sábado, 2 de dezembro de 2017

LITURGIA DIÁRIA - O QUE É ESSENCIAL PARA NOSSA VIDA NÃO MUDA

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1a Leitura - Daniel 7,15-27
Leitura da profecia de Daniel.
7 15 Quanto a mim, Daniel, senti minha alma desfalecer dentro de mim, e fiquei perturbado por essas visões de meu espírito.
16 Aproximando-me de um dos assistentes, perguntei-lhe sobre a realidade de tudo isso. Respondeu-me dando a explicação seguinte: 17 "Esses grandes animais, (disse), em número de quatro, são quatro reis que se levantarão da terra. 18 Mas os santos do Altíssimo receberão a realeza e a conservarão por toda a eternidade. 19 Quis então saber exatamente o que representava o quarto animal, diferente dos demais, pavoroso em extremo, cujos dentes eram de ferro e as garras de bronze, que devorava, depois triturava e calcava aos pés o que sobrava". 20 Quis ser informado sobre os dez chifres que tinha na cabeça, bem como a respeito desse outro chifre que havia surgido e diante do qual três chifres haviam caído, esse chifre que tinha olhos e uma boca que proferia palavras arrogantes, e parecia maior do que os outros. 21 Tinha visto esse chifre fazer guerra aos santos e levar-lhes vantagem, até o momento em que veio o ancião, 22 quando foi feita justiça aos santos do Altíssimo e quando lhes chegou a hora de obterem a realeza. 23 Ele me respondeu: "O quarto animal é um quarto reino terrestre, diferente de todos os demais, que devorará, calcará e aniquilará o mundo. 24 Os dez chifres indicam dez reis levantando-se nesse reino. Mas depois deles surgirá outro, diferente, que destronará três. 25 Proferirá insultos contra o Altíssimo, e formará o projeto de mudar os tempos e a lei; e os santos serão entregues ao seu poder durante um tempo, tempos e metade de um tempo. 26 Mas realizar-se-á o julgamento e lhe será arrancado seu domínio, para destruí-lo e suprimi-lo definitivamente. 27 A realeza, o império e a suserania de todos os reinos situados sob os céus serão devolvidos ao povo dos santos do Altíssimo, cujo reino é eterno e a quem todas as soberanias renderão seu tributo de obediência".
Palavra do Senhor.

Salmo - Dn 3
Louvai-o e exaltai-o pelos séculos sem fim!
 
Filhos dos homens, bendizei o Senhor!
Filhos de Israel, bendizei o Senhor!
 
Sacerdotes do Senhor, bendizei o Senhor!
Servos do Senhor, bendizei o Senhor!
 
Almas dos justos, bendizei o Senhor!

Evangelho - Lucas 21,34-36
Aleluia, aleluia, aleluia.
Vigiai e orai para ficardes de pé ante o filho do homem! (Lc 21,36).
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Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas.
Naquele tempo, 21 34 disse Jesus aos seus discípulos: "Velai sobre vós mesmos, para que os vossos corações não se tornem pesados com o excesso do comer, com a embriaguez e com as preocupações da vida; para que aquele dia não vos apanhe de improviso.
35 Como um laço cairá sobre aqueles que habitam a face de toda a terra. 36 Vigiai, pois, em todo o tempo e orai, a fim de que vos torneis dignos de escapar a todos estes males que hão de acontecer, e de vos apresentar de pé diante do Filho do Homem".
Palavra da Salvação.

