quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

2ª Semana da Quaresma - Aonde pode levar a incredulidade?

 LEITURA ORANTE: Lc 16,19-31 - Parábola do Rico (sem nome) e do pobre Lázaro  (=Deus é ajuda)

Antífona

Provai-me, ó Deus, e conhecei meus pensamentos: vede se ando pela vereda do mal e conduzi-me no caminho da eternidade (Sl 138,23s).

A Quaresma é tempo oportuno para renovarmos nossa confiança e esperança no Senhor, as quais são fonte de vida para nós, como a água para a árvore. Busquemos nos enriquecer com tudo o que nos leva para perto, e não longe, de Deus.

Primeira Leitura: Jeremias 17,5-10

Nosso modo de viver neste mundo tem consequências para a eternidade. Quem faz a vontade de Deus se abre para socorrer os irmãos, principalmente os mais necessitados.

Leitura do livro do profeta Jeremias5Isto diz o Senhor: “Maldito o homem que confia no homem e faz consistir sua força na carne humana, enquanto o seu coração se afasta do Senhor; 6como os cardos no deserto, ele não vê chegar a floração, prefere vegetar na secura do ermo, em região salobra e desabitada. 7Bendito o homem que confia no Senhor, cuja esperança é o Senhor; 8é como a árvore plantada junto às águas, que estende as raízes em busca de umidade, por isso não teme a chegada do calor: sua folhagem mantém-se verde – não sofre míngua em tempo de seca e nunca deixa de dar frutos. 9Em tudo é enganador o coração, e isso é incurável; quem poderá conhecê-lo? 10Eu sou o Senhor, que perscruto o coração e provo os sentimentos, que dou a cada qual conforme o seu proceder e conforme o fruto de suas obras”. – Palavra do Senhor.

Salmo Responsorial: 1

É feliz quem a Deus se confia!

1. Feliz é todo aquele que não anda / conforme os conselhos dos perversos; / que não entra no caminho dos malvados / nem junto aos zombadores vai sentar-se; / mas encontra seu prazer na lei de Deus / e a medita, dia e noite, sem cessar. – R.

2. Eis que ele é semelhante a uma árvore / que à beira da torrente está plantada; / ela sempre dá seus frutos a seu tempo, † e jamais as suas folhas vão murchar. / Eis que tudo o que ele faz vai prosperar. – R.

3. Mas bem outra é a sorte dos perversos. † Ao contrário, são iguais à palha seca / espalhada e dispersada pelo vento. / Pois Deus vigia o caminho dos eleitos, / mas a estrada dos malvados leva à morte. – R.

Evangelho: Lucas 16,19-31

Glória a Cristo, Palavra eterna do Pai, que é amor!

Felizes os que observam / a Palavra do Senhor de reto coração / e que produzem muitos frutos, / até o fim perseverantes! (Lc 8,15) – R.

Proclamação do santo Evangelho segundo Lucas – Naquele tempo, disse Jesus aos fariseus: 19“Havia um homem rico, que se vestia com roupas finas e elegantes e fazia festas esplêndidas todos os dias. 20Um pobre, chamado Lázaro, cheio de feridas, estava no chão, à porta do rico. 21Ele queria matar a fome com as sobras que caíam da mesa do rico. E, além disso, vinham os cachorros lamber suas feridas. 22Quando o pobre morreu, os anjos levaram-no para junto de Abraão. Morreu também o rico e foi enterrado. 23Na região dos mortos, no meio dos tormentos, o rico levantou os olhos e viu de longe a Abraão, com Lázaro ao seu lado. 24Então gritou: ‘Pai Abraão, tem piedade de mim! Manda Lázaro molhar a ponta do dedo para me refrescar a língua, porque sofro muito nestas chamas’. 25Mas Abraão respondeu: ‘Filho, lembra-te que tu recebeste teus bens durante a vida e Lázaro, por sua vez, os males. Agora, porém, ele encontra aqui consolo e tu és atormentado. 26E, além disso, há um grande abismo entre nós: por mais que alguém desejasse, não poderia passar daqui para junto de vós e nem os daí poderiam atravessar até nós’. 27O rico insistiu: ‘Pai, eu te suplico, manda Lázaro à casa do meu pai, 28porque eu tenho cinco irmãos. Manda preveni-los, para que não venham também eles para este lugar de tormento’. 29Mas Abraão respondeu: ‘Eles têm Moisés e os Profetas, que os escutem!’ 30O rico insistiu: ‘Não, pai Abraão, mas se um dos mortos for até eles, certamente vão se converter’. 31Mas Abraão lhe disse: ‘Se não escutam a Moisés nem aos Profetas, eles não acreditarão, mesmo que alguém ressuscite dos mortos'”. – Palavra da salvação.

Reflexão
No Evangelho de hoje, conta-nos Jesus a parábola do pobre Lázaro e do rico epulão, dois extremos em vida que tiveram fins extremos na morte: o primeiro, pobre e coberto de feridas, teve a dita de entrar pela mão dos anjos no Reino celeste, enquanto o segundo, rico e trajado de luxo, teve de compensar as farturas desta existência com a perdição na outra. No entanto, entenderíamos mal essa história se quiséssemos ver em dois destinos tão opostos doutrinas sobre política ou injustiças de classe. Não está Nosso Senhor a dizer que os ricos, por serem ricos, necessariamente se condenam, por serem necessariamente maus, nem que os pobres, pelo fato de o serem, irão sem falta para o céu, para lá gozarem do que aqui careceram. O Evangelho não é cartilha de partido e, apesar de conter muitos e valiosos critérios para organizar a vida em sociedade, não se ordena primariamente a esta vida na terra, mas à outra no céu. Ora, se não é a condição social nem a posse de riquezas o que tem em mira Nosso Senhor ao contar essa parábola, por que é que se condena o rico e se salva o pobre? Ouçamos o que responde Abraão à prece do rico: “Se” os de tua casa “não escutam a Moisés nem aos Profetas, eles não acreditarão, mesmo que alguém ressuscite dos mortos”, e por isso é quase certo que, se assim permanecerem, virão fazer-te companhia no lugar de tormentos. Pois não foi tanto a riqueza quanto a incredulidade o que condenou o rico, e se o Evangelho nos diz linhas antes: “Lembra-te de que recebeste teus bens durante”, não é para condenar as riquezas, mas para lembrar que elas se usam mal e conduzem para o inferno quando não se tem verdadeira fé, ou seja, quando se põe o coração nos bens que passam e se esquece dos que não hão-de passar. O problema, portanto, não é ter posses; o problema é ter o coração tão pobre e tão duro que nem a vista dum morto ressuscitado o faça crer em Deus. Eis a advertência que o Evangelho de hoje faz pesar sobre as nossas consciências. Não deixemos que o amor às riquezas terrenas sufoque nossa esperança das celestes, nem que a nossa pouca fé se extinga a ponto de só crermos no que satisfaz à carne. E se Cristo nos quis pobres de bens, que nos faça ricos de coração e virtude; mas, se lhe aprouve cumular-nos de riquezas da terra, que nos dê também a graça de aspirarmos sobretudo às celestes.


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quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

2ª Semana da Quaresma - Nós não sabemos o que pedimos.

