domingo, 23 de junho de 2024

12º Domingo do Tempo Comum - Acaso Deus está dormindo?

 Jesus acalma uma tempestade no mar cartazes para a parede • posters  discípulos, repreensão, Galiléia | myloview.com.br

O Senhor é a força do seu povo, é a fortaleza de salvação do seu Ungido. Salvai vosso povo, Senhor, abençoai vossa herança e governai-a pelos séculos (Sl 27,8s).

Em meio aos sofrimentos e às contrariedades da vida, que chegam como ondas perigosas, necessitamos da graça do Senhor, a fim de não sermos tragados e submersos pelo medo e pela falta de fé. Invoquemos a Jesus, nosso Mestre, nesta liturgia, para que venha em nosso socorro com a força do seu amor.

Primeira Leitura: Jó 38,1.8-11

Diante dos frequentes perigos que nos ameaçam, a Palavra de Deus nos anima e nos garante a presença do Senhor. Nele perdemos o medo e somos novas criaturas.

Leitura do livro de Jó 1O Senhor respondeu a Jó, do meio da tempestade, e disse: 8“Quem fechou o mar com portas quando ele jorrou com ímpeto do seio materno, 9quando eu lhe dava nuvens por vestes e névoas espessas por faixas; 10quando marquei seus limites e coloquei portas e trancas, 11e disse: ‘Até aqui chegarás, e não além; aqui cessa a arrogância de tuas ondas’?” – Palavra do Senhor.

Salmo Responsorial: 106(107)

Dai graças ao Senhor porque ele é bom, / porque eterna é a sua misericórdia!

1. Os que sulcam o alto-mar com seus navios, / para ir comerciar nas grandes águas, / testemunharam os prodígios do Senhor / e as suas maravilhas no alto-mar. – R.

2. Ele ordenou, e levantou-se o furacão, / arremessando grandes ondas para o alto; / aos céus subiam e desciam aos abismos, / seus corações desfaleciam de pavor. – R.

3. Mas gritaram ao Senhor na aflição, / e ele os libertou daquela angústia. / Transformou a tempestade em bonança, / e as ondas do oceano se calaram. – R.

4. Alegraram-se ao ver o mar tranquilo, / e ao porto desejado os conduziu. / Agradeçam ao Senhor por seu amor / e por suas maravilhas entre os homens! – R.

Segunda Leitura: 2 Coríntios 5,14-17

Leitura da segunda carta de São Paulo aos Coríntios – Irmãos, 14o amor de Cristo nos pressiona, pois julgamos que um só morreu por todos e que, logo, todos morreram. 15De fato, Cristo morreu por todos, para que os vivos não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou. 16Assim, doravante, não conhecemos ninguém conforme a natureza humana. E, se uma vez conhecemos Cristo segundo a carne, agora já não o conhecemos assim. 17Portanto, se alguém está em Cristo, é uma criatura nova. O mundo velho desapareceu. Tudo agora é novo. – Palavra do Senhor.

Evangelho: Marcos 4,35-41

Aleluia, aleluia, aleluia.

Um grande profeta surgiu, / surgiu e entre nós se mostrou; / é Deus que seu povo visita, / seu povo meu Deus visitou (Lc 7,16). – R.

Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo Marcos – 35Naquele dia, ao cair da tarde, Jesus disse a seus discípulos: “Vamos para a outra margem!” 36Eles despediram a multidão e levaram Jesus consigo, assim como estava, na barca. Havia ainda outras barcas com ele. 37Começou a soprar uma ventania muito forte e as ondas se lançavam dentro da barca, de modo que a barca já começava a se encher. 38Jesus estava na parte de trás, dormindo sobre um travesseiro. Os discípulos o acordaram e disseram: “Mestre, estamos perecendo e tu não te importas?” 39Ele se levantou e ordenou ao vento e ao mar: “Silêncio! Cala-te!” O vento cessou e houve uma grande calmaria. 40Então Jesus perguntou aos discípulos: “Por que sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?” 41Eles sentiram um grande medo e diziam uns aos outros: “Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?” – Palavra da salvação.

Reflexão
A Liturgia de hoje nos propõe à meditação o Evangelho da tempestade acalmada. Jesus dorme tranquilamente na barca de Pedro, símbolo da Igreja, que, chacoalhada de um lado a outro pelas ondas do Mar da Galileia, parece estar a ponto de ir a pique. Diante de uma Igreja em crise, cujos átrios parecem encher-se d’água, fazemos eco à pergunta dos Apóstolos: “Mestre, estamos perecendo e tu não te importas?” É fácil ver como nesse Evangelho está presente a história do Corpo de Cristo ao longo dos séculos: seus problemas, suas crises, seus dilemas e a aparente “inatividade” de Jesus. O difícil é perceber quais são as conclusões que daí se podem tirar. Por que o Senhor parece às vezes estar adormecido, esquecido de sua Esposa, desatento às necessidades dela, como nos mostram tantos períodos dramáticos em que o pecado e a dissolução chegaram até mesmo ao trono de Pedro? E no entanto é justamente nestes momentos de dor, de fracasso, derrota, que Deus quer fazer surgir o triunfo e manifestar o poder de sua graça. O Cristo que desperta do sono e se levanta para acalmar a tempestade é o Jesus ressuscitado que, levantando-se do túmulo, vem acalmar a tempestade da nossa falta de fé. Ele, o guarda de Israel, não dorme nem cochila, senão que se demora, ainda que entrementes tenhamos de sofrer, para introduzir-nos ao fim numa vida nova. Peçamos a Maria SS., Mãe da Igreja, que nos dê grande confiança no poder, na presença e no cuidado constante que seu Filho não deixa nunca de nos dispensar.


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terça-feira, 18 de junho de 2024

11ª Semana do Tempo Comum - Amar quem não nos ama.

 Evangelho do Dia: Amar aos inimigos (Mt 5, 43-48) – Oratório São Luiz – 120  Anos

Escutai, Senhor, a voz do meu apelo. Sede meu amparo; não me rejeiteis nem me abandoneis, ó Deus, meu salvador (Sl 26,7.9).

Reunidos para celebrar a Eucaristia – banquete de gratuidade e amor sem medidas -, somos iluminados pelo agir de Deus e convidados a verificar se estamos amando verdadeiramente. O Evangelho nos anima a ir além da bondade para quem é bom conosco, sendo bons também com quem desgosta de nós. Acolhamos a proposta da liturgia para demonstrarmos, dia a dia, a força do amor divino, que vence as barreiras do ódio, da vingança e da discórdia.

Primeira Leitura: 1 Reis 21,17-29

Leitura do primeiro livro dos Reis – Após a morte de Nabot, 17a palavra do Senhor foi dirigida a Elias, o tesbita, nestes termos: 18“Levanta-te e desce ao encontro de Acab, rei de Israel, que reina em Samaria. Ele está na vinha de Nabot, aonde desceu para dela tomar posse. 19Isto lhe dirás: ‘Assim fala o Senhor: Tu mataste e ainda por cima roubas!’ E acrescentarás: ‘Assim fala o Senhor: No mesmo lugar em que os cães lamberam o sangue de Nabot, lamberão também o teu'”. 20Acab disse a Elias: ”Afinal, encontraste-me, ó meu inimigo?” Elias respondeu: “Sim, eu te encontrei. Porque te vendeste para fazer o que desagrada ao Senhor, 21farei cair sobre ti a desgraça: varrerei a tua descendência, exterminando todos os homens da casa de Acab, escravos ou livres, em Israel. 22Farei com a tua família como fiz com as famílias de Jeroboão, filho de Nabat, e de Baasa, filho de Aías, porque provocaste a minha ira e fizeste Israel pecar. 23Também a respeito de Jezabel o Senhor pronunciou uma sentença: ‘Os cães devorarão Jezabel no campo de Jezrael. 24Os da família de Acab que morrerem na cidade serão devorados pelos cães, e os que morrerem no campo serão comidos pelas aves do céu'”. 25Não houve ninguém que se tenha vendido como Acab para fazer o que desagrada ao Senhor, porque a isso o incitava sua mulher Jezabel. 26Portou-se de modo abominável, seguindo os ídolos dos amorreus que o Senhor tinha expulsado diante dos filhos de Israel. 27Quando Acab ouviu essas palavras, rasgou as vestes, pôs um cilício sobre a pele e jejuou. Dormia envolto num pano de penitência e andava abatido. 28Então a palavra do Senhor foi dirigida a Elias, o tesbita, nestes termos: 29“Viste como Acab se humilhou diante de mim? Já que ele assim procedeu, não o castigarei durante a sua vida, mas nos dias de seu filho enviarei a desgraça sobre a sua família”. – Palavra do Senhor.

Salmo Responsorial: 50(51)

Misericórdia, ó Senhor, porque pecamos!

1. Tende piedade, ó meu Deus, misericórdia! / Na imensidão de vosso amor, purificai-me! / Lavai-me todo inteiro do pecado / e apagai completamente a minha culpa! – R.

2. Eu reconheço toda a minha iniquidade, / o meu pecado está sempre à minha frente. / Foi contra vós, só contra vós, que eu pequei / e pratiquei o que é mau aos vossos olhos! – R.

3. Desviai o vosso olhar dos meus pecados / e apagai todas as minhas transgressões! / Da morte como pena, libertai-me, / e minha língua exaltará vossa justiça! – R.

Evangelho: Mateus 5,43-48

Aleluia, aleluia, aleluia.

Eu vos dou novo preceito: / que uns aos outros vos ameis, como eu vos tenho amado (Jo 13,34). – R.

Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus – Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 43“Vós ouvistes o que foi dito: ‘Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo!’ 44Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem! 45Assim, vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos céus, porque ele faz nascer o sol sobre maus e bons e faz cair a chuva sobre justos e injustos. 46Porque, se amais somente aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Os cobradores de impostos não fazem a mesma coisa? 47E se saudais somente os vossos irmãos, o que fazeis de extraordinário? Os pagãos não fazem a mesma coisa? 48Portanto, sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito”. – Palavra da salvação.

Reflexão

"Amai os vossos inimigos". Esse mandamento do Senhor, decerto um dos mais exigentes do Evangelho, contém tanto um preceito, obrigatório para todos nós, quanto um conselho, a ser seguido pelos que, com ânimo heroico, almejam participar das perfeições do Pai celestial (cf. Mt 5, 48). Por ordem divina, temos de amar afetivamente aos nossos inimigos, ou seja, com aquele amor geral devido aos nossos semelhantes e que nos leva a manifestar-lhes, com sinceridade e discrição, sinais de respeito, atenção e cortesia. Estamos, por igual motivo, obrigados a orar pelos que nos desejam mal, segundo aquilo: "Rezai por aqueles que vos perseguem"; com efeito, excluí-los deliberadamente de nossas preces comuns e ordinárias seria um grave pecado contra a caridade. Além de desejar-lhe a salvação eterna, temos também o sério dever de socorrer a quem nos odeia sempre que tal pessoa se encontrar em estado de necessidade, quer física quer espiritual: não nos é lícito negar-lhe comida, esmola, conselho etc. nem, como é óbvio, privá-la de seus legítimos direitos. Afora esses casos, não temos o dever de lhes dar mostras de especial amizade.

Os que aspiram à santidade, no entanto, sentem-se impelidos a ir ainda mais longe. "Que recompensa tereis", interroga-nos Jesus, "se amais somente aqueles que vos amam? Que fazeis de extraordinário?" Auxiliando-nos com a sua graça, o Senhor nos convida também a amar nossos inimigos com aquela ardentíssima caridade de quem ama tanto a Deus e a tudo quanto lhe diz respeito que, esquecido dos ódios alheios, sente-se atraído com especial predileção por aqueles que o caluniam, perseguem e maltratam (cf. A. Royo Marín, Teología de la Perfección Cristiana, n. 363). Peçamos hoje ao Senhor que nos inspire desejos mais ardentes de perfeição e, com a sua ajuda, nos dê força para vivermos esse heroísmo que, embora não seja obrigatório, nos fará mais e mais semelhantes ao Pai. Ele, que nos amou quando éramos ainda pecadores e infensos à sua bondade (cf. Rm 5, 8), "faz chover sobre justos e injustos", cumula de bens indizíveis mesmo os que repudiam o seu paternal carinho e entrega todos os dias sobre os nossos alteres o maior dom que pode haver: seu próprio Filho Unigênito.

 

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sexta-feira, 14 de junho de 2024

10ª Semana do Tempo Comum - O perigo dos maus pensamentos.

 O perigo dos maus pensamentos

O Senhor é minha luz e salvação, de quem eu terei medo? O Senhor é a proteção da minha vida; perante quem eu tremerei? São eles, inimigos e opressores, que tropeçam e sucumbem (Sl 26,1s).

A presença divina, que se revelou ao profeta Elias como brisa suave, manifesta-se também em nosso dia a dia. Somos convidados a mergulhar no silêncio e a ficar atentos para sentir a passagem de Deus entre nós. Na união conjugal, essa presença tem raízes na fidelidade vivida desde o coração. Celebrando a Eucaristia, cortemos de nossa vida tudo o que nos impede de viver de modo coerente com o projeto do Reino.

Primeira Leitura: 1 Reis 19,9.11-16

Leitura do primeiro livro dos Reis – Naqueles dias, ao chegar a Horeb, o monte de Deus, 9o profeta Elias entrou numa gruta, onde passou a noite. E eis que a palavra do Senhor lhe foi dirigida nestes termos: 11“Sai e permanece sobre o monte diante do Senhor, porque o Senhor vai passar”. Antes do Senhor, porém, veio um vento impetuoso e forte, que desfazia as montanhas e quebrava os rochedos. Mas o Senhor não estava no vento. Depois do vento houve um terremoto. Mas o Senhor não estava no terremoto. 12Passado o terremoto, veio um fogo. Mas o Senhor não estava no fogo. E, depois do fogo, ouviu-se o murmúrio de uma leve brisa. 13Ouvindo isso, Elias cobriu o rosto com o manto, saiu e pôs-se à entrada da gruta. Ouviu, então, uma voz que dizia: “Que fazes aqui, Elias?” 14Ele respondeu: “Estou ardendo de zelo pelo Senhor, Deus todo-poderoso, porque os filhos de Israel abandonaram tua aliança, demoliram teus altares e mataram à espada teus profetas. Só eu escapei. Mas, agora, também querem matar-me”. 15O Senhor disse-lhe: “Vai e toma o teu caminho de volta, na direção do deserto de Damasco. Chegando lá, ungirás Hazael como rei da Síria. 16Unge também a Jeú, filho de Namsi, como rei de Israel, e a Eliseu, filho de Safat, de Abel-Meula, como profeta em teu lugar”. – Palavra do Senhor.

Salmo Responsorial: 26(27)

Senhor, é vossa face que eu procuro!

1. Ó Senhor, ouvi a voz do meu apelo, / atendei por compaixão! / Meu coração fala convosco confiante, / é vossa face que eu procuro. – R.

2. Não afasteis em vossa ira o vosso servo, / sois vós o meu auxílio! / Não me esqueçais nem me deixeis abandonado, / meu Deus e salvador! – R.

3. Sei que a bondade do Senhor eu hei de ver / na terra dos viventes. / Espera no Senhor e tem coragem, / espera no Senhor! – R.

Evangelho: Mateus 5,27-32

Aleluia, aleluia, aleluia.

Como astros no mundo brilheis, / pregando a Palavra da vida! (Fl 2,15s) – R.

Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus – Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 27“Ouvistes o que foi dito: ‘Não cometerás adultério’. 28Eu, porém, vos digo, todo aquele que olhar para uma mulher com o desejo de possuí-la já cometeu adultério com ela no seu coração. 29Se o teu olho direito é para ti ocasião de pecado, arranca-o e joga-o para longe de ti! De fato, é melhor perder um de teus membros do que todo o teu corpo ser jogado no inferno. 30Se a tua mão direita é para ti ocasião de pecado, corta-a e joga-a para longe de ti! De fato, é melhor perder um dos teus membros do que todo o teu corpo ir para o inferno. 31Foi dito também: ‘Quem se divorciar de sua mulher, dê-lhe uma certidão de divórcio’. 32Eu, porém, vos digo, todo aquele que se divorcia de sua mulher, a não ser por motivo de união irregular, faz com que ela se torne adúltera; e quem se casa com a mulher divorciada comete adultério”. – Palavra da salvação.

Reflexão
 
Ao condenar no Evangelho de ontem todo ódio voluntário ao próximo, Jesus refreava-nos o apetite irascível; ao proscrever no de hoje o adultério e os maus pensamentos, oferece-nos um remédio eficaz para o concupiscível. Os que desejam manter-se castos, com efeito, têm de ter a coragem de ser "covardes": além de evitar as ocasiões próximas de pecado, precisam afogar com prontidão as primeiras solicitações da carne. Não podemos, sob nenhum pretexto, deixá-las tomar corpo e se tornarem como um "Golias", resistentes com seu capacete e afiadas para cortar, com sua espada, os laços de amizade que nos unem a Deus. A estas súbitas sugestões do desejo sexual desordenado podem acomodar-se aquelas palavras do salmista: "Feliz aquele que se apoderar de teus filhinhos, para esmagá-los contra o rochedo" (Sl 137 [136], 9). O Senhor dotou-nos, sim, de uma preciosa capacidade de amar; não a maculemos, porém, com imundícies e indecências. Procuremos a Deus, o único que pode saciar nossa ânsia de amor, onde Ele quer que O encontremos: sacramentalmente na Eucaristia, misticamente no próximo, suavemente na oração. Peçamos hoje aos santíssimos Esposos Maria, virgem imaculada, e José, lírio de castidade, que nos alcancem a graça de vivermos em mais perfeita pureza aos olhos de seu Filho, Jesus Cristo.


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quinta-feira, 13 de junho de 2024

Memória de Santo Antônio de Pádua, presbítero e doutor da Igreja - Por que não queremos perdoar?

 Jesus é Deus: TERCEIRO SERMÃO DA MONTANHA

O justo tem nos lábios o que é sábio, sua língua tem palavras de justiça; traz a aliança do seu Deus no coração (Sl 36,30s).

Fernando nasceu em Lisboa, Portugal, em 1195. Ordenado padre na Ordem dos Cônegos Regulares de Santo Agostinho, foi atraído para o ideal de vida dos Franciscanos, nos quais ingressou, assumindo o nome de frei Antônio. Foi ilustre pregador da Palavra, a qual serviu com simplicidade e fervor. Não mediu esforços para socorrer os pobres que cruzavam seu caminho. Faleceu no ano de 1231 em Pádua, na Itália. A seu exemplo, cultivemos profundo amor à Palavra de Deus e eficaz dedicação aos pobres.

