A Palavra de Deus, quando cai do céu, é como a
chuva: não volta sem dar fruto. Peçamos pois que frutifique hoje no
nosso coração a palavra de Nosso Senhor. — Celebramos a solenidade de
Pentecostes cinquenta dias depois da Páscoa. Nosso Senhor Jesus Cristo
veio a este mundo. Ele, Verbo encarnado, veio trazer a Deus para o homem
assumindo nossa própria humanidade, viveu entre nós durante trinta e
três anos e, finalmente, num ato extremo de caridade, morreu por nós na
cruz, movido por um amor que não era meramente humano.
Jesus é homem como nós; mas, por ser uma pessoa divina, suas ações
são todas do Verbo encarnado. É por isso que Ele é chamado de Cristo,
o Ungido, aquele em quem repousa e por quem é enviado à Igreja o
Espírito Santo. Jesus morreu na cruz para nos dar o Espírito, ou seja,
para, com o seu Sangue de amor, lavar os nossos pecados e tornar
possível que recebêssemos o dom do Espírito.
Nós somos Igreja, mas o que é o mistério da Igreja? É o
mistério em que Jesus é a Cabeça e nós, os membros de seu Corpo. Ora, se
o membro do corpo pertence realmente ao corpo, ele age como manda a
cabeça. Seria, de fato, muito anormal que a cabeça não conseguisse
mandar nos membros do próprio corpo. Logo, se nós temos uma Cabeça, que é
Jesus, divino e humano ao mesmo tempo, então precisamos agir como Jesus, amar como Ele, fazer as coisas que Ele fez.
No entanto, isso não parece uma boa-nova, mas antes um fardo
esmagador. Olhemos para a cruz de Cristo, para aquele amor
extraordinário. Se é assim que temos de amar, misericórdia! Deus nos
livre, pois não damos conta sozinhos. É assim que reagimos quando
olhamos para a cruz de Cristo. Acontece que a cruz é amor transbordante
de Deus, é o Amor divino derramado em nossos corações. Por isso, na
solenidade de Pentecostes comemoramos o fato de que o Amor, aquela unção
derramada sobre a Cabeça, que é Cristo, Nosso Senhor, transborda e
chega até nós, tornando-nos capazes de amar como Ele amou.
Isso não é teoria. É fato histórico. Senão vejamos. Jesus morreu na
cruz e ressuscitou ao terceiro dia. Ao ressuscitar, o que Ele encontrou?
Onze Apóstolos amedrontados, trancados no Cenáculo por medo dos judeus.
Jesus então entrou ali, como diz o Evangelho deste domingo: “Ao
anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas por medo
dos judeus as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, Jesus
entrou e, pondo-se no meio deles, disse: A paz esteja convosco. Jesus soprou sobre eles e disse: Recebei o Espírito Santo”.
O que Jesus fez no dia da Ressurreição só iria realizar-se plenamente
cinquenta dias depois em Pentecostes. Afinal, ainda que Jesus tenha
soprado sobre eles, os Apóstolos continuaram medrosos. Jesus subiu aos
céus quarenta dias depois da Ressurreição, e os Apóstolos voltaram a
Jerusalém, fecharam-se no Cenáculo com Maria, Mãe de Jesus, pedindo o
dom do Espírito Santo, mas ainda estavam com medo.
De repente, no domingo, por volta das nove horas da manhã, o Espírito
Santo veio. De lá do céu, Jesus ressuscitado transborda o seu Amor, um
Amor que desce aos borbotões, como uma cachoeira irresistível, de forma
que aqueles homens, até então medrosos, se tornam amantes corajosos de
Cristo, mártires da fé. De fato, todos os Apóstolos morreram
mártires. Apenas S. João não morreu martirizado, porque Deus o salvou
milagrosamente. Todos os outros onze, porém, morreram testemunhando a fé
cristã.
Como é possível uma tal transformação? Como é possível uma diferença
tão marcante e tão repentina? São os mesmos homens. Pedro, que na manhã
de Pentecostes saiu para falar às multidões com grande parresia,
isto é, com grande destemor, é o mesmo Pedro amedrontado que tremera os
joelhos diante da empregadinha do Sumo Sacerdote! Como é possível? É
quase uma “transubstanciação”, é quase outra pessoa.
Como é possível que seja o mesmo Pedro — o Pedro que, por
medo do vento e das ondas, afundou no mar, agora é o Pedro que morre
crucificado em Roma para testemunhar a Cristo? Como é possível? É o
mistério de Pentecostes. O Espírito Santo vem transformar-nos, dando-nos
a capacidade de amar Jesus com o amor com que Jesus mesmo nos amou. Eis
a graça.
Quando se fala de Pentecostes, o que as pessoas costumam pensar? Que
os Apóstolos estavam rezando, numa espécie de “grupo de oração”, e eis
que, de repente, veio uma efusão do Espírito Santo e todos começaram a
falar em línguas. Não foi só isso. Foi muito mais.
Ordinariamente, as pessoas não saem de grupos de oração dispostas a ser
mártires, a derramar o próprio sangue por Cristo. Pentecostes foi antes
de tudo uma mudança interior nos Apóstolos.