 Mt 20,17-28 « Paróquia Sagrado Coração de Jesus

Antífona

Não me abandoneis, Senhor, meu Deus, nem fiqueis longe de mim! Vinde em meu auxílio, ó Senhor, força da minha salvação! (Sl 37,22s)

Por ser fiel à sua missão, o mensageiro de Deus sofre ameaças e perseguições. Em sua aflição, recorre ao Senhor, com a confiança do salmista: “Sois o meu refúgio protetor”. Confiemos ao Senhor todas as nossas preocupações, e ele cuidará de nós.

Primeira Leitura: Jeremias 18,18-20

Para Jesus, servir significa dar a vida pelos outros: “O Filho do Homem veio… para servir e dar sua vida como resgate em favor de muitos”.

Leitura do livro do profeta Jeremias – Naqueles dias, 18disseram eles: “Vinde para conspirarmos juntos contra Jeremias; um sacerdote não deixará morrer a lei; nem um sábio, o conselho; nem um profeta, a palavra. Vinde para o atacarmos com a língua, e não vamos prestar atenção a todas as suas palavras”. 19Atende-me, Senhor, ouve o que dizem meus adversários. 20Acaso pode-se retribuir o bem com o mal? Pois eles cavaram uma cova para mim. Lembra-te de que fui à tua presença para interceder por eles e tentar afastar deles a tua ira. – Palavra do Senhor.

Salmo Responsorial: 30(31)

Salvai-me pela vossa compaixão, ó Senhor Deus!

1. Retirai-me desta rede traiçoeira, / porque sois o meu refúgio protetor! / Em vossas mãos, Senhor, entrego o meu espírito, / porque vós me salvareis, ó Deus fiel! – R.

2. Ao redor, todas as coisas me apavoram; / ouço muitos cochichando contra mim; / todos juntos se reúnem, conspirando / e pensando como vão tirar-me a vida. – R.

3. A vós, porém, ó meu Senhor, eu me confio / e afirmo que só vós sois o meu Deus! / Eu entrego em vossas mãos o meu destino; / libertai-me do inimigo e do opressor! – R.

Evangelho: Mateus 20,17-28

Salve, Cristo, luz da vida, / companheiro na partilha!

Eu sou a luz do mundo; / aquele que me segue / não caminha entre as trevas, / mas terá a luz da vida (Jo 8,12). – R.

Proclamação do santo Evangelho segundo Mateus – Naquele tempo, 17enquanto Jesus subia para Jerusalém, ele tomou os doze discípulos à parte e, durante a caminhada, disse-lhes: 18“Eis que estamos subindo para Jerusalém, e o Filho do Homem será entregue aos sumos sacerdotes e aos mestres da Lei. Eles o condenarão à morte 19e o entregarão aos pagãos para zombarem dele, para flagelá-lo e crucificá-lo. Mas no terceiro dia ressuscitará”. 20A mãe dos filhos de Zebedeu aproximou-se de Jesus com seus filhos e ajoelhou-se com a intenção de fazer um pedido. 21Jesus perguntou: “O que tu queres?” Ela respondeu: “Manda que estes meus dois filhos se sentem, no teu reino, um à tua direita e outro à tua esquerda”. 22Jesus, então, respondeu-lhes: “Não sabeis o que estais pedindo. Por acaso podeis beber o cálice que eu vou beber?” Eles responderam: “Podemos”. 23Então Jesus lhes disse: “De fato, vós bebereis do meu cálice, mas não depende de mim conceder o lugar à minha direita ou à minha esquerda. Meu Pai é quem dará esses lugares àqueles para os quais ele os preparou”. 24Quando os outros dez discípulos ouviram isso, ficaram irritados contra os dois irmãos. 25Jesus, porém, chamou-os e disse: “Vós sabeis que os chefes das nações têm poder sobre elas e os grandes as oprimem. 26Entre vós não deverá ser assim. Quem quiser tornar-se grande torne-se vosso servidor; 27quem quiser ser o primeiro seja vosso servo. 28Pois o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como resgate em favor de muitos”. – Palavra da salvação.

Reflexão
No Evangelho de hoje, faz a mãe dos filhos de Zebedeu o que fazemos nós muitas vezes em oração. Aproximou-se ela do Senhor e, ajoelhando-se em sinal de reverência, fez-lhe um pedido cheio de fé na autoridade dEle e no poder de lho conceder: “Manda que estes meus dois filhos se sentem, no teu Reino, um à tua direita e outro à tua esquerda”. Ora, tem esta oração de Maria Salomé inegáveis qualidades: a) é piedosa e reverente, como vemos no recato de seu corpo: “Aproximou-se de Jesus […] e ajoelhou-se”; b) é confiante e humilde, como vemos na discrição com que esperou Cristo tomar a palavra: “[…] com a intenção de fazer um pedido, e Jesus perguntou: ‘Que queres?’”; c) é desinteressada, porque pede não para si, mas para seus filhos: “Manda que estes meus dois filhos”; d) é, em síntese, honesta por seu objeto, pois não pede menos do que a glória que têm os santos no Reino dos Céus: “[…] se sentem, no teu Reino, um à tua direita e outro à tua esquerda”. E no entanto, apesar de tantas qualidades, não só não lhe fez caso o Senhor como repreendeu os que, pela embaixada da mãe, não ousaram pedir-Lho diretamente: “Não sabeis o que estais pedindo”. São estas as qualidades que muitas vezes tem a nossa oração, e é este quase sempre o despacho que ouvimos de Cristo: “Não sabeis o que estais pedindo”. E por que saímos tantas vezes frustrados da oração, se tanto esforço pomos em fazê-la com as qualidades que Deus nos recomenda? Porque, por mais recato que guardemos no corpo, por mais confiança que tenhamos ao rezar, por mais honesto que seja o nosso pedido, o queremos pelos nossos meios e caminhos, nem sempre conformes aos de Cristo: “Por acaso podeis beber o cálice que eu vou beber?” Jesus quer que dEle nos aproximemos com fé e esperança, com confiança e humildade, de joelhos no chão, desejosos de alcançar os dons que Ele nos quer dar, mas não sem a cruz com a qual no-los mereceu. Deve a nossa oração, portanto, despir-se dessa lógica demasiado humana que quer a glória sem a cruz, o Tabor sem o Gólgota, a vida imortal sem a morte da Páscoa: “Por acaso podeis beber o cálice que eu vou beber?” Se nos dispusermos pois a beber deste cálice, tomando às costas a nossa cruz, seguindo a Cristo até o Calvário para com Ele sermos crucificados, então, sim, Lhe serão aceitáveis os nossos pedidos, porque o teremos querido pelos meios com que Ele no-los quer conceder: “De fato, vós bebereis do meu cálice”.


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terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

2ª Semana da Quaresma - Vaidade e hipocrisia.

 10/03 - Evangelho do Dia: Mt 23,1-12 - Rádio Rainha da Paz

Antífona

Iluminai meus olhos, Senhor, para que eu não adormeça no sono da morte. Que meu inimigo não possa dizer: triunfei sobre ele (Sl 12,4s).

Pela boca do profeta, Deus convida o povo a abandonar os vícios de uma sociedade injusta e assumir uma vida social que defenda os fracos e oprimidos. Do contrário, a ruína virá. Abramos os ouvidos e o coração aos apelos divinos.