Primeira Leitura: 1 Reis 18,41-46

Leitura do primeiro livro dos Reis – Naqueles dias, 41Elias disse a Acab: “Sobe, come e bebe, porque já ouço o ruído de muita chuva”. 42Enquanto Acab subia para comer e beber, Elias subiu ao cume do Carmelo, prostrou-se por terra e pôs o rosto entre os joelhos. 43E disse ao seu servo: “Sobe e observa na direção do mar”. Ele subiu, observou e disse: “Não há nada”. Elias disse-lhe de novo: “Volta sete vezes”. 44À sétima vez o servo disse: “Eis que sobe do mar uma nuvem, pequena como a mão de um homem”. Então, Elias disse-lhe: “Vai dizer a Acab que prepare o carro e desça, para que a chuva não o detenha”. 45Nesse meio-tempo, o céu cobriu-se de nuvens escuras, soprou o vento e a chuva caiu torrencialmente. Acab subiu para o seu carro e partiu para Jezrael. 46A mão do Senhor esteve sobre Elias; e ele, cingindo os rins, correu adiante de Acab até a entrada de Jezrael. – Palavra do Senhor.

Salmo Responsorial: 64(65)

Ó Senhor, que o povo vos louve em Sião!

1. Visitais a nossa terra com as chuvas, / e transborda de fartura. / Rios de Deus que vêm do céu derramam águas, / e preparais o nosso trigo. – R.

2. É assim que preparais a nossa terra: / vós a regais e aplainais, / os seus sulcos com a chuva amoleceis / e abençoais as sementeiras. – R.

3. O ano todo coroais com vossos dons, † os vossos passos são fecundos; / transborda a fartura onde passais. / Brotam pastos no deserto, / as colinas se enfeitam de alegria. – R.

Evangelho: Mateus 5,20-26

Aleluia, aleluia, aleluia.

Eu vos dou novo preceito: / que uns aos outros vos ameis, como eu vos tenho amado (Jo 13,34). – R.

Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus – Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 20“Se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da Lei e dos fariseus, vós não entrareis no Reino dos Céus. 21Vós ouvistes o que foi dito aos antigos: ‘Não matarás! Quem matar será condenado pelo tribunal’. 22Eu, porém, vos digo, todo aquele que se encoleriza com seu irmão será réu em juízo; quem disser ao seu irmão ‘patife!’ será condenado pelo tribunal; quem chamar o irmão de tolo será condenado ao fogo do inferno. 23Portanto, quando tu estiveres levando a tua oferta para o altar e ali te lembrares que teu irmão tem alguma coisa contra ti, 24deixa a tua oferta ali, diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão. Só então vai apresentar a tua oferta. 25Procura reconciliar-te com teu adversário, enquanto caminha contigo para o tribunal. Senão o adversário te entregará ao juiz, o juiz te entregará ao oficial de justiça, e tu serás jogado na prisão. 26Em verdade eu te digo, dali não sairás, enquanto não pagares o último centavo”. – Palavra da salvação.

Reflexão
 
O Evangelho de hoje faz parte do Sermão da Montanha, no qual Jesus, de alguma forma, nos explica mais claramente o que ensinara já no Pai-nosso: “Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”, isto é, Ele nos ensina a necessidade do perdão; mais ainda, a necessidade de, por amor, aceitar certas injustiças pacientemente. Qual é a dificuldade da sociedade em que vivemos? Trata-se de uma sociedade justicialista, na qual todo o mundo tem “direito”. Ora, como estamos num mundo em que o pecado existe, as pessoas erram, cometem pequenas ou grandes injustiças. Por isso, se quisermos reparar toda pequena injustiça que sofremos — porque, afinal, nós só temos “direitos”… —, nossa sociedade irá dilacerar-se, as famílias vão deixar de sê-lo e nada terá solução a não ser na delegacia. Mas Nosso Senhor Jesus Cristo veio ensinar-nos o perdão vivendo-o Ele mesmo. Com efeito, fomos nós os primeiros ofensores, Deus porém desceu do alto dos céus, encarnou-se para morrer por nós  e perdoar-nos de nossos pecados, ao mesmo tempo que sofria uma grande injustiça. Foi isso que Deus fez para nos reconciliar consigo. Mas, esquecidos que vivemos dessa misericórdia, isto é, do perdão divino, olhamos as pequenas injustiças que nossos irmãos cometem contra nós e, com a mesquinharia tacanha de quem tem tudo anotado na ponta do lápis, queremos pedir contas de cada centavo devido! Ora, que há de acontecer com nossa família, se agirmos assim? Que será de nossas amizades? Iremos morrer sós porque, entre os pecadores que somos, não pode haver comunhão se não se aprende o perdão, a paciência, o controle da ira pela docilidade, o amor ao próximo. Exemplo luminoso disso foi São Francisco de Sales. Contam os biógrafos que ele era um homem irascível, realmente colérico; mas, de tanto ele meditar a Paixão de Cristo e contemplar o exemplo de mansidão e humildade de Nosso Senhor, o Espírito Santo foi-lhe transformando o coração, tornando-o cada vez mais semelhante ao de Jesus. Assim, quando se apresentava diante de seus adversários, que tinham contra ele verdadeira raiva e ódio, S. Francisco de Sales fitava-os com doçura. Um dia, um deles se irritou e disse: “Não vais responder ao que digo? Não me dirás nada? Ficarás aí, olhando-me com este olhar?”, ao que S. Francisco respondeu: “Irmão, vou-te olhar com bondade, ainda que me arranques um olho”. Eis um exemplo de mansidão e paciência! Hoje é sexta-feira, e sexta de Quaresma. Unamo-nos à mansidão e à paciência de Nosso Senhor crucificado e aprendamos a perdoar a nossos irmãos, aprendamos a dá-lo e a pedi-lo. Somente assim iremos viver na comunhão que o Pai celeste quis realizar ao nos enviar seu Filho e derramar o Espírito Santo.

Reflexão
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terça-feira, 4 de junho de 2024

9ª Semana do Tempo Comum - A César o que é de César.

 Evangelho do dia: Tributo a César (Mc 12, 13-17) – Oratório São Luiz – 120  Anos

Olhai para mim, Senhor, e tende compaixão, porque sou pobre e estou sozinho. Considerai minha miséria e sofrimento e concedei vosso perdão aos meus pecados (Sl 24,16.18).

“Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.” No anseio de novos céus e nova terra, o cristão se compromete com o Reino de Deus, vivendo com honestidade, praticando a justiça, “numa vida em paz”. Olhar para os céus não significa fugir da realidade, e sim dar-lhe um sentido superior, vivendo o amor divino nas relações sociais. Celebrando o mistério pascal de Cristo, renovemos o compromisso de viver, de modo coerente, nossa fé batismal.

Primeira Leitura: 2 Pedro 3,12-15.17-18

Leitura da segunda carta de São Pedro – Caríssimos, 12esperais com anseio a vinda do dia de Deus, quando os céus em chama se vão derreter e os elementos, consumidos pelo fogo, se fundirão? 13O que nós esperamos, de acordo com a sua promessa, são novos céus e uma nova terra, onde habitará a justiça. 14Caríssimos, vivendo nessa esperança, esforçai-vos para que ele vos encontre numa vida pura e sem mancha e em paz. 15Considerai também como salvação a longanimidade de nosso Senhor. 17Vós, portanto, bem-amados, sabendo disso com antecedência, precavei-vos, para não suceder que, levados pelo engano destes ímpios, percais a própria firmeza. 18Antes procurai crescer na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. A ele seja dada a glória, desde agora, até o dia da eternidade. Amém. – Palavra do Senhor.

Salmo Responsorial: 89(90)

Ó Senhor, vós fostes sempre um refúgio para nós!

1. Já bem antes que as montanhas fossem feitas † ou a terra e o mundo se formassem, / desde sempre e para sempre vós sois Deus. – R.

2. Vós fazeis voltar ao pó todo mortal / quando dizeis: “Voltai ao pó, filhos de Adão!” / Pois mil anos para vós são como ontem, / qual vigília de uma noite que passou. – R.

3. Pode durar setenta anos nossa vida, / os mais fortes talvez cheguem a oitenta; / a maior parte é ilusão e sofrimento: / passam depressa e também nós assim passamos. –  R.

4. Saciai-nos de manhã com vosso amor, / e exultaremos de alegria todo o dia! / Manifestai a vossa obra a vossos servos / e a seus filhos revelai a vossa glória! – R.

Evangelho: Marcos 12,13-17

Aleluia, aleluia, aleluia.

Que o Pai do Senhor Jesus Cristo / vos dê do saber o Espírito, / para que conheçais a esperança / reservada para vós como herança! (Ef 1,17s) – R.

Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo Marcos – Naquele tempo, 13as autoridades mandaram alguns fariseus e alguns partidários de Herodes para apanharem Jesus em alguma palavra. 14Quando chegaram, disseram a Jesus: “Mestre, sabemos que tu és verdadeiro e não dás preferência a ninguém. Com efeito, tu não olhas para as aparências do homem, mas ensinas, com verdade, o caminho de Deus. Dize-nos: é lícito ou não pagar o imposto a César? Devemos pagar ou não?” 15Jesus percebeu a hipocrisia deles e respondeu: “Por que me tentais? Trazei-me uma moeda para que eu a veja”. 16Eles levaram a moeda, e Jesus perguntou: “De quem é a figura e a inscrição que estão nessa moeda?” Eles responderam: “De César”. 17Então Jesus disse: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. E eles ficaram admirados com Jesus. – Palavra da salvação.