Tomai cuidado!  Estas são palavras de Jesus para nós nos dias de hoje. Estamos sempre envolvidos com a vida! Trabalhos, preocupações como “beber”, “comer”, “comprar“, “trabalhar”, “malhar”, e outras coisas mais e nos esquecemos do que é mais importante para garantir a nossa vigilância: manter a intimidade com Aquele que nos criou e que sabe de todas as nossas necessidades. A gula, a embriaguez e as preocupações da vida representam aqui tudo o que nos desvia do caminho que nos leva ao encontro do Senhor que vem. Muitas vezes, estamos tão “ocupados” com os nossos sucessos ou fracassos, com as coisas que nos deleitam e dão prazer, que nos esquecemos de que isso tudo nos traz apenas uma felicidade transitória. O que é essencial para a nossa vida não muda, apenas evolui, prospera e concretiza-se. O essencial é o amor de Deus cuja semente plantada em nós, cresce e depois, torna-se uma grande árvore. Quando nos entregamos somente aos prazeres e aos afazeres do mundo o nosso coração fica insensível e o amor de Deus é sufocado. De repente, as coisas acontecem e perdemos o rumo, deixando com que a graça de Deus passe e, por isso, nos sentimos arruinados (as). Jesus veio nos ensinar: “ficai atentos e orai a todo o momento”! O comer, o beber, o trabalhar, o divertir-se, o comprar, o gozar a vida são até certo ponto coisas lícitas, porém, podem ser também armadilhas quando nos deixamos aprisionar por elas. A oração é o meio mais eficaz para vencê-las e para ficarmos de pé, livres diante de Deus. - Como tem sido o seu comer e o seu beber? Eles são armadilhas para você? - O que pode estar o (a) aprisionando hoje com a vida que você leva? - Você é uma pessoa livre de si mesmo (a)?
-  Para você o que é orar? – Na sua oração você só fala ou escuta também o Senhor e O deixa falar?
 
 
 
 
Helena Serpa


POR QUE SE REZAM MISSAS DE SÉTIMO DIA?

De onde veio a tradição de celebrar Missas “no sétimo dia” do falecimento de nossos entes queridos? Qual o significado do número 7 em nossas liturgias?

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A Igreja desde sempre reza pelos fiéis defuntos, pedindo a Deus que conceda o repouso eterno às suas almas. O motivo desse costume é a fé católica no Purgatório: como sem a santidade ninguém pode ver a Deus (cf. Hb 12, 14), nem todas as pessoas que foram salvas, ao partirem desta vida, entram imediatamente no Céu. Em favor delas, nossas orações são extremamente úteis, especialmente a Santa Missa, através da qual se atualiza, em nossos altares, o próprio sacrifício de Cristo no Calvário. Daí a tradição das Missas pro defunctis, “pelos defuntos”, também chamadas Missas de Réquiem, fazendo referência às palavras com que os sacerdotes normalmente iniciam estas cerimônias (o introitum da Missa, hoje mais conhecido por “antífona de entrada”): Requiem aeternam dona eis, Domine — “Dai-lhes, Senhor, o descanso eterno”. No direito litúrgico antigo havia o costume de se celebrar estas Missas no 3.º e no 7.º dia de falecimento das pessoas (além do 30.º dia e do aniversário da morte). Dessas tradições, difundiu-se bem em nosso país a prática da chamada “Missa de Sétimo Dia”, razão pela qual é muito oportuno considerar o significado de todos esses números.
Em primeiro lugar, o número 3 faz referência aos três dias em que Jesus permaneceu sepultado e ao fim dos quais ressuscitou dos mortos. Assim, ao rezarem a Santa Missa no terceiro dia do falecimento de seus entes queridos, os cristãos manifestavam a esperança de que, no fim dos tempos, também os corpos deles ressurgissem para a vida eterna.
O número 7, por sua vez, guarda relação com o sétimo dia da Criação, quando o Senhor “descansou” de toda a obra que fizera. Trata-se de uma alusão ao “shabat” divino, mais do que apropriada enquanto rezamos pelo “descanso” eterno daqueles que partiram deste mundo. Esse costume, que hoje nos é tão caro, é deveras bastante antigo, pois Santo Ambrósio de Milão o explica, ainda no século IV, durante uma celebração em favor de seu irmão de sangue, São Sátiro, que há pouco havia morrido: Nunc quoniam dies septimo ad sepulcrum redimus, ele diz, qui dies symbolum futuræ quietis est. “Agora voltamos ao sepulcro no sétimo dia, que é símbolo do repouso futuro.” [1]
No Brasil, essa prática recebeu ainda mais força devido ao clima e à extensão de nosso país. Por causa de nosso clima tropical, precisamos sepultar nossos mortos o quanto antes e, dado não ser possível todos os amigos e familiares se reunirem imediatamente após o óbito, o prazo de 7 dias é relativamente suficiente para todos receberem a notícia e se reunirem pelo menos para a Santa Missa em favor de seus entes queridos.
Mantenhamos esta tradição, pois, atentando-nos principalmente a seu significado: não se trata de uma semana de falecimento simplesmente, mas do dia do descanso, símbolo da quietude eterna que todos esperamos viver, um dia, junto do Pai.