Primeira Leitura: Isaías 1,10.16-20

Jesus censura uma religião sem consistência, sem bom testemunho: “Não imiteis suas ações! Pois eles falam e não praticam”. Para corrigir essa tendência, o Mestre propõe o serviço generoso em favor do próximo.

Leitura do livro do profeta Isaías10Ouvi a palavra do Senhor, magistrados de Sodoma, prestai ouvidos ao ensinamento do nosso Deus, povo de Gomorra. 16Lavai-vos, purificai-vos. Tirai a maldade de vossas ações de minha frente. Deixai de fazer o mal! 17Aprendei a fazer o bem! Procurai o direito, corrigi o opressor. Julgai a causa do órfão, defendei a viúva. 18Vinde, debatamos – diz o Senhor. Ainda que vossos pecados sejam como púrpura, tornar-se-ão brancos como a neve. Se forem vermelhos como o carmesim, tornar-se-ão como lã. 19Se consentirdes em obedecer, comereis as coisas boas da terra. 20Mas se recusardes e vos rebelardes, pela espada sereis devorados, porque a boca do Senhor falou! – Palavra do Senhor.

Salmo Responsorial: 49(50)

A todos os que procedem retamente / eu mostrarei a salvação que vem de Deus.

1. “Eu não venho censurar teus sacrifícios, / pois sempre estão perante mim teus holocaustos; / não preciso dos novilhos de tua casa / nem dos carneiros que estão nos teus rebanhos. – R.

2. Como ousas repetir os meus preceitos / e trazer minha aliança em tua boca? / Tu que odiaste minhas leis e meus conselhos / e deste as costas às palavras dos meus lábios! – R.

3. Diante disso que fizeste, eu calarei? / Acaso pensas que eu sou igual a ti? / É disso que te acuso e repreendo, / e manifesto essas coisas aos teus olhos. – R.

4. Quem me oferece um sacrifício de louvor, / este, sim, é que me honra de verdade. / A todo homem que procede retamente / eu mostrarei a salvação que vem de Deus.” – R.

Evangelho: Mateus 23,1-12

Salve, ó Cristo, imagem do Pai, / a plena verdade nos comunicai!

Lançai para bem longe toda a vossa iniquidade! / Criai em vós um novo espírito e um novo coração! (Ez 18,31) – R.

Proclamação do santo Evangelho segundo Mateus – Naquele tempo, 1Jesus falou às multidões e aos seus discípulos e lhes disse: 2“Os mestres da Lei e os fariseus têm autoridade para interpretar a Lei de Moisés. 3Por isso, deveis fazer e observar tudo o que eles dizem. Mas não imiteis suas ações! Pois eles falam e não praticam. 4Amarram pesados fardos e os colocam nos ombros dos outros, mas eles mesmos não estão dispostos a movê-los nem sequer com um dedo. 5Fazem todas as suas ações só para serem vistos pelos outros. Eles usam faixas largas, com trechos da Escritura, na testa e nos braços e põem na roupa longas franjas. 6Gostam de lugar de honra nos banquetes e dos primeiros lugares nas sinagogas. 7Gostam de ser cumprimentados nas praças públicas e de serem chamados de Mestre. 8Quanto a vós, nunca vos deixeis chamar de Mestre, pois um só é vosso Mestre e todos vós sois irmãos. 9Na terra, não chameis a ninguém de pai, pois um só é vosso Pai, aquele que está nos céus. 10Não deixeis que vos chamem de guias, pois um só é o vosso Guia, Cristo. 11Pelo contrário, o maior dentre vós deve ser aquele que vos serve. 12Quem se exaltar será humilhado, e quem se humilhar será exaltado”. – Palavra da salvação.

Reflexão

O Evangelho da Missa nos chama hoje a meditar sobre o pecado da vaidade, mãe de inúmeros e disformes rebentos — dentre eles, a hipocrisia, sempre duramente repreendida por Nosso Senhor. "Quem se exaltar será humilhado", assim termina a leitura desta 3.ª-feira, "e quem se humilhar será exaltado". Nisto consiste, pois, a vaidade: no desejo desordenado que todos temos por manifestar aos outros as nossas "excelências" vazias, as nossas "glórias" de pés de barro (cf. Dn 2, 33), os nossos méritos imerecidos. Queremos parecer o que não somos, exibir o que não temos, fazer o que não podemos.

Pretendemos roubar a Deus o louvor que só a Ele é devido e esquecemo-nos de que, se há em nós algo de bom, foi dEle mesmo que o recebemos. Pois sem Ele, que opera em nós tanto o querer quanto o fazer (cf. Fl 2, 13), somos como varas secas, decepadas da videira (cf. Jo 15, 5). Quantas vezes ao dia não colocamos as nossas máscaras e, quais sepulcros caiados (cf. Mt 23, 27), julgamo-nos melhores que os outros, comprazemo-nos diante da nossa piedade — jejuns, esmolas, orações... — e, esquecidos de nossas inúmeras misérias e da infinita misericórdia do Senhor, pensamos ser os autores de todo o bem que fazemos!

O remédio para esse apetite louco e vão, que nos impele a tomar o lugar do Altíssimo, é reconhecer todos os dias, com fervor e sinceridade, os santos direitos de Deus: dar a Ele o que lhe é devido e recusar dar a nós mesmos, ao mundo e aos homens a honra e o louvor que somente podem pertencer Àquele que tudo fez com sabedoria e bondade. Que a Virgem Santíssima, Espelho da justiça, nos ajude a tudo fazermos para a maior glória de Deus, bendito pelos séculos. A nós, vermes e servos inúteis, o pecado e a vergonha; a Ele, três vezes santo, o poder e glória para sempre!

 
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domingo, 25 de fevereiro de 2024

2º Domingo da Quaresma - A Transfiguração e a nossa vida de oração.

Sábado da 6ª Semana do Tempo Comum – Paróquia São Judas Tadeu

Primeira Leitura (Gn 22,1-2.9a.10-13.15-18)

Leitura do Livro do Gênesis:

Naqueles dias, Deus pôs Abraão à prova. Chamando-o, disse: “Abraão!” E ele respondeu: “Aqui estou”. E Deus disse: “Toma teu filho único, Isaac, a quem tanto amas, dirige-te à terra de Moriá e oferece-o aí em holocausto sobre um monte que eu te indicar”. 9a Chegados ao lugar indicado por Deus, Abraão ergueu um altar, colocou a lenha em cima, amarrou o filho e o pôs sobre a lenha em cima do altar. 10 Depois, estendeu a mão, empunhando a faca para sacrificar o filho. 11 E eis que o anjo do Senhor gritou do céu, dizendo: “Abraão! Abraão!” Ele respondeu: “Aqui estou”. 12 E o anjo lhe disse: “Não estendas a mão contra teu filho e não lhe faças nenhum mal! Agora sei que temes a Deus, pois não me recusaste teu filho único”. 13 Abraão, erguendo os olhos, viu um carneiro preso num espinheiro pelos chifres; foi buscá-lo e ofereceu-o em holocausto no lugar do seu filho.

