
O Espírito Santo apareceu na nuvem
luminosa, e a voz do Pai se fez ouvir: Este é o meu Filho amado, nele
depositei todo o meu amor. Escutai-o (Mt 17,5).
No monte Tabor, Jesus se manifesta
aos discípulos em todo o esplendor de sua vida divina, antecipando a
glória de sua ressurreição. Nesta festa, somos convidados a nos
deixarmos alcançar pela face luminosa do Filho amado de Deus, a ouvir
sua voz e seguir seus passos. Na primeira semana deste mês vocacional,
recordamos a vocação para o ministério ordenado: diáconos, padres e
bispos. Celebremos em gratidão pelo nosso pároco e por todos os padres,
neste seu dia, tendo presente também a Jornada Mundial da Juventude, que
se encerra hoje em Portugal.
Primeira Leitura: Daniel 7,9-10.13-14
Leitura da profecia de Daniel – 9Eu
continuava olhando até que foram colocados uns tronos, e um ancião de
muitos dias aí tomou lugar. Sua veste era branca como neve e os cabelos
da cabeça, como lã pura; seu trono eram chamas de fogo, e as rodas do
trono, como fogo em brasa. 10Derramava-se aí um rio de fogo
que nascia diante dele; serviam-no milhares de milhares, e milhões de
milhões assistiam-no ao trono; foi instalado o tribunal e os livros
foram abertos. 13Continuei insistindo na visão noturna, e eis
que, entre as nuvens do céu, vinha um como filho de homem,
aproximando-se do ancião de muitos dias, e foi conduzido à sua presença.
14Foram-lhe dados poder, glória e realeza, e todos os povos,
nações e línguas o serviam: seu poder é um poder eterno que não lhe
será tirado, e seu reino, um reino que não se dissolverá. – Palavra do
Senhor.
Salmo Responsorial: 96(97)
Deus é rei, é o Altíssimo, / muito acima do universo.
1. Deus é rei! Exulte a terra de alegria, / e as ilhas numerosas rejubilem! / Treva e nuvem o rodeiam no seu trono, / que se apoia na justiça e no direito. – R.
2. As montanhas se derretem como cera / ante a face do Senhor de toda a terra; / e assim proclama o céu sua justiça, / todos os povos podem ver a sua glória. – R.
3. Porque vós sois o Altíssimo, Senhor, † muito acima do universo que criastes, / e de muito superais todos os deuses. – R.
Segunda Leitura: 2 Pedro 1,16-19
Leitura da segunda carta de São Pedro – Caríssimos, 16não
foi seguindo fábulas habilmente inventadas que vos demos a conhecer o
poder e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, mas, sim, por termos sido
testemunhas oculares da sua majestade. 17Efetivamente, ele
recebeu honra e glória da parte de Deus Pai, quando do seio da
esplêndida glória se fez ouvir aquela voz que dizia: “Este é o meu Filho
bem-amado, no qual ponho o meu benquerer”. 18Esta voz, nós a ouvimos, vinda do céu, quando estávamos com ele no monte santo. 19E
assim se nos tornou ainda mais firme a palavra da profecia, que fazeis
bem em ter diante dos olhos, como lâmpada que brilha em lugar escuro,
até clarear o dia e levantar-se a estrela da manhã em vossos corações. –
Palavra do Senhor.
Evangelho: Mateus 17,1-9
Aleluia, aleluia, aleluia.
Eis meu Filho muito amado, nele está meu benquerer, / escutai-o, todos vós! (Mt 17,5). – R.
Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus – Naquele tempo, 1Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e os levou a um lugar à parte, sobre uma alta montanha. 2E foi transfigurado diante deles; o seu rosto brilhou como o sol e as suas roupas ficaram brancas como a luz. 3Nisto apareceram-lhes Moisés e Elias, conversando com Jesus. 4Então
Pedro tomou a palavra e disse: “Senhor, é bom ficarmos aqui. Se queres,
vou fazer aqui três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para
Elias”. 5Pedro ainda estava falando quando uma nuvem
luminosa os cobriu com sua sombra. E da nuvem uma voz dizia: “Este é o
meu Filho amado, no qual eu pus todo meu agrado. Escutai-o!” 6Quando ouviram isso, os discípulos ficaram muito assustados e caíram com o rosto em terra. 7Jesus se aproximou, tocou neles e disse: “Levantai-vos e não tenhais medo”. 8Os discípulos ergueram os olhos e não viram mais ninguém, a não ser somente Jesus. 9Quando
desciam da montanha, Jesus ordenou-lhes: “Não conteis a ninguém esta
visão até que o Filho do homem tenha ressuscitado dos mortos”. – Palavra
da salvação.