Reflexão
“Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. Com essas palavras tão conhecidas, acendeu Nosso Senhor Jesus Cristo duas luzes: a primeira nos mostra que a Igreja e o Estado são sociedades perfeitas e independentes (cf. Leão XIII, Encíclica “Immortale Dei”, n. 44), cada uma em sua ordem e esfera própria de atuação, embora o Estado tenha o dever de sujeitar-se à autoridade espiritual da Igreja, já que o homem e, com ele, toda a comunidade política estão essencialmente ordenados a Deus e obrigados a abraçar a religião católica; a segunda, como consequência disto, nos mostra que os cristãos, em matéria de fé e moral, não podem nunca ser obrigados a submeter-se ao poder secular como se a ele competisse a autoridade de ensinar o que é lícito ou ilícito, de estabelecer as formas do culto divino nem, muito menos, de impor aos cidadãos o cumprimento de leis contrárias à Lei natural ou que atentem, de um modo ou de outro, contra os deveres sagrados de uma consciência retamente formada. A primeira nos mostra, portanto, que nem a Igreja recebe do Estado o seu poder e autonomia, mas apenas de seu divino Fundador, nem o Estado recebe da Igreja a sua jurisdição temporal, mas de Deus: “Não terias poder algum sobre mim”, diz Cristo a Pilatos, “se de cima não te fora dado” (Jo 19, 11). A segunda nos mostra que, estando o inferior subordinado ao superior, e sendo o fim da Igreja mais alto e excelente que o do Estado, “importa obedecer antes a Deus do que aos homens” (At 5, 29) quando a autoridade civil ousa transpor seus próprios limites e ordenar por lei humana o que proíbe a divina. Daí não se segue — repita-se — que seja lícita ou boa em si mesma uma separação completa entre Igreja e Estado (cf. Pio XI, Encíclica “Dilectissima nobis”, de 3 jun. 1933), porque isso implicaria, na prática, um Estado “emancipado” do dever de prestar culto público ao Deus único e verdadeiro e tendente a igualar a fé católica às falsas religiões, quando não a persegui-la e a lhe estorvar a missão salvífica (cf. Pio XI, Encíclica “Quas primas”, de 11 dez. 1925, n. 23). Por isso, ao mesmo tempo que afirmam, segundo as palavras acima referidas de Nosso Senhor, que à Igreja e ao Estado correspondem fins e competências próprias, os Papas proscrevem e nos mandam rejeitar igualmente a tese laicista de que “a Igreja deve ser separada do Estado e o Estado da Igreja” (Pio IX, “Syllabus”, de 8 dez. 1864, prop. 55: DH 2955).


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segunda-feira, 3 de junho de 2024

Memória de São Carlos Lwanga e companheiros mártires - Os três “corações” do homem.

 A tão esperada continuação do filme “A Paixão de Cristo” está chegando – A  Ressurreição – Vocação de Jesus

Como ouro na fornalha o Senhor provou os eleitos e aceitou-os como ofertas de holocausto; no tempo certo, Deus se lembrará deles, porque seus escolhidos receberão a graça e a paz (Sb 3,6s.9).

No século 19, na Uganda, país do continente africano, Carlos Lwanga, juntamente com outros 21 jovens leigos, sofreram torturas até o martírio, por não renunciarem à fé cristã. Celebrando a memória destes santos mártires, rezemos pelos cristãos perseguidos, em virtude de seu corajoso trabalho na vinha do Senhor, e pelos povos da grande África.

Primeira Leitura: 2 Pedro 1,2-7

Leitura da segunda carta de São Pedro – Caríssimos, 2graça e paz vos sejam concedidas abundantemente, porque conheceis Deus e Jesus, nosso Senhor. 3O seu divino poder nos deu tudo o que contribui para a vida e para a piedade, mediante o conhecimento daquele que, pela sua própria glória e virtude, nos chamou. 4Por meio de tudo isso nos foram dadas as preciosas promessas, as maiores que há, a fim de que vos tornásseis participantes da natureza divina, depois de libertos da corrupção, da concupiscência no mundo. 5Por isso mesmo, dedicai todo o esforço em juntar à vossa fé a virtude, à virtude o conhecimento, 6ao conhecimento o autodomínio, ao autodomínio a perseverança, à perseverança a piedade, 7à piedade o amor fraterno e ao amor fraterno a caridade. – Palavra do Senhor.

Salmo Responsorial: 90(91)

Vós sois meu Deus, no qual confio inteiramente.

1. Quem habita ao abrigo do Altíssimo / e vive à sombra do Senhor onipotente, / diz ao Senhor: “Sois meu refúgio e proteção, / sois o meu Deus, no qual confio inteiramente”. – R.

2. “Porque a mim se confiou, hei de livrá-lo / e protegê-lo, pois meu nome ele conhece. / Ao invocar-me, hei de ouvi-lo e atendê-lo, / a seu lado eu estarei em suas dores. – R.

3. Hei de livrá-lo e de glória coroá-lo, † vou conceder-lhe vida longa e dias plenos / e vou mostrar-lhe minha graça e salvação.” – R.

Evangelho: Marcos 12,1-12

Aleluia, aleluia, aleluia.

Jesus Cristo, a fiel testemunha, / primogênito dos mortos, / nos amou e do pecado nos lavou, / em seu sangue derramado (Ap 1,5). – R.

Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo Marcos – Naquele tempo, 1Jesus começou a falar aos sumos sacerdotes, mestres da Lei e anciãos, usando parábolas: “Um homem plantou uma vinha, cercou-a, fez um lagar e construiu uma torre de guarda. Depois arrendou a vinha a alguns agricultores e viajou para longe. 2Na época da colheita, ele mandou um empregado aos agricultores para receber a sua parte dos frutos da vinha. 3Mas os agricultores pegaram o empregado, bateram nele e o mandaram de volta sem nada. 4Então o dono da vinha mandou de novo mais um empregado. Os agricultores bateram na cabeça dele e o insultaram. 5Então o dono mandou ainda mais outro, e eles o mataram. Trataram da mesma maneira muitos outros, batendo em uns e matando outros. 6Restava-lhe ainda alguém: seu filho querido. Por último, ele mandou o filho até os agricultores, pensando: ‘Eles respeitarão meu filho’. 7Mas aqueles agricultores disseram uns aos outros: ‘Esse é o herdeiro. Vamos matá-lo, e a herança será nossa’. 8Então agarraram o filho, o mataram e o jogaram fora da vinha. 9Que fará o dono da vinha? Ele virá, destruirá os agricultores e entregará a vinha a outros. 10Por acaso, não lestes na Escritura: ‘A pedra que os construtores deixaram de lado tornou-se a pedra mais importante; 11isso foi feito pelo Senhor e é admirável aos nossos olhos’?” 12Então os chefes dos judeus procuraram prender Jesus, pois compreenderam que havia contado a parábola para eles. Porém ficaram com medo da multidão e, por isso, deixaram Jesus e foram-se embora. – Palavra da salvação.

Reflexão
Mas os agricultores pegaram no empregado, bateram nele, e o mandaram de volta sem nada. Então o dono da vinha mandou de novo mais um empregado. Os agricultores bateram na cabeça dele e o insultaram. Então o dono mandou ainda mais outro, e eles o mataram. Trataram da mesma maneira muitos outros, batendo em uns e matando outros. Restava-lhe ainda alguém: seu filho querido. Por último, ele mandou o filho até aos agricultores, pensando: 'Eles respeitarão meu filho'. Mas aqueles agricultores disseram uns aos outros: 'Esse é o herdeiro. Vamos matá-lo, e a herança será nossa. Então agarraram o filho, o mataram, e o jogaram fora da vinha. Que fará o dono da vinha? Ele virá, destruirá os agricultores, e entregará a vinha a outros. Por acaso, não lestes na Escritura: 'A pedra que os construtores deixaram de lado, tornou-se a pedra mais importante; isso foi feito pelo Senhor e é admirável aos nossos olhos'?"

Então os chefes dos judeus procuraram prender Jesus, pois compreenderam que havia contado a parábola para eles. Porém, ficaram com medo da multidão e, por isso, deixaram Jesus e foram-se embora.

A retomada do Tempo Comum que hoje tem início não deve apagar a forte impressão que nos causou a solenidade de Pentecostes, celebrada ontem, nem os proveitos espirituais que podemos colher da meditação constante e pausada, ao longo da semana, sobre a vinda do Espírito Santo em nossas almas. E recebê-lO significa, antes de tudo, ser capacitado a amar de um modo sobre-humano, ou seja, superior às nossas forças naturais. É como se tivéssemos, por assim dizer, três "corações", cada um deles preparado para amar em sua ordem e à sua maneira: temos o "coração" das emoções, dos sentimentos, da paixão meramente animal; temos o "coração" da alma, do agradecimento, da retribuição; temos enfim o "coração" do próprio Espírito que habita em nós e faz-nos amar nEle, com Ele e por Ele, de uma forma verdadeiramente divina. É este último amor o que faz bater o Coração do Filho do dono da vinha, como lemos há pouco no Evangelho, e O leva a entregar-se à conhecida maldade dos vinhateiros, a fim de os salvar e dar-lhes vida em abundância. Busquemos nesta "oitava de Pentecostes" unificar estes nossos três "corações", que tanto se digladiam entre si; subjuguemos o "coração" das paixões ao império da razão, e tornemos dócil aos convites do "coração" do Espírito o "coração" da alma, para que amemos a Deus e aos irmãos como Cristo nos amou. Que a Virgem Maria nos acompanhe nestes próximos dias e nos ajude a ter um coração puro e unificado como o dela, o único, além do de seu Filho, que se deixou inundar sem medida pela caridade sobrenatural do Espírito Santo.

 

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domingo, 2 de junho de 2024

9º Domingo do Tempo Comum - A cura da mão seca e a secura do nosso coração.

  Paróquia Divino Salvador » “O sábado foi feito para o homem”

Primeira leitura: Deuteronômio 5, 12-15
Leitura do livro do Deuteronômio:


Assim fala o Senhor: 12'Guarda o dia de sábado, para o santificares, como o Senhor teu Deus te mandou. 13Trabalharás seis dias e neles farás todas as tuas obras. 14O sétimo dia é o do sábado, o dia do descanso dedicado ao Senhor teu Deus. Não farás trabalho algum, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem teu escravo, nem tua escrava, nem teu boi, nem teu jumento, nem algum de teus animais, nem o estrangeiro que vive em tuas cidades, para que assim teu escravo e tua escrava repousem da mesma forma que tu. 15Lembra-te de que foste escravo no Egito e que de lá o Senhor teu Deus te fez sair com mão forte e braço estendido. É por isso que o Senhor teu Deus te mandou guardar o sábado.