Não se trata apenas de fenômenos externos, de manifestações
extraordinárias ou, por assim dizer, de “fogos de artifício”. Em
Pentecostes, opera-se uma transformação nos Apóstolos, transformação que
ele quer operar em todas as almas, para que todos sejamos capazes de
realizar as obras de Cristo.
Nós católicos acreditamos na santidade. Se olhamos para Pentecostes,
vendo ali somente um momento de oração, dom de línguas e carismas, então
temos uma visão incompleta e, no fundo, quase protestante. Os
pentecostais acreditam na ação do Espírito Santo, mas numa ação que não
muda de fato o coração do homem. O “crente” continua tão
pecador quanto antes, a operar as mesmas obras de iniquidade. O Espírito
Santo, segundo os pentecostais, faz milagres, dá o dom da oração, dá o
dom de línguas, de profecia etc., mas o “crente” permanece egoísta.
Porque os protestantes não crêem na santidade.
É uma visão incompleta. Em Pentecostes, dá-se uma transformação real
na alma, a qual se torna santa e capaz de operar o grande milagre
chamado amor-caridade, isto é, amar a Deus mais do que a si
mesmo, mais do que a todas as outras coisas. A alma passa a ser
impulsionada pelo amor de Cristo, como diz S. Paulo (2 Cor 5, 14): Caritas Christi urget nos, “o amor de Cristo nos impele”!
É um amor que nós, seres humanos, não podemos dar-nos a nós mesmos.
Somente o Espírito Santo no-lo pode dar. A Igreja Católica tem dois mil
anos de história, com milhares de homens e mulheres santos e sábios que
fizeram obras milagrosas de amor, nas quais se vê claramente que não são puramente humanas. Os santos podem dizer como S. Paulo aos gálatas: “Vivo, mas não eu; é Cristo que vive em mim” (Gl 2, 20). Porque é Jesus quem faz tais maravilhas.
Mas o que é que acontece na alma de quem começa a agir como Cristo? É aquilo que em teologia ascética e mística se chama Quinta Morada,
segundo a linguagem de S. Teresa. A conversão, como sabemos, tem vários
estágios. O fiel se converte, pede perdão de seus pecados, é purificado
no Batismo ou na Confissão e, a partir daí, precisa passar por algumas
etapas, que podem às vezes levar muito tempo, quase uma vida inteira. Os
apóstolos em Pentecostes, no entanto, receberam tudo de uma vez. De
repente, eles foram pelo menos para a Quinta Morada.
Em Pentecostes, vemos algo típico da Quinta Morada. E o que é mesmo
Pentecostes? Só podemos dizer que um católico viveu o mistério
Pentecostes se ele já entrou na Quinta Morada; se ele não entrou na
Quinta Morada, o Pentecostes para ele ainda não aconteceu. Isso não quer
dizer que o Espírito Santo não tenha agido. Sim, o Espírito Santo age
em nós sempre, e é graças a ele que nos convertemos, antes de tudo.
Mas o que caracteriza Pentecostes é o fenômeno básico da transformação interior,
como a que vemos nos Apóstolos. De covardes e medrosos que eram,
tornaram-se mártires da fé, pessoas que amam Jesus abundantemente. Essa
transformação é a substância de Pentecostes, a qual só acontece quando a
alma entra na Quinta Morada. Mas o que é, afinal, a Quinta Morada?
Quando começamos a ter vida de oração, se a oração for autêntica, ela
nos irá transformar, porque é Deus quem ali age. Nas Moradas anteriores
— Primeira, Segunda, Terceira e Quarta Moradas —, a pessoa pode muitas
vezes ficar em dúvida, sem saber se suas orações, mesmo as mais
sublimes, procedem de fato do Espírito Santo ou de sua própria cabeça.
Mas quando se entra na Quinta Morada, há um toque da graça na alma que
nela imprime a certeza de que é Deus quem está agindo.
Essa impressão é tão profunda, tão clara, tão evidente, que ninguém pode mais instalar qualquer dúvida na cabeça do fiel. Ele sabe
que é Deus. Se um diretor espiritual lhe disser que é tudo imaginação,
nem mesmo assim o fiel mudará de ideia. Ele sabe ter recebido um toque
de Deus.
Na Quinta Morada, com efeito, Deus não toca na inteligência, na
vontade nem nas faculdades, mas no fundo da alma, de tal forma que a
pessoa, sem entender com a inteligência, sabe, mas experimentalmente,
que aquilo foi Deus, isto é, um toque do Espírito Santo. E o que esse
toque faz na alma? Impulsiona-a a amar ainda mais a Cristo: Caritas Christi urget nos.
