fé, está diretamente associado a certeza de não saber até quando durará esse tempo.
Não ter a certeza do tempo de retorno, me força a construir minha própria sinagoga e praticar a resistência que ainda pode ser percebida para evitar o afastamento final.  
Lembrar-se das agruras desse povo nesse tempo, me ensinou a enxergar as duas realidades completamente distintas. Invadidos e levados à força para longe de tudo que mais amavam, sofrer os insultos e a humilhação de perder sua própria identidade sendo objeto de escárnio, foi também um tempo de muito aprendizado, pois, aos resistentes, trouxeram a dura experiência de trilhar por terras secas e improdutivas (não fazendo referência às terras da babilônia, mas pela distância de casa).  e de  agora poder repassar aos seus, a firmeza na esperança e a de fazer permanecver a fé viva no Deus de seus pais.
O amor incomensurável do Senhor, no tempo favorável, O Deus de promessas, O Criador, O Deus de Israel resolveu visitar a obra de suas mãos e trazer-lhes a redenção. Não somente a libertação de uma nação governada por um tirano, mas a libertação do maior ditador, déspota presente na vida de muitos nos tempos de hoje: o pecado. Para isso teve que se tornar semelhante a ele, semelhante ao homem em tudo, menos no pecado. “E o verbo se fez carne”. (Jo 1,14).

A natureza impassível uniu-se à natureza passível. Submetido à morte em sua natureza humana, mas inaterável à sua divina.  
Mesmo antes da sua vinda, era professado pela boca de um profeta, o ultimo do Velho Testamento, o Seu precursor, que deveria haver um arrependimento em preparação para este dia. Esse arrependimento configura-se como sendo o primeiro passo para a redenção, para a salvação. Este traz em sua definição, a tristeza pelo ato pecaminoso, pelo agravo cometido. Provoca uma mudança de mentalidade, e leva a praticar os retos caminhos do Senhor.
É o tempo necessário para um retorno definitivo e feliz para aquele que conheceu o afastamento. E a alegria de aguardar esse momento, é a mesma que invadiu o coração daqueles judeus que nunca perderam a esperança em um Deus de vitórias em um Deus de amor, em um Deus de misericórdia.
Retornar é uma certeza, mas antes, se faz necessário um processo inicial de readaptação, um período em preparação para que exista verdadeiramente um coração contrito.



Por
Wellington Dantas

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