- Palavra do Senhor
- Graças a Deus


Salmo 80 (81)

- Cantai salmos, tocai tamborim, harpa e lira suaves tocai! Na lua nova soai a trombeta, na lua cheia, na festa solene!

R: Exultai no Senhor, a nossa força!

- Porque isto é costume em Jacó, um preceito do Deus de Israel; uma lei que foi dada a José, quando o povo saiu do Egito.

R: Exultai no Senhor, a nossa força!

- Eis que ouço uma voz que não conheço: 'Aliviei as tuas costas de seu fardo, cestos pesados eu tirei de tuas mãos. Na angústia a mim clamaste, e te salvei.

R: Exultai no Senhor, a nossa força!

- Em teu meio não exista um deus estranho nem adores a um deus desconhecido! Porque eu sou o teu Deus e teu Senhor, que da terra do Egito te arranquei.

R: Exultai no Senhor, a nossa força!

Segunda leitura: Coríntios 4, 6-11
Leitura da segunda carte de São Paulo aos Coríntios:


Irmãos: 6Deus que disse: 'Do meio das trevas brilhe a luz', é o mesmo que fez brilhar a sua luz em nossos corações, para tornar claro o conhecimento da sua glória na face de Cristo. 7Ora, trazemos esse tesouro em vasos de barro, para que todos reconheçam que este poder extraordinário vem de Deus e não de nós. 8Somos afligidos de todos os lados, mas não vencidos pela angústia; postos entre os maiores apuros, mas sem perder a esperança; 9perseguidos, mas não desamparados; derrubados, mas não aniquilados; 10por toda parte e sempre levamos em nós mesmos os sofrimentos mortais de Jesus, para que também a vida de Jesus seja manifestada em nossos corpos. 11De fato, nós, os vivos, somos continuamente entregues à morte, por causa de Jesus, para que também a vida de Jesus seja manifestada em nossa natureza mortal.


- Palavra do Senhor
- Graças a Deus


Evangelho de Jesus Cristo segundo São Marcos 2, 23-3,6
- Aleluia, Aleluia, Aleluia.
- Vossa Palavra é a verdade; santificai-nos na verdade;

Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo São Marcos:

23Jesus estava passando por uns campos de trigo, em dia de sábado. Seus discípulos começaram a arrancar espigas, enquanto caminhavam. 24Então os fariseus disseram a Jesus: 'Olha! Por que eles fazem em dia de sábado o que não é permitido?' 25Jesus lhes disse: 'Por acaso, nunca lestes o que Davi e seus companheiros fizeram quando passaram necessidade e tiveram fome? 26Como ele entrou na casa de Deus, no tempo em que Abiatar era sumo sacerdote, comeu os pães oferecidos a Deus, e os deu também aos seus companheiros? No entanto, só aos sacerdotes é permitido comer esses pães'. 27E acrescentou: 'O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado. 28Portanto, o Filho do Homem é senhor também do sábado'. 3,1Jesus entrou de novo na sinagoga. Havia ali um homem com a mão seca. 2Alguns o observavam para ver se haveria de curar em dia de sábado, para poderem acusá-lo. 3Jesus disse ao homem da mão seca: 'Levanta-te e fica aqui no meio!' 4E perguntou-lhes: 'É permitido no sábado fazer o bem ou fazer o mal? Salvar uma vida ou deixá-la morrer?' Mas eles nada disseram. 5Jesus, então, olhou ao seu redor, cheio de ira e tristeza, porque eram duros de coração; e disse ao homem: 'Estende a mão'. Ele a estendeu e a mão ficou curada. 6Ao sairem, os fariseus com os partidários de Herodes, imediatamente tramaram, contra Jesus, a maneira como haveriam de matá-lo.


- Palavra da Salvação
- Glória a Vós, Senhor

 

No Evangelho de hoje, Cristo está em polêmica com os fariseus a respeito do sábado. São duas cenas diferentes. Na primeira, os discípulos colhiam espigas, e Jesus, vendo-os serem censurados pelos fariseus por trabalharem no sábado, diz: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado”. Na segunda, um homem de mão seca apresentou-se na sinagoga em dia de sábado, e o Senhor curou-lhe a mão na presença de todos. Então, a partir daquele momento, os fariseus e os partidários de Herodes começaram a planejar uma forma de matar Jesus. Eis, em resumo, o Evangelho deste domingo.

Antes de abordar a controvérsia sobre o sábado, lembremos que os milagres de Nosso Senhor não são nunca obras de diletantismo, nem se ordenam exclusivamente a devolver o bem-estar físico a esta ou àquela pessoa. Em verdade, Cristo fez milagres pensando em nós, consciente de que, dois mil anos mais tarde, meditaríamos a cura do homem de mão seca, por exemplo. Esse milagre tem de ser uma luz que ilumine os nossos passos e uma verdadeira cura, porque também nós temos a mão seca e precisamos recuperar a saúde espiritual. Em outras palavras, Jesus realizou milagres, de fato; mas Ele também os fazia, entre outros motivos, para suscitar nos fiéis, ao longo dos séculos, a fé e a compreensão de seus desígnios de amor.

Pois bem, é sábado, dia de cessar o trabalho, um preceito que os judeus observavam com o máximo rigor, como fazem até hoje. Um judeu não pode, por exemplo, apertar um interruptor de lâmpada aos sábados. Na sexta-feira à noite, passa-se pela casa apagando as luzes que devem ser apagadas e acendendo as que ficarão acesas durante o dia seguinte. Com o início do shabāt, isto é, ao despontar da primeira estrela na noite de sexta, o judeu já não pode tocar no interruptor. A comida, por sua vez, é preparada na sexta-feira e fica à disposição num rechaud, em banho-maria, durante o sábado inteiro.

Nosso Senhor olhou para tal situação e viu muito mais, viu além, viu que, nessa forma de viver a Lei de Moisés, havia certa incapacidade de realizar obras de santidade. Incapacidade de amar, eis a nossa maior miséria. Por mais que nos achemos bons católicos, a verdade é que, na raiz do nosso ser, não somos capazes de amar. A única oração que com sinceridade podemos fazer é: “Jesus, se depender de mim, somente de mim, eu não vos amo, eu não me amo, eu não amo ninguém”.

Esse ato de humildade tem de ser feito por todos. Somos o homem de mão seca, ou seja, de coração incapaz de realizar a obra do amor. No entanto, escondemos a mão quando vamos rezar. Apresentamo-nos a Deus de cara bonita: “Ó Jesus, eu vos amo! Ó Jesus, vós sois tudo para mim”, mas verdade é que essas palavras, se forem verdadeiras, não o são por sermos capazes de amar, mas porque Jesus nos deu uma graça especial. Abandonados a nós mesmos, temos a mão seca para as obras da salvação.

Diz Jesus no Evangelho: “Levanta-te e fica aqui no meio”. O homem estava escondido a um canto, talvez por vergonha de sua mão. É o que todos nós fazemos. Pretendemos ocultar de Deus nossos defeitos. Queremos maquiar-nos e apresentar-nos de máscara, com juras de amor como as de São Pedro na Última Ceia: “Senhor, eu darei minha vida por ti. Irei até a morte”.

Mas Jesus, que conhece o íntimo dos corações, sabe-nos incapazes. “Darás a vida por mim?” responde Ele a Simão; “na verdade, eu te digo que ainda hoje me negarás três vezes”. Se era verdade para Pedro, também o é para nós. Todos, quando vamos à igreja fazer nossas declarações de amor e de entrega, agimos como Pedro, sem nos darmos conta de que, sem a graça, nada nos é possível. Não adianta dizer: “Iremos até a morte por Jesus”. Sem o auxílio divino, quando nos encontramos numa encruzilhada acabamos nos acovardando e traindo Jesus. Por isso nós precisamos ter vida de oração. Esse é o verdadeiro espírito do sábado.

Com efeito, o 3.º Mandamento é menos sobre o descanso que sobre a vida de oração. O descanso sabático, sim, é importante; mas dedicar tempo a Deus, mais do que um dever semanal, é uma necessidade diária. Deveríamos procurar recolher-nos todos os dias num momento de oração íntima, colocando-nos na presença de Jesus sem máscaras, tais quais somos, com a nossa incapacidade de amar. Como mendigos da graça divina, precisamos dizer: “Senhor, eu não vos amo, mas não quero morrer assim. Fazei, Senhor, com que eu vos ame. Dai-me, Senhor, a vossa graça. Eis-me aqui, mendigo da vossa bondade. Tende compaixão de mim. Olhai a minha mão seca e a dureza do meu coração”. 

Sim, Jesus olha para a dureza do nosso coração. Se lermos atentamente o Evangelho de hoje, iremos notar que, no versículo 5 do capítulo 3, São Marcos, como sempre, descreve a psicologia de Jesus. Essa, aliás, é uma das características do Evangelho de Marcos, rico em vislumbres da intimidade de Cristo, dos movimentos do seu Coração, das suas paixões humanas, do seu amor também humano, expressão do amor divino. Diz, pois, São Marcos que, ao chamar para o centro da sinagoga o homem de mão seca, Jesus perguntou aos circunstantes: “É permitido no sábado fazer o bem ou fazer o mal? Salvar uma vida ou deixá-la morrer?” Como nada dissessem, Jesus “olhou ao seu redor, cheio de ira e tristeza, porque eram duros de coração”.