Referências

  1. De Excessu Fratris sui Santyri, l. II, n. 2 (PL 16, 1135).
(via Padre Paulo Ricardo)

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

LITURGIA DIÁRIA - A PALAVRA DE DEUS É INFALÍVEL

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1a Leitura - Daniel 7,2-14
Leitura da profecia de Daniel.
Eu, Daniel, 7 2 via, no transcurso de minha visão noturna, os quatro ventos do céu precipitarem-se sobre o Grande Mar.
3 Surgiram das águas quatro grandes animais, diferentes uns dos outros. 4 O primeiro parecia-se com um leão, mas tinha asas de águia. Enquanto o olhava, suas asas foram-lhe arrancadas, foi levantado da terra e erguido sobre seus pés como um homem, e um coração humano lhe foi dado. 5 Apareceu em seguida outro animal semelhante a um urso; erguia-se sobre um lado e tinha à boca, entre seus dentes, três costelas. Diziam-lhe: "Vamos! Devora bastante carne!" 6 Depois disso, vi um terceiro animal, idêntico a uma pantera, que tinha nas costas quatro asas de pássaro; tinha ele também quatro cabeças. O império lhe foi atribuído. 7 Finalmente, como eu contemplasse essas visões noturnas, vi um quarto animal, medonho, pavoroso e de uma força excepcional. Possuía enormes dentes de ferro; devorava, depois triturava e pisava aos pés o que sobrava. Ao contrário dos animais precedentes, ostentava dez chifres. 8 Como estivesse ocupado em observar esses chifres, eis que surgiu, entre eles outro chifre menor, e três dos primeiros foram arrancados para dar-lhe lugar. Este chifre tinha olhos idênticos aos olhos humanos e uma boca que proferia palavras arrogantes. 9 Continuei a olhar, até o momento em que foram colocados os tronos e um ancião chegou e se sentou. Brancas como a neve eram suas vestes, e tal como a pura lã era sua cabeleira; seu trono era feito de chamas, com rodas de fogo ardente. 10 Saído de diante dele, corria um rio de fogo. Milhares e milhares o serviam, dezenas de milhares o assistiam! O tribunal deu audiência e os livros foram abertos. 11 Olhei então, devido à balbúrdia causada pelos discursos arrogantes do chifre, olhei até o momento em que o animal foi morto, seu corpo subjugado e a fera jogada ao fogo. 12 Quanto aos outros animais, o domínio lhes foi igualmente retirado, mas a duração de sua vida foi fixada até um tempo e uma data. 13 Olhando sempre a visão noturna, vi um ser, semelhante ao filho do homem, vir sobre as nuvens do céu: dirigiu-se para o lado do ancião, diante de quem foi conduzido. 14 A ele foram dados império, glória e realeza, e todos os povos, todas as nações e os povos de todas as línguas serviram-no. Seu domínio será eterno; nunca cessará e o seu reino jamais será destruído.
Palavra do Senhor.

Salmo - Dn 3
Louvai-o e exaltai-o pelos séculos sem fim!
Montes e colinas, bendizei o Senhor!
Plantas da terra, bendizei o Senhor!
Mares e rios, bendizei o Senhor!