15 O anjo do Senhor chamou Abraão, pela segunda vez, do céu, 16 e lhe disse: “Juro por mim mesmo – oráculo do Senhor –, uma vez que agiste deste modo e não me recusaste teu filho único, 17 eu te abençoarei e tornarei tão numerosa tua descendência como as estrelas do céu e como as areias da praia do mar. Teus descendentes conquistarão as cidades dos inimigos. 18 Por tua descendência serão abençoadas todas as nações da terra, porque me obedeceste”.

- Palavra do Senhor.

- Graças a Deus.

Salmo Responsorial Sl 115(116B),10.15.16-17.18-19 (R. Sl 114,9)

— Andarei na presença de Deus, junto a ele na terra dos vivos.

— Andarei na presença de Deus, junto a ele na terra dos vivos.

— Guardei a minha fé, mesmo dizendo: “É demais o sofrimento em minha vida!” É sentida por demais pelo Senhor a morte de seus santos, seus amigos.

— Eis que sou o vosso servo, ó Senhor, vosso servo que nasceu de vossa serva; mas me quebrastes os grilhões da escravidão! Por isso oferto um sacrifício de louvor, invocando o nome santo do Senhor.

— Vou cumprir minhas promessas ao Senhor na presença de seu povo reunido; nos átrios da casa do Senhor, em teu meio, ó cidade de Sião!

Segunda Leitura (Rm 8,31b-34)

Leitura da Carta de São Paulo aos Romanos:

Irmãos: 31b Se Deus é por nós, quem será contra nós? 32 Deus, que não poupou seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós, como não nos daria tudo junto com ele?

33 Quem acusará os escolhidos de Deus? Deus, que os declara justos? 34 Quem condenará? Jesus Cristo, que morreu, mais ainda, que ressuscitou, e está à direita de Deus, intercedendo por nós?

- Palavra do Senhor.

- Graças a Deus.

Anúncio do Evangelho (Mc 9,2-10)

— Louvor a vós, ó Cristo, rei da eterna glória.

— Numa nuvem resplendente fez-se ouvir a voz do Pai: Eis meu Filho muito amado, escutai-o, todos vós. (cf. Lc 9,35)

PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Marcos.

— Glória a vós, Senhor!

Naquele tempo, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, e os levou sozinhos a um lugar à parte sobre uma alta montanha. E transfigurou-se diante deles. Suas roupas ficaram brilhantes e tão brancas como nenhuma lavadeira sobre a terra poderia alvejar. Apareceram-lhe Elias e Moisés, e estavam conversando com Jesus.  Então Pedro tomou a palavra e disse a Jesus: “Mestre, é bom ficarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias”. Pedro não sabia o que dizer, pois estavam todos com muito medo. Então desceu uma nuvem e os encobriu com sua sombra. E da nuvem saiu uma voz: “Este é o meu Filho amado. Escutai o que ele diz!” E, de repente, olhando em volta, não viram mais ninguém, a não ser somente Jesus com eles. Ao descerem da montanha, Jesus ordenou que não contassem a ninguém o que tinham visto, até que o Filho do Homem tivesse ressuscitado dos mortos. 10 Eles observaram essa ordem, mas comentavam entre si o que queria dizer “ressuscitar dos mortos”.

Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

 Reflexão

O evento extraordinário da Transfiguração do Senhor, na qual as roupas de de Cristo "ficaram brilhantes e tão brancas como nenhuma lavadeira sobre a terra poderia alvejar", confirmam aquelas palavras com que começa o Evangelho segundo São João: Ele é, por essência, a "verdadeira luz que, vindo ao mundo, ilumina todo homem" (Jo 1, 9). Jesus, tal como confessara São Pedro faz poucos dias, é muito mais do que um profeta; é o próprio Filho de Deus, Aquele de quem falaram Moisés, Elias e todas as Escrituras (cf. Lc 24, 27), Aquele, enfim, no qual o Pai pôs todo o seu agrado e a cujas palavras devemos estar atentos: "Escutai o que ele diz"! Que estas verdades de que hoje nos recorda o Evangelho nos estimulem a uma vida de oração ainda mais intensa e profunda, enriquecida pela Palavra sempre nova de Deus e iluminada pela luz de Cristo. Para isso, peçamos a Deus com mais fervor que enraíze em nós a virtude da fé para que, perseverando com sua santa ajuda no estado de graça, comunguemos sempre com maior proveito e possamos encontrar-nos em nossa intimidade com Jesus, verdadeiro Deus conosco (cf. Is 7, 14; Mt 1, 23).

 

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sábado, 24 de fevereiro de 2024

1ª Semana da Quaresma - É possível amar os inimigos?

 Por que devemos amar nossos inimigos?

Primeira Leitura (Dt 26,16-19)

Leitura do Livro do Deuteronômio.

Moisés dirigiu a palavra ao povo de Israel e lhe disse: 16 “Hoje, o Senhor teu Deus te manda cumprir esses preceitos e decretos. Guarda-os e observa-os com todo o teu coração e com toda a tua alma.

17 Tu escolheste hoje o Senhor para ser o teu Deus, para seguires os seus caminhos, e guardares seus preceitos, mandamentos e decretos, e para obedecerdes à sua voz. 18 E o Senhor te escolheu, hoje, para que sejas para ele um povo particular, como te prometeu, a fim de observares todos os seus mandamentos. 19 Assim ele te fará ilustre entre todas as nações que criou, e te tornará superior em honra e glória, a fim de que sejas o povo santo do Senhor teu Deus, como ele disse”.

- Palavra do Senhor.

- Graças a Deus.

Responsório Sl 118(119),1-2.4-5.7-8 (R. 1b)

— Feliz é quem na lei do Senhor Deus vai progredindo!

— Feliz é quem na lei do Senhor Deus vai progredindo!

— Feliz o homem sem pecado em seu caminho, que na lei do Senhor Deus vai progredindo! Feliz o homem que observa seus preceitos, e de todo o coração procura Deus!

— Os vossos mandamentos vós nos destes, para serem fielmente observados. Oxalá seja bem firme a minha vida em cumprir vossa vontade e vossa lei!

— Quero louvar-vos com sincero coração, pois aprendi as vossas justas decisões. Quero guardar vossa vontade e vossa lei; Senhor, não me deixeis desamparado!

Evangelho (Mt 5,43-48)

— Salve, ó Cristo, imagem do Pai, a plena verdade nos comunicai!

— Eis o tempo de conversão, eis o dia da salvação. (2Cor 6,2b)
 

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Mateus.

— Glória a vós, Senhor!

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 43 “Vós ouvistes o que foi dito: ‘Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo!’ 44 Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem!

45 Assim, vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos céus, porque ele faz nascer o sol sobre maus e bons, e faz cair a chuva sobre os justos e injustos. 46 Porque, se amais somente aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Os cobradores de impostos não fazem a mesma coisa?

47 E se saudais somente os vossos irmãos, o que fazeis de extraordinário? Os pagãos não fazem a mesma coisa? 48 Portanto, sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito”.

Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

Se Deus não pede impossíveis e o Evangelho é, por definição, uma boa-nova, como é possível que o Senhor nos dê hoje uma tão má notícia como o dever de amarmos a quem nos odeia e fazermos bem aos que nos maltratam? “Eu, porém, vos digo”, prescreve Ele como novo Moisés: “Amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem”. Mas se às vezes é tão difícil amar como devemos a quem nos ama, como pode o Senhor, que assegura ter um fardo leve, impor-nos agora o jugo de devermos amar a quem não nos quer bem? A razão, dizia Chesterton, é porque os amigos, a quem não parece custoso amar, e os inimigos, que parecem merecer o nosso ódio, são quase sempre a mesma pessoa. De fato, não há ninguém que não se ame a si mesmo e, por necessidade natural, busque o próprio bem; mas quantas vezes nos declaramos guerra a nós mesmos, amando-nos com tal desordem que mais parece que nos queremos destruir! Não há ninguém que não ame os próprios pais; mas com que frequência, por pequenos desentendimentos, chegamos a tratá-los como não trataríamos um desconhecido. Não há ninguém que, no fundo da alma, não anseie por Deus como ao seu último fim; mas quantos são os que, mesmo conscientes deste desejo tão natural e próprio de qualquer criatura, o rejeitam como ao seu pior inimigo! Quando nos manda, logo, amar aos que nos odeiam e perseguem, Jesus não está ajuntando ao de amar o próximo um novo mandamento, mas esclarecendo sob que condição o nosso amor há de chegar a esses impossíveis de amar a todos. Se nos amarmos a nós, querendo-nos a virtude e a graça; se amarmos aos mais próximos, tratando-os com a paciência que tantas vezes exigem as flutuações do ânimo e a inconstância das simpatias; se amarmos a Deus de todo coração, obedecendo à sua Lei e sujeitando-nos às suas provações, então o nosso amor, tendo superado estas três inimizades, será capaz de superar com a graça todas as outras. Ninguém se amou tão retamente, ninguém amou com tanta ordem a pais e irmãos, ninguém amou a Deus com melhor amor do que Cristo, e é por esta perfeição de sua caridade que Ele nos amou a nós quando ainda éramos inimigos seus, não só nos perdoando a culpa e as ofensas, mas defendendo-nos diante do Pai com repetidas súplicas: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23, 24). Cristo, é verdade, não precisou superar inimizades, porque teve sempre um Coração retíssimo e impecável, mas quis ser causa exemplar, eficiente e meritória do amor com que nós, sim, necessitamos superá-las, a fim de chegarmos a amar, como Ele, aos que nos odeiam como nós mesmos chegamos um dia a odiá-lo. Para isso, peçamos-lhe insistemente a graça de amarmos com amor cristão, o único que pode vencer todos os ódios e inimizades, porque é o único capaz de abraçar, sob o olhar de um Pai comum, a todos os homens como a verdadeiros irmãos: “Assim vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos céus”.

 

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sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

1ª Semana da Quaresma - Por que não queremos perdoar?

 GERAÇÃO DIANTE DO SENHOR: Reflexão do Evangelho - (Mt 5,20-26)

Antífona

Livrai-me, Senhor, das minhas aflições, vede minha pequenez e minha fadiga e perdoai todos os meus pecados (Sl 24,17s).

No íntimo de cada um de nós se trava a dura luta entre o bem e o mal. Deus quer que sejamos santos. Caso ocorra o pecado, somos convidados a bater à porta da misericórdia divina, “pois no Senhor se encontra toda graça e copiosa redenção”.

Primeira Leitura: Ezequiel 18,21-28

A justiça que Jesus exige dos discípulos do Reino está alicerçada no amor fraterno, cuja prática nos leva a evitar a mínima ofensa ao próximo. A reconciliação é uma das facetas desse amor.

Leitura da profecia de Ezequiel – Assim fala o Senhor: 21“Se o ímpio se arrepender de todos os pecados cometidos, e guardar todas as minhas leis, e praticar o direito e a justiça, viverá com certeza e não morrerá. 22Nenhum dos pecados que cometeu será lembrado contra ele. Viverá por causa da justiça que praticou. 23Será que eu tenho prazer na morte do ímpio? – oráculo do Senhor Deus. Não desejo, antes, que mude de conduta e viva? 24Mas, se o justo se desviar de sua justiça e praticar o mal, imitando todas as práticas detestáveis feitas pelo ímpio, poderá fazer isso e viver? Da justiça que ele praticou, nada mais será lembrado. Por causa da infidelidade e do pecado que cometeu, por causa disso morrerá. 25Mas vós andais dizendo: ‘A conduta do Senhor não é correta’. Ouvi, vós da casa de Israel: é a minha conduta que não é correta ou, antes, é a vossa conduta que não é correta? 26Quando um justo se desvia da justiça, pratica o mal e morre, é por causa do mal praticado que ele morre. 27Quando um ímpio se arrepende da maldade que praticou e observa o direito e a justiça, conserva a própria vida. 28Arrependendo-se de todos os seus pecados, com certeza viverá; não morrerá”. – Palavra do Senhor.

Salmo Responsorial: 129(130)

Se levardes em conta nossas faltas, / quem haverá de subsistir?

1. Das profundezas eu clamo a vós, Senhor, / escutai a minha voz! / Vossos ouvidos estejam bem atentos / ao clamor da minha prece! – R.

2. Se levardes em conta nossas faltas, / quem haverá de subsistir? / Mas em vós se encontra o perdão, / eu vos temo e em vós espero. – R.

3. No Senhor ponho a minha esperança, / espero em sua palavra. / A minha alma espera no Senhor / mais que o vigia pela aurora. – R.

4. Espere Israel pelo Senhor / mais que o vigia pela aurora! / Pois no Senhor se encontra toda graça / e copiosa redenção. / Ele vem libertar a Israel / de toda a sua culpa. – R.

Evangelho: Mateus 5,20-26

Salve, ó Cristo, imagem do Pai, / a plena verdade nos comunicai!

Lançai para bem longe toda a vossa iniquidade! / Criai em vós um novo espírito e um novo coração! (Ez 18,31) – R.

Proclamação do santo Evangelho segundo Mateus – Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 20“Se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da Lei e dos fariseus, vós não entrareis no Reino dos Céus. 21Vós ouvistes o que foi dito aos antigos: ‘Não matarás! Quem matar será condenado pelo tribunal’. 22Eu, porém, vos digo, todo aquele que se encoleriza com seu irmão será réu em juízo; quem disser ao seu irmão ‘patife!’ será condenado pelo tribunal; quem chamar o irmão de tolo será condenado ao fogo do inferno. 23Portanto, quando tu estiveres levando a tua oferta para o altar e ali te lembrares que teu irmão tem alguma coisa contra ti, 24deixa a tua oferta ali diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão. Só então vai apresentar a tua oferta. 25Procura reconciliar-te com teu adversário, enquanto caminha contigo para o tribunal. Senão o adversário te entregará ao juiz, o juiz te entregará ao oficial de justiça, e tu serás jogado na prisão. 26Em verdade eu te digo, dali não sairás, enquanto não pagares o último centavo”. – Palavra da salvação.