S. Teresa o descreve da seguinte maneira no c. II das “Quintas Moradas” do Castelo Interior,
n. 7: “Logo começa a sentir o anseio de padecer grandes sofrimentos sem
poder fazer outra coisa, tem grandíssimos desejos de penitência, de
solidão e de que todos conheçam a Deus”. Isso é Pentecostes. Quando
lemos a vida dos santos, ficamos admirados de vê-los querer sofrer por Jesus. Será “alucinação” da cabeça deles? O que leva uma pessoa a querer sofrer por Jesus?…
Não, é um amor incontrolável, um desejo sobrenatural
de dar tudo por Jesus e sofrer por Ele. Não é algo humano, mas um toque
da graça no fundo da alma, que a torna disposta a padecer tudo por
Cristo, como se até os sofrimentos dos mártires fossem pouco. Quem está
na Quinta Morada é capaz de tudo, porque houve um toque transformador.
Isso é Pentecostes. Foi isso que aconteceu com S. Pedro e os Apóstolos.
Aqueles homens medrosos, fechados no Cenáculo por medo dos judeus, de
repente abrem as portas e querem dar a vida por Cristo, querem morrer
por Cristo, querem que todos amem e conheçam a Deus!
É o que Santa Teresa acabou de descrever: “Tem grandíssimos desejos
de penitência, de solidão e de que todos conheçam a Deus”. As almas de
Quinta Morada são capazes de tudo para que as pessoas conheçam e amem a
Deus, e é assim que a Igreja se torna missionária, assim a Igreja se
torna ad gentes, uma Igreja para as missões, uma Igreja “em
saída” — para usar uma expressão que se tornou popular. É a Igreja que
sai do Cenáculo e vai pregar o Evangelho sem medo. Em Pentecostes, a
Igreja entrou na Quinta Morada.
Ora, quem não entrou na Quinta Morada ainda não tem essa
graça. Não quer dizer que não devamos ser missionários. Sim, devemos
sê-lo sempre; mas precisamos urgentemente pedir a Deus a graça de entrar
na Quinta Morada. Com efeito, vivemos tempos conturbados. Tudo indica
que haverá um grande martírio dentro da Igreja, uma grande perseguição.
Se não estivermos prontos para ser mártires, o que vai acontecer?
Apostasia! É urgentíssimo haver outro Pentecostes na Igreja, para que
alcancemos a Quinta Morada, senão, na hora do “vamos ver”, iremos
fracassar.
Ser santo não é um capricho nem um luxo para membros de uma elite.
Vivemos numa época da Igreja em que ou seremos santos ou não seremos
nada. Ou buscamos com todas as veras do coração a santidade, a
transformação que o Espírito Santo quer fazer em nós, ou não seremos
nada e vamos nos perder. Porque virá a grande perseguição, a grande
apostasia, o momento em que teremos de nos erguer à altura dos Apóstolos
e ser mártires da fé. Alegremente, alegremente!
Quando o Espírito Santo imprime no fundo da alma a sabedoria, ela aprende a saborear a cruz.
É a grande alegria de amar Cristo de volta — eis aí a nossa grande
realização. É nisso, portanto, que somos bem-aventurados. Afinal, por
que Jesus diz que é bem-aventurado o pobre, o perseguido, e caluniado, o
que chora, o que tem fome e sede de justiça etc.? Porque é Cristo quem
vive neles. Isso é Pentecostes.
Não deixemos que os fenômenos exteriores de Pentecostes, como os dons
carismáticos etc., nos desviem do que é o centro, o cerne, a essência
de Pentecostes: o Espírito Santo quer vir sobre nós, porque ele, alma da
Igreja, quer fazer os membros realizarem as mesmas obras da Cabeça.
E se Cristo morreu por nós na cruz, pelo Espírito Santo também nós
nos tornamos capazes de morrer por Ele. Não por um esforço humano, é
verdade, mas pela graça divina. Sem ela, a cruz se torna um
moralismo esmagador, do qual não damos conta por nós mesmos. Se, no
entanto, fizermos o caminho das Moradas, passarmos pelas transformações
interiores necessárias para chegar até a Quinta Morada, amar Jesus será
para nós coisa leve e doce.
Os tormentos, as penas mais tremendas, tudo será leve e saboroso,
como vemos na vida dos santos. Sim, nesses dois mil anos de Igreja, a
vida dos santos atesta que isso é verdade. Não se trata de uma
mentalidade “dolorista” de tempos passados. Trata-se de amor
sobrenatural: Caritas Christi urget nos. Isso é Pentecostes. Não há Pentecostes sem Quinta Morada. O resto são fogos de artifícios, fenomenologia externa.
Sim, Quinta Morada é obrigação de todos. Precisamos
querê-la, precisamos querer ser transformados. Não fiquemos dando voltas
ao redor do Castelo, ainda nas primeiras Moradas, como se já fosse o
bastante. Contentar-se com o mínimo nunca foi bom o bastante em época
nenhuma do cristianismo, muito menos na nossa, em que estamos diante da
grande perseguição, da grande apostasia.
Ou estaremos na Quinta Morada, prontos para derramar alegremente o
nosso sangue por Cristo, ou não teremos realizado absolutamente nada.
Que o Espírito Santo venha sobre nós e nos ilumine, fazendo-nos procurar
os meios para viver e chegar à Quinta Morada. Sem isso, nada dará
certo.