Mostremos ao Senhor o nosso coração como ele é. Deixemos que Ele seja o médico de nossas almas. Jesus é observador. Ele viu a mão seca de um, mas a dureza de coração de muitos, expressão que traduz o grego ‘πώρωσις [pōrōsis]’, que quer dizer “calejado”. Trata-se de um termo médico para designar a pele grossa e insensível, como a de uma mão calejada que nada sente. Os fariseus, obstinados na soberba, eram insensíveis. Tinham o Mestre presente, Deus lhes falava diretamente, mas em vão. Eles ‘πωρώσει τῆς καρδίας [pōrōsei tēs kardias]’, tinham um coração calejado. Eram, por assim dizer, “paquidermes cardíacos”.

Ora, o endurecimento do coração, em geral, não começa por pura maldade, mas como mecanismo de autoproteção. Religiosos, os fariseus observavam o sábado e faziam suas orações; porém, foram-se revestindo de uma pele grossa que impedia esses atos aparentemente bons de surtirem efeito. Por quê? Porque quem se põe a rezar precisa, antes de se encontrar com Deus, encontrar-se consigo mesmo. Por não fazerem isso, muitos fiéis rezam distraídos, dispersos, agitados. O problema, aqui, não está em se encontrar com Deus, mas em não querer encontrar-se consigo, porque isso faz sofrer.

Dói olhar para si mesmo, e a vida de oração, querendo ou não, é como um ovo. Dentro da casca, a gema é envolvida pela clara; de modo que, para chegar ao núcleo, que é a gema, é preciso atravessar tanto a casca quanto a clara. A gema representa quem? O próprio Deus, com quem nos encontramos. No entanto, para alcançar a gema, devemos atravessar a casca e clara, que simbolizam nossas paixões e angústias.

A oração exige atravessar a casca do ovo (a calosidade do coração, a carapaça de autoproteção de quem não quer que Deus adentre) e a clara (tudo o que nos impede de nos encontrarmos com o nosso verdadeiro eu). Por isso, o primeiro ato a ser feito antes de rezar é de humildade: “Jesus, vós sabeis tudo. Vós sabeis que vos amo, mas que vos amo com um amor miserável, egoísta. Não vos amo de verdade. Jesus, meu amor é interesseiro, covarde e sem fibra, é inconstante e é volúvel, mas o vosso é tão grande!… Olhai, Senhor, para o meu coração insensível e penetrai-o, Senhor, mesmo que isso me vá causar sofrimento. Sim, Senhor, porque eu quero vos amar, nem posso viver sem vos amar”.

Guardar o sábado é isso. Sim, como Jesus ressuscitou no domingo, os fiéis substituíram o sábado pelo domingo. Trata-se de um costume antiquíssimo e universal. Daí que a esmagadora maioria dos cristãos siga até hoje o que é atestado pelo Novo Testamento: os discípulos se reuniam no dia do Senhor (cf. At 20,7; Ap 1,10 etc.). O  espírito da observância do domingo é a oração, a necessidade de se encontrar com Deus para estar com Ele. Ora, como rezar sem ter a coragem do encontro, a coragem de estar com Jesus e de se encontrar consigo mesmo? 

Muitos se queixam de não conseguir rezar exatamente por conta das tribulações. Poderíamos dizer que nós, cristãos, vivemos o que se diz na Segunda Leitura de hoje, da Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios:

Somos afligidos de todos os lados, mas não vencidos pela angústia; postos entre os maiores apuros, mas sem perder a esperança; perseguidos, mas não desamparados; derrubados, mas não aniquilados; por toda parte e sempre levamos em nós mesmos os sofrimentos mortais de Jesus, para que também a vida de Jesus seja manifestada em nossos corpos (2Cor 4, 8ss).

Quantos de nós podem fazer o desabafo: “Somos afligidos… somos postos entre os maiores apuros… somos perseguidos… somos derrubados… levamos os sofrimentos mortais de Jesus”! Sim, é verdade; mas se você, ao colocar-se diante de Deus em oração, tiver a coragem de se encontrar consigo mesmo, poderá compreender o que diz São Paulo também nessa carta: “Trazemos esse tesouro” da graça divina “em vasos de barro, para que todos reconheçam que esse poder extraordinário vem de Deus, e não de nós” (v. 7). 

Sem a graça de Deus, temos todos a mão seca, somos incapazes de amar. Foi o que dissemos na sequência de Pentecostes duas semanas atrás: “Sem a luz que acode, nada o homem pode, nenhum bem há nele”, — “Sine tuo numine, nihil est in homine, nihil est innoxium”. Nada o homem pode. Não somos capazes de fazer absolutamente nada, por isso somos mendigos da graça.

O Evangelho deste domingo exorta-nos a nos apresentarmos corajosamente diante do Senhor. Saia do canto, venha para o centro e coloque-se diante dele. Mostre-lhe a mão seca; se não o fizer, Cristo olhará para você com ira e tristeza, por vê-lo preferir, à cura do coração, a carapaça de uma pele grossa que não se deixa atingir.

Venha para o centro e coloque-se diante de Jesus. Mesmo que você esteja aflito, venha e coloque suas aflições diante dele, para não ser vencido pela angústia. Mesmo que você esteja nos maiores apuros, venha e coloque esses apuros diante dele, para não perder a esperança. Mesmo que você esteja sendo perseguido, venha e coloque essa perseguição junto de Cristo, e você não será desamparado. Podemos, enfim, até estar derrubados; mas não seremos aniquilados, se tivermos a coragem de rezar e de viver verdadeiramente o dia do Senhor, um dia, sim, dedicado a Ele, mas que se estende a toda a semana na oração que fazemos recolhidos, na intimidade do amor a Deus.

Faça, pois, o sério propósito de não deixar passar um só dia sem verdadeira oração de intimidade com Jesus. Não lhe esconda a mão seca. Venha para o meio, e Ele irá curá-lo.

 

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sexta-feira, 24 de maio de 2024

7ª Semana do Tempo Comum - Matrimônio: um caminho de santidade.

4 sinais que você está agindo como um fariseu e como parar agora

Confiei no vosso amor, Senhor. Meu coração por vosso auxílio rejubile, e que eu vos cante pelo bem que me fizestes! (Sl 12,6)

Jesus responde aos seus interlocutores sobre a questão do divórcio, firmando-se sobre o valor do amor entre os esposos e da unidade da família querida por Deus. Os esposos cristãos, olhando para o Senhor “rico em misericórdia e compassivo”, saberão crescer na fidelidade e serão testemunhas do amor sem medidas para toda a comunidade. Celebremos com o compromisso de crescer no amor de Deus, sendo honestos e coerentes em nossas palavras e ações.

Primeira Leitura: Tiago 5,9-12

Leitura da carta de São Tiago9Irmãos, não vos queixeis uns dos outros, para que não sejais julgados. Eis que o juiz está às portas. 10Irmãos, tomai por modelo de sofrimento e firmeza os profetas, que falaram em nome do Senhor. 11Reparai que consideramos como bem-aventurados os que perseveraram. Ouvistes falar da perseverança de Jó e conheceis o êxito que o Senhor lhe deu – pois o Senhor é rico em misericórdia e compassivo. 12Sobretudo, meus irmãos, não jureis, nem pelo céu, nem pela terra, nem por qualquer outra forma de juramento. Antes, que o vosso “sim” seja sim e o vosso “não”, não. Então não estareis sujeitos a julgamento. – Palavra do Senhor.

Salmo Responsorial: 102(103)

O Senhor é indulgente, é favorável.

1. Bendize, ó minha alma, ao Senhor, / e todo o meu ser, seu santo nome! / Bendize, ó minha alma, ao Senhor, / não te esqueças de nenhum de seus favores! – R.

2. Pois ele te perdoa toda culpa / e cura toda a tua enfermidade; / da sepultura ele salva a tua vida / e te cerca de carinho e compaixão. – R.

3. O Senhor é indulgente, é favorável, / é paciente, é bondoso e compassivo. / Não fica sempre repetindo as suas queixas / nem guarda eternamente o seu rancor. – R.

4. Quanto os céus por sobre a terra se elevam, / tanto é grande o seu amor aos que o temem; / quanto dista o nascente do poente, / tanto afasta para longe nossos crimes. – R.

Evangelho: Marcos 10,1-12

Aleluia, aleluia, aleluia.

Vossa Palavra é a verdade; / santificai-nos na verdade! (Jo 17,17) – R.

Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo Marcos – Naquele tempo, 1Jesus foi para o território da Judeia, do outro lado do rio Jordão. As multidões se reuniram de novo em torno de Jesus. E ele, como de costume, as ensinava. 2Alguns fariseus se aproximaram de Jesus. Para pô-lo à prova, perguntaram se era permitido ao homem divorciar-se de sua mulher. 3Jesus perguntou: “O que Moisés vos ordenou?” 4Os fariseus responderam: “Moisés permitiu escrever uma certidão de divórcio e despedi-la”. 5Jesus então disse: “Foi por causa da dureza do vosso coração que Moisés vos escreveu esse mandamento. 6No entanto, desde o começo da criação, Deus os fez homem e mulher. 7Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e os dois serão uma só carne. 8Assim, já não são dois, mas uma só carne. 9Portanto, o que Deus uniu, o homem não separe!” 10Em casa, os discípulos fizeram, novamente, perguntas sobre o mesmo assunto. 11Jesus respondeu: “Quem se divorciar de sua mulher e casar com outra cometerá adultério contra a primeira. 12E se a mulher se divorciar de seu marido e casar com outro, cometerá adultério”. – Palavra da salvação.