Reflexão
O Evangelho de hoje faz parte do Sermão da Montanha, no qual Jesus, de alguma forma, nos explica mais claramente o que ensinara já no Pai-nosso: “Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”, isto é, Ele nos ensina a necessidade do perdão; mais ainda, a necessidade de, por amor, aceitar certas injustiças pacientemente. Qual é a dificuldade da sociedade em que vivemos? Trata-se de uma sociedade justicialista, na qual todo o mundo tem “direito”. Ora, como estamos num mundo em que o pecado existe, as pessoas erram, cometem pequenas ou grandes injustiças. Por isso, se quisermos reparar toda pequena injustiça que sofremos — porque, afinal, nós só temos “direitos”… —, nossa sociedade irá dilacerar-se, as famílias vão deixar de sê-lo e nada terá solução a não ser na delegacia. Mas Nosso Senhor Jesus Cristo veio ensinar-nos o perdão vivendo-o Ele mesmo. Com efeito, fomos nós os primeiros ofensores, Deus porém desceu do alto dos céus, encarnou-se para morrer por nós  e perdoar-nos de nossos pecados, ao mesmo tempo que sofria uma grande injustiça. 
Foi isso que Deus fez para nos reconciliar consigo. Mas, esquecidos que vivemos dessa misericórdia, isto é, do perdão divino, olhamos as pequenas injustiças que nossos irmãos cometem contra nós e, com a mesquinharia tacanha de quem tem tudo anotado na ponta do lápis, queremos pedir contas de cada centavo devido! Ora, que há de acontecer com nossa família, se agirmos assim? Que será de nossas amizades? Iremos morrer sós porque, entre os pecadores que somos, não pode haver comunhão se não se aprende o perdão, a paciência, o controle da ira pela docilidade, o amor ao próximo. Exemplo luminoso disso foi São Francisco de Sales. Contam os biógrafos que ele era um homem irascível, realmente colérico; mas, de tanto ele meditar a Paixão de Cristo e contemplar o exemplo de mansidão e humildade de Nosso Senhor, o Espírito Santo foi-lhe transformando o coração, tornando-o cada vez mais semelhante ao de Jesus. Assim, quando se apresentava diante de seus adversários, que tinham contra ele verdadeira raiva e ódio, S. Francisco de Sales fitava-os com doçura. Um dia, um deles se irritou e disse: “Não vais responder ao que digo? Não me dirás nada? Ficarás aí, olhando-me com este olhar?”, ao que S. Francisco respondeu: “Irmão, vou-te olhar com bondade, ainda que me arranques um olho”. Eis um exemplo de mansidão e paciência! Hoje é sexta-feira, e sexta de Quaresma. Unamo-nos à mansidão e à paciência de Nosso Senhor crucificado e aprendamos a perdoar a nossos irmãos, aprendamos a dá-lo e a pedi-lo. Somente assim iremos viver na comunhão que o Pai celeste quis realizar ao nos enviar seu Filho e derramar o Espírito Santo.


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quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

Cátedra de São Pedro, Apóstolo - “Não foi a carne nem o sangue”

 Reflexão do Evangelho - Mt 16,13-19 - Vocacional Oblata

Antífona

O Senhor disse a Simão Pedro: Eu rezei por ti, para que tua fé não se apague. E tu, uma vez convertido, fortalece os teus irmãos (Lc 22,32).

A cátedra é o símbolo da liderança de Pedro em relação à comunidade cristã primitiva. Atualmente, é o reconhecimento da função de mestre e pastor que o papa exerce junto à Igreja. Permaneçamos em comunhão com nosso papa e rezemos pelo bom êxito de seu ministério pastoral.

Primeira Leitura: 1 Pedro 5,1-4

Jesus edificou a Igreja “sobre a pedra da apostólica confissão  de fé” feita por Pedro. A Palavra que ouviremos nos anime a sermos mais comprometidos com a Igreja de Cristo e mais dispostos a manter sua unidade.

Leitura da primeira carta de São Pedro – Caríssimos, 1exorto aos presbíteros que estão entre vós, eu, presbítero como eles, testemunha dos sofrimentos de Cristo e participante da glória que será revelada: 2sede pastores do rebanho de Deus, confiado a vós; cuidai dele não por coação, mas de coração generoso; não por torpe ganância, mas livremente; 3não como dominadores daqueles que vos foram confiados, mas, antes, como modelos do rebanho. 4Assim, quando aparecer o pastor supremo, recebereis a coroa permanente da glória. – Palavra do Senhor.

Salmo Responsorial: 22(23)

O Senhor é o pastor que me conduz, / não me falta coisa alguma.

1. O Senhor é o pastor que me conduz; / não me falta coisa alguma. / Pelos prados e campinas verdejantes, / ele me leva a descansar. / Para as águas repousantes me encaminha / e restaura as minhas forças. – R.

2. Ele me guia no caminho mais seguro, / pela honra do seu nome. / Mesmo que eu passe pelo vale tenebroso, / nenhum mal eu temerei. / Estais comigo com bastão e com cajado, / eles me dão a segurança! – R.

3. Preparais à minha frente uma mesa, / bem à vista do inimigo; / com óleo vós ungis minha cabeça, / e o meu cálice transborda. – R.

4. Felicidade e todo bem hão de seguir-me / por toda a minha vida; / e na casa do Senhor habitarei / pelos tempos infinitos. – R.

Evangelho: Mateus 16,13-19

Louvor e glória a ti, Senhor, Cristo, Palavra de Deus!

Tu és Pedro, e sobre esta pedra eu irei construir minha Igreja, / e as portas do inferno não irão derrotá-la (Mt 16,18). – R.

Proclamação do santo Evangelho segundo Mateus – Naquele tempo, 13Jesus foi à região de Cesareia de Filipe e ali perguntou aos seus discípulos: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” 14Eles responderam: “Alguns dizem que é João Batista; outros, que é Elias; outros, ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas”. 15Então Jesus lhes perguntou: “E vós, quem dizeis que eu sou?” 16Simão Pedro respondeu: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. 17Respondendo, Jesus lhe disse: “Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. 18Por isso eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la. 19Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que tu ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra será desligado nos céus”. – Palavra da salvação.

Reflexão
 
Celebramos hoje a festa da Cátedra de São Pedro. Aqui, o evangelista nos conduz a Cesareia de Filipe, onde S. Pedro professa sua fé em Cristo, e este, ao ver o príncipe dos Apóstolos deixar-se iluminar pelo Espírito Santo, prorrompe de júbilo, dizendo: “Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu”. Porque, com efeito, como diz a Epístola aos Tessalonicenses, o homem é corpo, alma e espírito: corpo e alma, na ordem meramente natural, e espírito, quando elevado pela graça à participação da natureza divina. Os que são só corpo e alma, movem-se ora pelos apetites sensíveis, quando não cresceram ainda em virtude, ora pelo conhecimento do bem e do dever, quando começam a sair da “infância” moral e adquirem os primeiros hábitos virtuosos. Mas tudo isso é ainda muito pouco para um cristão, porque não é o sangue nem a carne, mas somente o Pai celeste que nos pode levar ao conhecimento de seu Filho encarnado, Jesus Cristo, nem há virtude natural que, sozinha, sem um dom gratuito dos céus, nos faça dignos de receber a luz da fé. Por isso, o fiel precisa que Deus, que lhe deu o corpo e a alma naturais, lhe dê também um espírito, isto é, uma modificação íntima operada pela graça que o torne apto para ser movido pelo Espírito Santo, o único que pode levar-nos a dizer, com aquela fé sobrenatural: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. Que, por intercessão de S. Pedro, fundamento da Igreja e princípio visível da unidade da fé, Deus nos conceda o dom de sua graça e faça bem-aventuradas as nossas almas, por crerem como convém à nossa salvação e santificação diária.