Reflexão
Circunstâncias (Mt 17, 1; Mc 9, 2; Lc 9, 28). — V. 1. Seis dias depois do colóquio com os discípulos em Cesaréia de Filipe, Jesus tomou consigo a Pedro, Tiago e João, seu irmão, os mesmos que admitira como testemunhas da ressurreição da filha de Jairo (cf. Mc 5, 37; Lc 8, 51) e havia de admitir na agonia do Horto (cf. Mt 26, 37). Quanto ao número de dias, estão de acordo Mateus e Marcos, mas Lucas escreve: Passados uns oito dias, o que alguns explicam dizendo que o evangelista numera o termo a quo e o termo ad quem,
enquanto os outros não. Talvez o mais adequado seja dizer, com
Maldonado, que Lucas não indica o tempo de maneira precisa, mas confusa,
e por isso diz “uns”, isto é, “cerca de”.
E os levou a um lugar à parte, sobre uma alta montanha, para
que Ele se entregasse à oração e eles contemplassem a sua glória. Muito
disputam os autores sobre o monte em que se deram estes acontecimentos.
— a) Uma antiga tradição, de que são testemunhas Orígenes (cf. In Ps. 88, 13: PL 12, 1547), S. Cirilo de Jerusalém (cf. Catech. 12, 16: PL 33, 744), S. Jerônimo (Epist. 46, 12 e 108, 13: PL 22, 491) etc., afirma que se trata do monte Tabor (hoje Djebel el-Tor, a 321m acima da planície circundante e 615m acima do Mar Mediterrâneo), opinião defendida ainda hoje por bons autores [1]. — b)
Há no entanto quem rejeite esta tradição como infundada e opine que o
monte da Transfiguração foi algum cômoro do Antilíbano ou, mais
provavelmente, o grande Hérmon (hoje Djebel el-Sheikh) [2]. As principais razões em que se baseia esta sentença são: 1.ª) segundo Políbio (Hist. V 70, 6), no tempo de Antíoco, o Grande, em 218 a.C., no sopé do monte Tabor (Itabyrium ou Atabyrium)
havia uma cidade, que Antíoco conquistara e fortificara. Embora não
seja certo que ela ainda existisse no tempo de Cristo, Flávio Josefo
(cf. Bell. jud. IV 1, 8) afirma que, no ano 67 d.C.,
havia ali uma planície amuralhada e habitantes que “não tinham outra
água além da chuva”. Isso porém não parece concordar com a narração
evangélica, que supõe um lugar deserto. 2.ª) Os evangelistas situam o
fato da Transfiguração imediatamente após o colóquio em Cesaréia de
Filipe, sem fazer menção alguma a um possível retorno à Galiléia; sinal,
portanto, de que tanto uma coisa com outra aconteceram na mesma região.
Resposta: Estas razões não têm peso suficiente para
obrigar-nos a rejeitar a tradição. Com efeito, à 1.ª pode-se muito bem
responder que Flávio Josefo, na obra citada e em sua Vita, não
chama ao Tabor nem “cidade” nem “aldeia”, nomes com que designa, nas
mesmas passagens, outros locais habitados, mas “monte”. Além disso, não
seria de estranhar que, em tempos de rebelião, os habitantes daquela
zona o tenham-se refugiado no topo do monte, nas ruínas de uma antiga
cidade. A melhor resposta à 2.ª é que Cristo e seus discípulos poderiam,
sem nenhum dificuldade, ter percorrido o caminho de volta num espaço de
seis dias; de fato, os próprios evangelistas parecem supor que Cristo
estava retornando à Galiléia, já que o descrevem, ao descer do monte,
rodeado de turbas e escribas (cf. Mt 17, 14; Mc 9, 14; Lc 9, 37) e, ao sair dali, já percorrendo a Galileia (cf. Mt 17, 21; Mc 9, 28).
2. Cristo se transfigura (cf. Mt 17, 2-9; Mc 9, 3-9; Lc 9, 29-36). — V. 2. E foi transfigurado (μετεμορφώθη) diante deles (Lucas diz: Enquanto orava, transformou-se o seu rosto); como tenha sido essa transmutação, declara-se logo em seguida: O seu rosto brilhou como o sol e as suas roupas ficaram brancas como neve (em grego, ὡς τὸ φῶς: como luz), isto é, apareceu envolto de claridade celeste. — É mais vívida a descrição de Marcos: Suas
vestes tornaram-se resplandecentes e de uma brancura tal, que nenhum
lavadeiro sobre a terra as pode fazer assim tão brancas.
V. 3. Nisto apareceram-lhes Moisés e Elias, conversando com Jesus. Lucas acrescenta: Que apareceram envoltos em glória, e falavam da morte dele (τὴν ἔξοδον αὐτοῦ), isto é, do êxodo ou partida dele deste mundo, pela morte, ressurreição e ascensão, que se havia de cumprir em Jerusalém,
isto é, falavam da morte de Cristo como fim e complemento da Lei e dos
Profetas. “Por Moisés é significada a Lei, por Elias são significados os
Profetas, pelo Senhor é significado o Evangelho: Cristo apareceu, pois,
entre Moisés e Elias, como se o Evangelho fôra confirmado pela Lei e os
Profetas” (S. Agostinho, In Joan., tract. XVII, 3). Lucas complementa a narração: Entretanto, Pedro e seus companheiros tinham-se deixado vencer pelo sono (donde talvez se possa inferir que tudo sucedera à noite); ao despertarem (διαγρηγορήσαντες, isto é, resistindo ainda ao sono, ou acordados do sono), viram a glória de Jesus e os dois personagens em sua companhia.