Reflexão
No Evangelho de hoje, o Senhor nos fala daquilo que é e sempre foi a doutrina de sua Santa Igreja acerca da indissolubilidade do matrimônio. Embora o mundo ranja os dentes e queira, por todos os meios, que os cristãos capitulem e cedam de uma vez por todas à tentação do divórcio e das uniões livres, a Igreja Católica sempre defendeu corajosamente o altíssimo valor atribuído à instituição matrimonial por seu divino Fundador: “Quem se divorciar de sua mulher e casar com outra”, sentencia Ele, “cometerá adultério contra a primeira”. Eis um princípio fundamental da moral cristã, válido para todos os tempos e que já na época de Jesus causou escândalo nos que, pela primeira vez, ouviam a verdade proclamada pelo próprio Verbo encarnado: “E se a mulher se divorciar de seu marido e casar com outro, cometerá adultério”. Que o mundo de hoje não entenda os ensinamentos de Cristo não é algo que nos deva surpreender, pois os mesmos contemporâneos do Senhor se fizeram de surdos às suas palavras. Ainda que a dureza do nosso coração continue a mesma, vinte séculos após os acontecimentos registrados no Evangelho de hoje, o matrimônio continua sendo, conforme os desígnios de Deus, um caminho de salvação e santificação, uma forma especialíssima que os esposos têm de viver e representar aquela aliança de amor que une Cristo à sua Igreja. Vinculados pelos laços matrimoniais, marido e mulher instituem uma comunidade de vida que, por exigir sacrifício, abnegação e entrega total e paciente ao outro, expressa e possibilita as formas mais elevadas e puras de caridade cristã. Que o Espírito Santo, cuja graça é derramada abundantemente sobre os esposos na celebração do matrimônio, dê a todos os casais a força de se manterem fiéis ao compromisso assumido, a fim de que o mundo inteiro testemunhe que, em Cristo e por Cristo, as exigências do casamento cristão são não apenas possíveis, mas fonte de verdadeira alegria e felicidade.


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domingo, 19 de maio de 2024

Solenidade de Pentecostes - Em Pentecostes, Cristo se reveste de um novo Corpo.

Temos culpa na Paixão de Cristo?

 O Espírito do Senhor encheu a terra inteira; ele, que abrange todo o universo, conhece também cada palavra, aleluia (Sb 1,7).

Vindos de diferentes realidades e iluminados pelo mesmo Espírito de Deus, celebremos a solenidade de Pentecostes. O sopro divino desce sobre nós e nos congrega na mesma fé e numa só família, na alegria e na fraternidade. Renovados pelo Espírito criador, nós nos fortalecemos na missão, como Igreja em percurso sinodal, e nos colocamos a serviço do bem comum.

Primeira Leitura: Atos 2,1-11

Batizados no mesmo Espírito, formamos um só corpo, na diversidade de dons e culturas, e somos enviados a anunciar a paz e o perdão.

Leitura dos Atos dos Apóstolos 1Quando chegou o dia de Pentecostes, os discípulos estavam todos reunidos no mesmo lugar. 2De repente, veio do céu um barulho como se fosse uma forte ventania, que encheu a casa onde eles se encontravam. 3Então apareceram línguas como de fogo que se repartiram e pousaram sobre cada um deles. 4Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito os inspirava. 5Moravam em Jerusalém judeus devotos, de todas as nações do mundo. 6Quando ouviram o barulho, juntou-se a multidão e todos ficaram confusos, pois cada um ouvia os discípulos falar em sua própria língua. 7Cheios de espanto e admiração, diziam: “Esses homens que estão falando não são todos galileus? 8Como é que nós os escutamos na nossa própria língua? 9Nós que somos partos, medos e elamitas, habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia, 10da Frígia e da Panfília, do Egito e da parte da Líbia próxima de Cirene, também romanos que aqui residem; 11judeus e prosélitos, cretenses e árabes, todos nós os escutamos anunciarem as maravilhas de Deus na nossa própria língua!” – Palavra do Senhor.

Salmo Responsorial: 103(104)

Enviai o vosso Espírito, Senhor, / e da terra toda a face renovai.

1. Bendize, ó minha alma, ao Senhor! / Ó meu Deus e meu Senhor, como sois grande! / Quão numerosas, ó Senhor, são vossas obras! / Encheu-se a terra com as vossas criaturas! – R.

2. Se tirais o seu respiro, elas perecem / e voltam para o pó de onde vieram. / Enviais o vosso espírito e renascem, / e da terra toda a face renovais. – R.

3. Que a glória do Senhor perdure sempre, / e alegre-se o Senhor em suas obras! / Hoje, seja-lhe agradável o meu canto, / pois o Senhor é a minha grande alegria! – R.

Segunda Leitura: 1 Coríntios 12,3-7.12-13

Leitura da primeira carta de São Paulo aos Coríntios – Irmãos, 3ninguém pode dizer: “Jesus é o Senhor”, a não ser no Espírito Santo. 4Há diversidade de dons, mas um mesmo é o Espírito. 5Há diversidade de ministérios, mas um mesmo é o Senhor. 6Há diferentes atividades, mas um mesmo Deus que realiza todas as coisas em todos. 7A cada um é dada a manifestação do Espírito em vista do bem comum. 12Como o corpo é um, embora tenha muitos membros, e como todos os membros do corpo, embora sejam muitos, formam um só corpo, assim também acontece com Cristo. 13De fato, todos nós, judeus ou gregos, escravos ou livres, fomos batizados num único Espírito, para formarmos um único corpo, e todos nós bebemos de um único Espírito. – Palavra do Senhor.

Evangelho: João 20,19-23

Aleluia, aleluia, aleluia.

Vinde, Espírito divino, e enchei com vossos dons os corações dos fiéis; / e acendei neles o amor, como um fogo abrasador! – R.

Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo João – 19Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, Jesus entrou e, pondo-se no meio deles, disse: “A paz esteja convosco”. 20Depois dessas palavras, mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os discípulos se alegraram por verem o Senhor. 21Novamente, Jesus disse: “A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, também eu vos envio”. 22E depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: “Recebei o Espírito Santo. 23A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem não os perdoardes, eles lhes serão retidos”. – Palavra da salvação.

Reflexão

Neste domingo, transcorridos cinquenta dias após a Páscoa, celebramos a solenidade de Pentecostes. Depois de ressuscitar num domingo, Jesus apareceu aos discípulos durante quarenta dias; mas Ele mesmo disse “é conveniente para vós que eu vá”, a fim de enviar o Espírito Santo. Hoje o Paráclito desce sobre os Apóstolos, reunidos no Cenáculo com Maria Virgem. Tem início, assim, um novo período da história, o tempo da Igreja.

A Igreja está fundamentada no mistério de Pentecostes, porque ela é o novo Corpo do qual Jesus se revestiu. A expressão pode parecer ousada, mas está presente no último capítulo da Vida de Cristo, de Fulton Sheen. O capítulo intitula-se: “Cristo se reveste de um novo Corpo”. Fulton Sheen poderia tê-lo chamado de “Pentecostes”, mas preferiu esse título mais instigante. Isso porque em Pentecostes tem início a Igreja, o Corpo místico de Cristo, continuação, na história, do mistério da Encarnação. Reflitamos um pouco a esse respeito.

É comum ouvirmos algumas pessoas dizendo: “Se eu vivesse dois mil anos atrás, quando Jesus veio ao mundo, não teria dificuldade de crer nele. Agora, porém, Jesus está tão longe… O que sobrou foi uma Igreja corrompida, cheia de pecados. É triste saber que Jesus, tão santo, viveu dois mil anos atrás, enquanto nós o que temos hoje é a Igreja”. 

A verdade é que, se vivêssemos naquela época, tampouco acreditaríamos em Jesus. Se nos escandalizamos hoje com as fraquezas presentes na Igreja, que é o Corpo místico dele, como não nos haveríamos de escandalizar, dois mil anos atrás, com as fraquezas do corpo físico de Cristo? Sim, Jesus é o Filho de Deus; nós, porém, o veríamos crucificado, ensanguentado, desfigurado, irreconhecível. Foi um escândalo para todos, e também seria para nós.

Por que tantos judeus se negaram a crer em Nosso Senhor? Porque o viam apenas como homem, com as fraquezas próprias de um corpo humano. Ele sangrou, sofreu e finalmente se entregou à morte. Ora, como é possível que Cristo, sendo Deus, morra na Cruz? Como é possível que, sendo de condição divina, tenha ao mesmo tempo um corpo frágil, estraçalhado, pregado ao madeiro? Eis o grande escândalo do corpo de Cristo.

Entretanto, Jesus subiu aos céus ressuscitado, em corpo glorioso, e de lá enviou o Espírito Santo para que esse corpo permanecesse na história. Esse Corpo é a Igreja. 

Sob a mesma perspectiva, olhemos agora para a conversão de São Paulo. Jesus subiu aos céus sem que Saulo, ao que tudo indica, o tivesse visto alguma vez. Encarregado de levar os cristãos presos a Jerusalém, Saulo cai por terra a caminho de Damasco e ouve perguntarem-lhe do meio de uma luz fulgurante: “Saulo, Saulo, por que me persegues?”; “Quem és tu, Senhor, para que eu te persiga?”; “Eu sou Jesus, a quem tu persegues” (At 9, 3ss).

Saulo poderia ter dito: “Não, Senhor, persigo os que creem ti”. No entanto, Jesus trata-os como se fossem Ele mesmo. Quem, ao tropeçar e bater o pé num móvel da sala, reage dizendo: “Foi só o dedão”? Ninguém. Se o pé se machuca, o corpo inteiro sente-se afetado. Saulo estava pondo membros do Corpo de Cristo na cadeia, por isso Jesus, a Cabeça, queixou-se: “Por que me persegues?” É a experiência da Igreja. Em Pentecostes, vem à luz o Corpo místico de Cristo.