Fontes e nascentes, bendizei o Senhor!
Baleias e peixes, bendizei o Senhor!

Pássaros do céu, bendizei o Senhor!
Feras e rebanhos, bendizei o Senhor!


Evangelho - Lucas 21, 29-33
Aleluia, aleluia, aleluia.
Levantai vossa cabeça e olhai, pois a vossa redenção se aproxima! (Lc 21,28).
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Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas.
21 29 Jesus acrescentou ainda esta comparação: “Olhai para a figueira e para as demais árvores.
30 Quando elas lançam os brotos, vós julgais que está perto o verão. 31 Assim também, quando virdes que vão sucedendo estas coisas, sabereis que está perto o Reino de Deus. 32 Em verdade vos declaro: não passará esta geração sem que tudo isto se cumpra. 33 Passarão o céu e a terra, mas as minhas palavras não passarão”.
Palavra da Salvação.

“O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão de passar”. 
A palavra de Deus é infalível. Deus promete, Deus cumpre. Jesus nos fez muitas promessas. Depende de nós fazer por merecê-las.
Nós somos o contrário. Quantas coisas nós prometemos aos nossos filhos, aos nossos pais, a pessoa amada, e até juramos por Deus?
Quantas promessas fazemos e muitas vezes não cumprimos, muitas vezes traímos a confiança das pessoas que amamos, daqueles que depositam toda confiança em nós!
No dia do nosso casamento, nós prometemos toda fidelidade na saúde e na doença. Tempos depois, muita coisa pode acontecer: a tentação de outra pessoa bonita que surge de repente na nossa frente, doença, ciúmes, desemprego, dificuldades financeiras, e então nos esquecemos das juras feitas naquele dia no altar!
No dia da sua ordenação, ele estava cheio de propósito, cheio de lealdade, de muita coragem para se dedicar de corpo e alma ao serviço do Reino de Deus.
Mas, infelizmente, ELE RELAXOU NA ORAÇÃO. Nas orações diárias. E tentações lhe apareceram! Muitas tentações! 
Aí, ele não resistiu. Caiu! Caiu, mas viu logo a mão de Deus estendida para levantá-lo do chão, da lama do pecado. O Deus de amor o resgatou daquela dificuldade, daquela experiência negativa, e o levou para outra cidade, para outra realidade, na qual com muita oração e com a ajuda especial a Igreja, ele foi salvo das exigências da carne, das tentações, da solidão, e do pecado que poderia tê-lo afastado para sempre da sua missão!
Que maravilha! Confiemos em Deus, que nos perdoa quantas vezes necessitamos. Não desanimemos, nunca desistamos da nossa missão, mesmo que por vezes não resistimos às tentações e caímos em pecado por vezes graves. Seguremos na mão estendida de Deus que se apresenta diante de nós, para nos livrar de todo o mal. Do pior mal que é o pecado.
Procuremos imitar de verdade a nosso Senhor Jesus Cristo.  Ele disse que suas palavras não passarão. Elas serão e são pra valer!
Então procuremos fazer o mesmo. Vamos ser pessoas de palavra! Pessoas de verdade, pessoas que dizem e fazem! Pessoas que prometem e cumprem!
É claro que passamos por dificuldades que muitas vezes podem dificultar o cumprimento das nossas promessas, das nossas palavras dadas.  Porém, temos o grande privilégio de nos recorrer a Jesus por meio da oração. Melhor dizendo, pedir a Deus em nome de Jesus. E assim, alcançaremos forças para nos levantar, para vencer os obstáculos que nos dificulta de cumprir com as nossas obrigações, com as nossa promessas.
Oração! Muita oração, e assim venceremos a tudo o que nos arrasta para longe dos nossos compromissos com a verdade, com a justiça, com a nossa missão na Terra, dos nossos compromissos com o irmão  e com Deus!
Por meio da oração, nós conseguimos ser fiéis, conseguimos ter o aumento da nossa fé, da nossa esperança e da nossa caridade. Por meio da oração, nos aproximemos mais de Deus. É a oração que nos dá o alimento para resistirmos as tentações, para compreender os defeitos dos nossos amigos. 
A ORAÇÃ É O ALIMENTO DA NOSSA FÉ!
O mundo precisa de oração. Reze por você e por  este mundo sem Deus! reze pela paz, reze pela conversão daqueles que estão massacrando os fracos por meio de tantas injustiças. Reze pela conversão daqueles que não rezam!