V. 4. Então Pedro, sem saber o que dizia (cf. Lc 9, 33), isto é, fora de si por causa de grande alegria, tomou a palavra e disse: Senhor, é bom, isto é, grato e prazeroso, ficarmos aqui. Se queres, vamos fazer (em grego, ποιήσω: vou fazer) aqui três tendas: uma para ti, outra para Moisés, e outra para Elias,
para nos deliciarmos sem cessar com este espetáculo, ou para que ponhas
neste monte, com Moisés e Elias, o trono de tua glória. De resto, com
efeito, não seria difícil construir as tendas com ramos de terebinto e
carvalho, abundantes no monte Tabor. — Nota S. Marcos que os Apóstolos estavam sobremaneira atemorizados,
isto é, com aquela reverência e aquele pavor de que são tomados os
homens ao verem coisas extraordinárias. Tal pavor, contudo, não excluía a
alegria e o gozo.
V. 5. Pedro ainda estava falando, quando uma nuvem luminosa, sinal e símbolo da presença divina (cf. Ex 16, 10; 19, 9.16 etc.), os cobriu, a saber: a Jesus, Moisés e Elias, tirando-os da vista dos Apóstolos, com sua sombra; e da nuvem uma voz dizia: Este é o meu Filho amado [3], no qual eu pus todo meu agrado. Escutai-o, isto é, obedecei-lhe como Legislador e crede nele como Mestre.
V. 6-8. Aterrorizados pela aparição da nuvem e pelo som da voz
celeste, caíram os Apóstolos com o rosto em terra, até que Jesus se
aproximasse e os tocasse com a mão, como também nós fazemos quando
desejamos acordar alguém sonolento. Tendo os discípulos voltado a si,
desapareceu a visão celeste e, olhando eles logo em derredor, já não viram ninguém, senão só a Jesus com eles. Os Apóstolos então ergueram os olhos e não viram mais ninguém, a não ser somente Jesus.
V. 9. Ao descerem do monte, Jesus lhes ordenou que não contassem a
ninguém, provavelmente nem aos demais Apóstolos, o que viram antes da
Ressurreição: até que o Filho do Homem tenha ressuscitado dos mortos.
A proibição de divulgar este fato tem o mesmo motivo que outras ordens
semelhantes de Cristo após a realização de um milagre, isto é, para não
acirrar ainda mais o ânimo de seus inimigos e evitar que o povo o
procure mais pelo desejo de ver maravilhas que pela doutrina da
salvação.
Marcos nota que os discípulos não entenderam o que queria dizer: ser ressuscitado dentre os mortos.
Reflexão. — 1) Por que Cristo quis transfigurar-se? a) Para corroborar em nós a fé na Ressurreição. b) Para erguer e confirmar nossa esperança. c) Para acender em nós o fogo da caridade divina. d) Para consolar com a luz da glória a sua Igreja, peregrina pelas trevas do mundo. e) Para mostrar-nos quem de fato Ele é: Deus encarnado. f) Para dar ao seu Corpo místico ocasião de festa e alegria espirituais, muito distintas dos excessos e bacanais do mundo. — 2) As quatro transfigurações do homem: a) a desfiguração, do estado de graça para o de pecado; b) a recriação, do estado de pecado para o de graça; c) a condenação, dos prazeres do mundo para os suplícios da geena; d) e a glorificação, das misérias desta vida para o descanso da pátria celeste [4].
Referências
- Na Igreja grega, a festa da Transfiguração (6 de ago.) é conhecida como τὸ θαβώριον.
- Assim pensavam Calmet, Patrizi, Fillion, Le Camus, Plummer etc.
- Cristo
é Filho de Deus não somente κατ’ εξοχήν, isto é, por excelência ou mais
do que os outros (pela plenitude infinita da graça habitual), mas
também por ser Filho único, unigênito, por consubstancialidade, como
sempre entendeu a Tradição e claramente se deduz da aposição de “amado” (dilectus, ὁ ἀγαπητός = caríssimo, termo com que a Septuaginta frequentemente traduz o hebraico יָחִיד, “único” (cf. Gn 22, 2.12.16; Jr 6, 26; Am 8, 10; Zc 12, 10; Pr 4, 3); é, portanto, Filho natural, eterno, único, coigual.
- Esta homilia é uma tradução levemente adaptada de H. Simón, Prælectiones Biblicæ. Novum Testamentum. 4.ª ed., iterum recognita a J. Prado. Marietti, 1930, vol. 1, pp. 403–405, n. 280–281.