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terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

1ª Semana da Quaresma - Como deve rezar um cristão?

 21/06 - Evangelho do Dia: Mt 6,7-15 - Rádio Rainha da Paz

Antífona

Senhor, vós vos tornastes um refúgio para nós de geração em geração; desde sempre e para sempre, vós sois Deus (Sl 89,1s).

Ao povo inseguro e desanimado, o Senhor garante que suas promessas de salvação serão plenamente realizadas: “Do coração atribulado ele está perto e conforta os de espírito abatido”. Depositemos total confiança no Senhor, nosso Pai.

Primeira Leitura: Isaías 55,10-11

A “Oração do Senhor” reveste-se de simplicidade: poucas palavras, porém repletas de familiaridade, fé e amor. Ela acompanhe dia a dia nossa vida, irrigando e fecundando nosso coração tal como a Palavra que agora vamos ouvir.

Leitura do livro do profeta Isaías – Isto diz o Senhor: 10“Assim como a chuva e a neve descem do céu e para lá não voltam mais, mas vêm irrigar e fecundar a terra e fazê-la germinar e dar semente para o plantio e para a alimentação, 11assim a palavra que sair de minha boca não voltará para mim vazia; antes, realizará tudo que for de minha vontade e produzirá os efeitos que pretendi ao enviá-la”. – Palavra do Senhor.

Salmo Responsorial: 33(34)
 
O Senhor liberta os justos de todas as angústias.

1. Comigo engrandecei ao Senhor Deus, / exaltemos todos juntos o seu nome! / Todas as vezes que o busquei, ele me ouviu / e de todos os temores me livrou. – R.

2. Contemplai a sua face e alegrai-vos, / e vosso rosto não se cubra de vergonha! / Este infeliz gritou a Deus e foi ouvido, / e o Senhor o libertou de toda angústia. – R.

3. O Senhor pousa seus olhos sobre os justos, / e seu ouvido está atento ao seu chamado; / mas ele volta a sua face contra os maus, / para da terra apagar sua lembrança. – R.

4. Clamam os justos, e o Senhor bondoso escuta / e de todas as angústias os liberta. / Do coração atribulado ele está perto / e conforta os de espírito abatido. – R.

Evangelho: Mateus 6,7-15

Glória a Cristo, Palavra eterna do Pai, que é amor!

O homem não vive somente de pão, / mas de toda palavra da boca de Deus (Mt 4,4). – R.

Proclamação do santo Evangelho segundo Mateus – Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 7“Quando orardes, não useis muitas palavras, como fazem os pagãos. Eles pensam que serão ouvidos por força das muitas palavras. 8Não sejais como eles, pois vosso Pai sabe do que precisais, muito antes que vós o peçais. 9Vós deveis rezar assim: Pai nosso que estás nos céus, santificado seja o teu nome; 10venha o teu Reino; seja feita a tua vontade, assim na terra como nos céus. 11O pão nosso de cada dia dá-nos hoje. 12Perdoa as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido. 13E não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal. 14De fato, se vós perdoardes aos homens as faltas que eles cometeram, vosso Pai que está nos céus também vos perdoará. 15Mas, se vós não perdoardes aos homens, vosso Pai também não perdoará as faltas que vós cometestes”. – Palavra da salvação.

Reflexão
oração do pai-nosso, em torno da qual gira o Evangelho desta terça-feira, aparece nas Escrituras em duas versões ligeiramente distintas: uma em S. Mateus (cf. Mt 6, 7-15), outra em S. Lucas (cf. Lc 11, 1-13). Mais, porém, do que as variantes textuais, o que queremos considerar hoje é o contexto em que o primeiro evangelista expõe a oração dominical. Dentro da narrativa de Mateus, com efeito, o pai-nosso é parte de um ensinamento mais amplo, conhecido como Sermão da Montanha (cf. Mt 5-7), e, ao contrário do que lemos em Lucas, o Senhor o ensina não em resposta a um pedido dos Apóstolos, mas como advertência e contraponto ao modo de rezar dos gentios: “Quando orardes”, diz Ele, “não useis muitas palavras, como fazem os pagãos”. E acrescenta em seguida o motivo: “Eles pensam que serão ouvidos por força das muitas palavras”, para então concluir: “Não sejais como eles, pois vosso Pai sabe do que precisais, muito antes de que vós o peçais”. Jesus, por conseguinte, aconselha a economia de palavras, não porque Lhe desagradem as orações longas e prolixas, desde que nascidas de um coração devoto, mas por causa da “teologia” que frequentemente lhes subjaz. Os pagãos e os que como eles oram, por mais que sejam batizados, “pensam que serão ouvidos por força das muitas palavras”, à semelhança dos profetas de Baal, que desde a manhã até ao meio-dia invocavam embalde o nome do seu ídolo, retalhando-se “segundo o seu costume, com espadas e lanças, até se cobrirem de sangue” (1Rs 18, 28). Não é esta a oração cristã. O cristão não reza esperando modificar a vontade de Deus ou impor a sua sobre a dEle, à custa de muitas fórmulas e sacrifícios. O cristão reza sabendo que a vontade divina, sem deixar de ser imutável, é também amiga e ciosa das necessidades humanas: “O vosso Pai sabe do que precisais, muito antes de que vós o peçais”. O modo de o cristão rezar, portanto, consiste em pôr no centro de seus desejos e pedidos, não a própria, mas a vontade de Deus: “Seja feita a tua vontade, assim na terra como nos céus”. Eis por que devemos pedir sempre com grande cautela, conscientes de que nem sempre o que pedimos, sobretudo se se trata de bens temporais, é o que realmente nos convém. E para que os nossos pedidos coincidam com o que Deus, em seu eterno presente, espera e deseja conceder-nos sob a condição de Lho pedirmos, rezemos antes de tudo para seja feita a vontade dEle, e não a nossa, e para que a nossa se conforme tanto à dEle, que não tenhamos mais outro querer que o do nosso amorosíssimo Pai. Como criancinhas e filhos de um Deus tão bom, tenhamos confiança de alcançar dEle o que nos for necessário, não à força de nossas iniciativas, mas pela certeza de que Ele nos há de prover com o melhor no tempo e do modo oportunos, a fim de sermos salvos.


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segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

1ª Semana da Quaresma - Se não existe inferno, para que evangelizar?

 Mateus 25: 31-46 (2022) | CHRISTIAN ART | Gospel Reading & Art Reflection

Primeira Leitura (Lv 19,1-2.11-18)

Leitura do Livro do Levítico.

O Senhor falou a Moisés, dizendo: “Fala a toda a Comunidade dos filhos de Israel, e dize-lhes: Sede santos, porque eu, o Senhor vosso Deus, sou santo.

11 Não furteis, não digais mentiras, nem vos enganeis uns aos outros. 12 Não jureis falso por meu nome, profanando o nome do Senhor teu Deus. Eu sou o Senhor.

13 Não explores o teu próximo nem pratiques extorsão contra ele. Não retenhas contigo a diária do assalariado até o dia seguinte. 14 Não amaldiçoes o surdo, nem ponhas tropeço diante do cego, mas temerás o teu Deus. Eu sou o Senhor. 15 Não cometas injustiças no exercício da justiça; não favoreças o pobre nem prestigieis o poderoso. Julga teu próximo conforme a justiça.