 
 
José Salviano.


FORA DA HUMILDADE NÃO HÁ SALVAÇÃO

 Nossa época despreza a humildade como coisa de fracos e ignorantes. Mas é justamente esta a virtude de que o homem precisa para conhecer o seu devido valor.
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Em um mundo dominado pela lógica do mérito e da competição, é inevitável que as pessoas acabem desprezando a virtude da humildade como coisa de fracos e ignorantes. O apego à honra, aos títulos e às glórias temporais impede a razão de compreender por que alguém deveria admitir sua própria miséria perante outro, servindo-o mesmo nos trabalhos, digamos, menos dignos, ou aceitar pacientemente os desaforos e injustiças que as pessoas lhe possam causar, como ensina a doutrina cristã. O mundo da competição atiça os ânimos e entrega a natureza humana aos apetites sensíveis, aos desejos mais pueris de domínio e prazer.
Desde o Renascimento, a humanidade passou a valorizar-se não mais segundo o “homem interior”, para usar a linguagem do Apóstolo, mas segundo o “homem exterior”, isto é, segundo a carne e as realizações do homem prático: a execução de tarefas difíceis, a conquista de troféus, o desenvolvimento das potencialidades do corpo e da ciência, os aplausos, a estima e a boa reputação etc. Tudo isso se tornou o objeto mais desejado pelo homem moderno, de modo que a busca pelo Céu e pela santidade se perdeu no nevoeiro das paixões.
O filósofo Jacques Maritain explica que, a partir da desintegração da cristandade, o homem teve de enfrentar o desespero da própria indigência [1]. Para aquele que era a imagem e semelhança do Criador restou apenas a certeza angustiante do nada. Essa condição gerou na sociedade uma sede de vida plena, não no sentido escatológico, mas no sentido carnal. O homem passou a reivindicar a própria reabilitação, diz Maritain, e o direito de ser amado, tornando-se assim o centro do universo [2].
Mas esse amor por si mesmo desviou-se da alma para a matéria, daquilo que o ser humano tem de mais importante para aquilo que é secundário. E essa foi a infelicidade do mundo pós-cristão, porque, como ensina toda a tradição cristã, o amor desordenado por si mesmo, ou seja, o amor pelas coisas inferiores à alma, é o que está na origem de todos os vícios e desordens.
Notem que foi nesse mesmo ambiente cultural que surgiram fenômenos como o capitalismo e o comunismo doutrinas viciadas pela avareza e pela inveja. O primeiro, na sua versão mais liberal possível, prega o culto à economia, ao laissez faire, ao acúmulo dos bens materiais que tornam a vida soberba. O segundo, por outro lado, inveja os bens alheios e não mede esforços para “coletivizá-los”, submetendo tudo e todos ao poder tirano do Estado. Ambos são resultados de uma civilização que rejeitou a humildade, que desprezou os conselhos evangélicos para desfrutar das glórias deste mundo, considerando o bem-estar social como a única coisa capaz de tornar o homem feliz e plenamente realizado. E, como frutos dessa escolha, essa mesma civilização colheu as guerras, os campos de extermínio e as ditaduras dos dois últimos séculos.
A exclusão de Deus do horizonte humano provocou uma desvalorização do próprio homem, porque, tomando como principal de si justamente a parte que é comum às demais criaturas, este se esqueceu daquilo que é mais digno em seu ser: a alma.
Adão e Eva, por Ticiano.
Na verdade, o mundo atual padece da mesma tentação que ocupou o coração de Adão e Eva no paraíso. A sedução do fruto proibido pela falsa glória que ele traria causou a primeira rebeldia contra Deus, a primeira acusação leviana contra o próximo, o primeiro passo da humanidade para as guerras fratricidas: os pais pecaram por soberba, o filho por inveja. Como não enxergar essa mesma história se repetindo dia após dia no mundo de hoje? A beleza do fruto proibido segue corrompendo a natureza humana.