Não se trata de um corpo físico em sentido biológico. A partir da Ascensão, o corpo físico de Jesus está no Céu e, sacramentalmente, nos sacrários da terra, escondido sob a aparência de pão. A Igreja não é o corpo físico de Jesus, é o Corpo místico. Também não se trata de uma associação, como um clube ou uma empresa. As associações humanas são corpos morais, que se sustentam e se perpetuam pela vontade dos associados de permanecerem unidos uns aos outros. O Corpo místico de Cristo não é obra de vontades humanas. Não somos mera instituição humana. A Igreja é o Corpo místico de Cristo; logo, sua alma é o Espírito Santo.

Se os Apóstolos, antes de Pentecostes, tivessem decidido fundar a Igreja com as próprias forças, estariam fundando qualquer coisa, menos a Igreja. A Igreja é uma instituição fundamentalmente divina. Não é a vontade do homem, mas o Espírito Santo quem faz a Igreja.

A Igreja militante é um organismo presente no mundo; é uma sociedade visível, mas diferente de todas as outras. É fruto da ação do Espírito divino derramado sobre os Apóstolos e a Virgem Maria. O Paráclito é para a Igreja o que a alma é para o corpo humano.

A ciência, escreve Fulton Sheen na obra Vida de Cristo [1], já descobriu quais são os elementos que compõem o corpo humano. Ora, reuni-os todos e entregai-os a um grupo de cientistas. Embora conheçam cada um desses elementos, eles não serão capazes de produzir em laboratório um só dedo. Afinal, o que faz um corpo ser propriamente humano é a alma. O que faz um embrião, a célula concebida no tubo uterino de uma mulher, ser humano é a alma em virtude da qual aquele corpinho vai-se desenvolvendo como qualquer ser vivo.

O corpo vivo cresce de dentro para fora. O que não é vivo cresce de fora para dentro. Um edifício, por exemplo, constrói-se assim: primeiro se erguem as paredes e só depois se faz o acabamento. Ora, a Igreja é um Corpo vivo. Ela começa com os Apóstolos; mas não lhe basta ter os elementos — Pedro, André, Tiago, João etc. —, pois é necessário unificá-los pela alma infundida nesse Corpo. E a alma da Igreja é o Espírito Santo.

Em Pentecostes, o Paráclito, princípio vivificante da Igreja, foi derramado sobre ela em forma de línguas de fogo, de modo que a Igreja se tornou, a partir de então, uma realidade visível. Quando São Pedro abriu as portas do Cenáculo, e a multidão que estava do lado de fora ouviu o anúncio do Evangelho, a Igreja verdadeiramente nasceu. Antes havia elementos dispersos, ainda em preparação, que foram reunidos num só e mesmo Corpo vivo pelo Espírito Santo.

A Igreja é uma união de seres humanos com o Ressuscitado num organismo vivo que atravessa a história. Pelo Espírito Santo, estamos unidos a Jesus Cristo como membros ao Corpo. Ele, nossa divina Cabeça, reina glorioso no Céu; nós, membros ainda padecentes na terra, vivemos da vida dele por obra do Espírito Santo que nos foi dado, pelo qual nos chegam as graças atuais de que necessitamos todos os dias: “Eis que estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos” (Mt 28, 20). Eis o mistério da Igreja. 

Há quem diga: “Eu creio em Deus e em Jesus Cristo, mas eu não creio na Igreja”. Isso não dá certo. O movimento dos inimigos de Cristo, exposto já por Pio XII, é assim: de início afirmam: “Jesus sim, Igreja não”; dali a pouco, fazem a ressalva: “Deus sim, Jesus não, porque temos de unir as religiões”; e enfim proclamam: “Deus não”. Esse é o caminho do Anticristo, que leva a um verdadeiro satanismo [2].

Quem tem fé em Jesus, mas não na Igreja, pode ter acesso a Cristo unicamente por meio da Bíblia? Ora, a história atesta que não haveria Bíblia, se antes não houvesse Igreja. Os três primeiros séculos do cristianismo, com efeito, foram muito conturbados. A Igreja era perseguida externamente pelo Império Romano e dilacerada internamente por uma religião parasita chamada gnose [3]. O gnosticismo foi de longe o maior problema da Igreja nos três primeiros séculos, muito maior do que a perseguição romana. Porque os romanos perseguiam os cristãos, mas o sangue dos mártires, como diz Tertuliano [4], era semente de novos fiéis; o gnosticismo, no entanto, como um parasita dentro da Igreja, esse, sim, estava sugando-lhe a vida.

Em que consiste o gnosticismo? É a promessa de um acesso privilegiado à “verdadeira” doutrina cristã à margem da Igreja e da hierarquia eclesiástica: “Nós, gnósticos, temos a doutrina profunda. Já os bispos, uns ignorantes semi-analfabetos, de nada sabem. Nós é que temos conhecimento, a gnose”. E começaram a produzir dúzias de livros. Entre eles, o “evangelho” de Maria Madalena, listado por Dan Brown, autor de O Código da Vinci, entre os apócrifos excluídos da Bíblia por apresentarem um Cristo demasiado humano [5].

Na verdade, o evangelho de Maria Madalena é um escrito tardio do séc. III, que a Igreja fez bem em não incluir no cânon bíblico, pois é uma invenção gnóstica. Qual, porém, foi a grande “contribuição” de Dan Brown? Dar a conhecer aos ignorantes o que nós, católicos, sempre soubemos: só existe Bíblia, enquanto conjunto de livros inspirados por Deus, porque a Igreja Católica discerniu quais livros são inspirados. Sabemos disso há dois mil anos. Nunca o escondemos de ninguém. Foram os protestantes que, faz meio milênio, resolveram ter Bíblia sem a Igreja. Isso não é possível. Ou se crê na Igreja que nos deu a Bíblia, ou não há explicação para a origem da própria Bíblia [6]. 

“Mas a Igreja Católica”, dizem alguns, “está repleta de pedófilos, de pecadores, de ladrões, de assassinos, de gente sem-vergonha. Longe de mim crer nisso”. É um escândalo idêntico ao dos judeus, dos fariseus e dos sumos sacerdotes que não creram que Jesus é o Filho de Deus feito homem, por terem-no visto sangrar e morrer com um corpo humano cheio de fraquezas. Ora, do mesmo modo que o corpo físico de Cristo, antes da Ressurreição, tinha fraquezas — tanto que morreu crucificado —, assim também o Corpo místico, embora santo e imaculado, tem membros fracos e pecadores neste mundo. 

Todo aquele que quiser ter contato com Jesus ressuscitado deve abrir-se à presença encarnada do Corpo místico dele na história, que é a Igreja. É dela que recebemos a Bíblia, os sacramentos, a sã doutrina, o exemplo e a intercessão dos santos; em suma, todos os nossos tesouros. E se Jesus não tem dois corpos, a Igreja só pode ser única.

Pentecostes nos chama, portanto, a renovar a nossa fé: “Creio na Igreja, una, santa, católica e apostólica”. É una, porque Jesus não tem dois corpos. É santa porque, embora os membros tenham pecados, o Corpo de Cristo é imaculado. É católica, porque em todos os tempos e lugares é a guardiã da fé em sua integridade. É apostólica, porque nossa fé é a mesma pela qual os Apóstolos derramaram o sangue. Os Doze, tímidos dentro do Cenáculo, de lá saíram em Pentecostes cheios do Espírito Santo, homens valorosos, prontos para derramar o próprio sangue, tingindo suas vestes no sangue do Cordeiro. Se eles morreram pela fé, também nós temos de morrer por ela. 

Muitos acusam a Igreja de violência e intolerância por não aceitar a “diversidade”. A resposta é simples. Para os católicos, a fé não é algo pelo qual se deve matar, é algo pelo qual se deve morrer. Estamos dispostos a dar a vida para não deixar de ser membros do Corpo místico. Pentecostes é, por assim dizer, o “aniversário” da Igreja Católica. Derramado sobre os membros, o Espírito Santo dá forma ao Corpo de que Cristo é revestido, a Igreja, pela qual Ele continua vivo entre nós ao longo dos séculos. 

Renovemos, pois, neste domingo nossa fé na Igreja. Renovemos ainda o nosso Batismo e a nossa Crisma, nos quais recebemos o Espírito que nos faz membros do Corpo de Cristo, ungidos como Ele. Por isso somos cristãos. Rezemos pela Igreja, que padece perseguições tanto externas (cristãos encarcerados ou martirizados) quanto internas (heresias que, como parasitas, sugam a vida da Igreja). Rezemos e mais uma vez renovemos a vontade de, cheios do Espírito Santo de amor, pertencer ao Corpo místico de Cristo ressuscitado, a santa Igreja Católica.

 

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Notas

  1. Cf. Fulton J. Sheen, Life of Christ, c. 62. Nova Iorque: Image Books, 1977, p. 444. Cf.
  2. Pio XII, Discurso aos homens da Ação Católica, de 12 out. 1952 (AAS  44 [1952] 832). Leia-se também, em nosso Blog, o artigo “A destruição arquitetada por um anjo”, de 25 jun. 2014.
  3. Para uma exposição sumária do movimento gnóstico, assista à aula “O gnosticismo e o arianismo”, nn. 7–11, do curso Introdução ao Método Teológico.
  4. Cf. Tertuliano, Apologeticum, 50.13 (ML 1,535A; CSEL 69 [1939] 12059s): “Plures efficimur, quotiens metimur a vobis: semen est sanguis Christianorum.”
  5. Cf. Dan Brown, The Da Vinci Code, c. 58. Leia-se também, do nosso Blog, “A verdade sobre os apócrifos”, de 13 nov. 2020.
  6. Ver, a propósito, a aula “Uma Bíblia sem Igreja?”, do curso Por que não sou protestante.