16 Não sejas um maldizente entre o teu povo. Não conspires, caluniando-o, contra a vida do teu próximo. Eu sou o Senhor. 17 Não tenhas no coração ódio contra teu irmão. Repreende o teu próximo, para não te tornares culpado de pecado por causa dele.

18 Não procures vingança, nem guardes rancor aos teus compatriotas. Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor”.

- Palavra do Senhor.

- Graças a Deus.

Responsório Sl 18(19),8.9.10.15 (R. Jo 6,63c)

— Ó Senhor, vossas palavras são espírito e vida!

— Ó Senhor, vossas palavras são espírito e vida!

— A lei do Senhor Deus é perfeita, conforto para a alma! O testemunho do Senhor é fiel, sabedoria dos humildes.

— Os preceitos do Senhor são precisos, alegria ao coração. O mandamento do Senhor é brilhante, para os olhos é uma luz.

— É puro o temor do Senhor, imutável para sempre. Os julgamentos do Senhor são corretos e justos igualmente.

— Que vos agrade o cantar dos meus lábios e a voz da minha alma; que ela chegue até vós, ó Senhor, meu Rochedo e Redentor!

Evangelho (Mt 25,31-46)

— Salve Cristo, Luz da vida, companheiro na partilha!

— Eis o tempo de conversão, eis o dia da salvação. (2Cor 6,2b)

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Mateus.

— Glória a vós, Senhor!

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 31 “Quando o Filho do Homem vier em sua glória, acompanhado de todos os anjos, então se assentará em seu trono glorioso. 32 Todos os povos da terra serão reunidos diante dele, e ele separará uns dos outros, assim como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. 33 E colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda. 

34 Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Vinde benditos de meu Pai! Recebei como herança o Reino que meu Pai vos preparou desde a criação do mundo! 35 Pois eu estava com fome e me destes de comer; eu estava com sede e me destes de beber; eu era estrangeiro e me recebestes em casa; 36 eu estava nu e me vestistes; eu estava doente e cuidastes de mim; eu estava na prisão e fostes me visitar’. 37 Então os justos lhe perguntarão: ‘Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer? Com sede e te demos de beber? 38 Quando foi que te vimos como estrangeiro e te recebemos em casa, e sem roupa e te vestimos? 39 Quando foi que te vimos doente ou preso, e fomos te visitar?’ 40 Então o Rei lhes responderá: ‘Em verdade eu vos digo, que todas as vezes que fizestes isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizestes!’ 

41 Depois o Rei dirá aos que estiverem à sua esquerda: ‘Afastai-vos de mim, malditos! Ide para o fogo eterno, preparado para o diabo e para os seus anjos. 42 Pois eu estava com fome e não me destes de comer; eu estava com sede e não me destes de beber; 43 eu era estrangeiro e não me recebestes em casa; eu estava nu e não me vestistes; eu estava doente e na prisão e não fostes me visitar’. 44 E responderão também eles: ‘Senhor, quando foi que te vimos com fome, ou com sede, como estrangeiro, ou nu, doente ou preso, e não te servimos?’ 45 Então o Rei lhes responderá: ‘Em verdade eu vos digo, todas as vezes que não fizestes isso a um desses pequeninos, foi a mim que não o fizestes!’ 

46 Portanto, estes irão para o castigo eterno, enquanto os justos irão para a vida eterna”.

Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

Reflexão

No Evangelho de hoje, Jesus nos conta a parábola do rei pastor e juiz. Obviamente, Nosso Senhor está falando de si mesmo. Esse é um dos artigos de fé do qual todos nós deveríamos ter conhecimento, pois é um dos elementos básicos do que professamos.

Existe um certo grau de ignorância que não pode ser justificado simplesmente com a desculpa de um “não sabia”, pois há conteúdos da fé que todos somos obrigados a saber. Por exemplo, todos somos obrigados a saber que Deus existe, que Ele é uno e trino, que o Filho se fez homem e morreu na Cruz para nos salvar, e que Ele irá voltar para julgar, dando a recompensa aos bons e o castigo aos maus para sempre (aquilo de que fala o Evangelho de hoje), ou seja, que Nosso Senhor Jesus Cristo é o nosso bondoso, misericordioso e justo juiz. Essa é uma realidade central da nossa fé. Existem também outros artigos que nós precisamos crer, como o fato de que Cristo instituiu neste mundo a Igreja e os seus sacramentos, e devemos ter uma noção básica do que é cada um deles.

Todas essas coisas nós temos que conhecer e em todas elas devemos crer. Se alguém não tem noção desses artigos, precisa “correr atrás” e aprender. Quem é pai ou mãe precisa ensinar aos seus filhos essa que é a estrutura fundamental da nossa fé.

O artigo do qual fala o Evangelho de hoje está sendo cada vez mais desacreditado, porque existe uma ideologia que tem contaminado muitos católicos e os afastado da verdadeira fé da Igreja. Segundo essa ideologia, se Deus é amor, é evidente que não pode existir o julgamento e a condenação dos maus ao inferno. Para refutar essa falácia, basta olharmos para o que Jesus diz hoje no Evangelho, apresentando-se como o justo e misericordioso juiz: “Afastai-vos de mim, malditos! Ide para o fogo eterno”. É essa a realidade na qual nós cremos.

Portanto, devemos professar que Deus é amor infinito e perfeito, e que ninguém vai para o inferno por culpa de Deus. Se a pessoa vai para o inferno é por culpa própria, não de Deus. Nosso Senhor, justo e misericordiosíssimo juiz, virá julgar e muitíssimos seres humanos serão condenados ao inferno, porque Ele mesmo disse: “Esforçai-vos para passar pela porta estreita porque amplo e espaçoso é o caminho que leva à perdição, muitos tentarão entrar pela porta do céu e não conseguirão” (Lc 13, 24). Sim, muitos! E é isso que a Igreja sempre ensinou! Se nós não cremos que existe uma multidão indo, por culpa própria, para o inferno, por que o trabalho evangelizador dos missionários? Se não existe o inferno, por que fazemos de tudo para levar a fé às pessoas a fim de que, enxergando a verdade, elas se arrependam e se convertam?

Essa é a nossa fé, é nisso que nós cremos e é isso que Jesus está nos ensinando. Se Jesus se apresentou na parábola como juiz e se Ele, amor encarnado, está dizendo: “Afastai-vos de mim, malditos! Ide para o fogo eterno preparado para o diabo e para os seus anjos”, é porque essa mensagem é muito amorosa. Ela não foi inventada por um teólogo “retrógrado”, “medieval” e “obscurantista” (para usar os xingamentos populares). Essa parábola foi dita pelo Amor que se fez carne, escrita por inspiração do Espírito Santo e está nos santos Evangelhos. É um texto canônico, uma verdade que a Igreja prega há dois mil anos. Quem não crê nessa verdade que a Igreja ensina há dois mil anos no fundo quer se tornar o fundador de uma religião, pois está inventando a sua própria.

Essa ignorância proposital e soberba não é escusável, pois, como mencionado no início, existem ignorâncias culposas. Portanto, estudemos a nossa fé e, uma vez a conhecendo, não fiquemos só no conhecimento mínimo, mas busquemos um verdadeiro aprofundamento.

 

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