Para recuperar a saúde espiritual de nossa civilização, o homem precisa voltar-se novamente para o seu interior, a fim de conhecer-se a si mesmo e admitir que as glórias pueris deste mundo não são o que o tornam digno de ser amado, mas sim o fato de ele ser a única criatura querida por Deus por si mesma. Como ensina o Catecismo, “o indivíduo humano possui a dignidade de pessoa: ele não é somente alguma coisa, mas alguém” (n. 357). Antes mesmo de ser concebido, antes mesmo que tivesse a individualidade da matéria, Deus o pensou, desejando-o pessoalmente, o que demonstra que o amor é uma iniciativa primeiramente divina, não uma consequência das conquistas mundanas.
Por sua parte sensível e corpórea, os homens não passam de trapos velhos. Daí a necessidade da virtude da humildade para que o homem reconheça a sua inépcia e dependência de Deus, conforme testemunha Santa Catarina de Sena em uma carta ao Papa Gregório XI:
A alma que se conhece a si mesma se humilha. Nada vê, com efeito, de que se possa orgulhar. Ela alimenta, dentro de si, o doce fruto de uma ardente caridade, conhecendo nela a bondade sem limites de Deus. Ó doce e verdadeiro conhecimento que traz consigo o gládio do ódio, e inspirado por esse ódio estende a mão do santo desejo para agarrar e arrancar o verme do amor-próprio.
A estátua do sonho do rei Nabucodonosor.
A humildade, ou seja, a atitude de recolher-se no interior e rebaixar-se diante da verdade é a única coisa que pode remediar a soberba deste século. A encarnação de Jesus deu-se justamente como remédio eficaz para a doença espiritual da vanglória, para reconduzir o indivíduo homem para a pessoa humana. Despojando-se de toda a sua glória, Cristo rebaixou-se à condição carnal para dar o exemplo aos demais homens da virtude que deve fundamentar a vida de cada um de nós: a humildade. Se não é ela a base sólida de nossos edifícios, é certo que eles desmoronarão — assim como desmoronou a estátua do sonho de Nabucodonosor, cujo busto era de ouro, prata e bronze, mas os pés eram de barro.
A humildade, embora não seja a maior de todas as virtudes, deve estar em primeiro lugar como fundamento da vida espiritual, diz Santo Afonso de Ligório, a fim de que a soberba não destrua aquilo que foi construído a duras penas [3]. A humildade é a guardiã de todas as virtudes. Por isso Jesus chamou os humildes de “bem-aventurados”. No “fracasso” da Cruz, Jesus mostrou que não são os músculos do homem que vencem a morte e atraem a graça de Deus, mas a reta e humilde intenção do coração, que é capaz de fazer alguém dizer aos seus algozes: “Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem” (Lc 23, 34).
Não há nada de bom no ser humano que não tenha sido herdado de Deus, motivo pelo qual os soberbos, além de atraírem a ira divina, fazem papel de ridículo quando desejam a atenção dos outros por conta de suas conquistas materiais. A razão de tantas rixas e inquietações na sociedade contemporânea está no orgulho que os homens nutrem por si mesmos, de modo que nunca conseguirão ser tratados segundo o conceito errôneo que fazem de sua própria pessoa. Os humildes, por outro lado, vivem em paz porque sabem que por eles mesmos não merecem senão o desprezo e, se recebem alguma honra, sempre a consideram maior do que mereceriam.
A humildade é necessária para manter a sanidade e a unidade de uma civilização. Mais ainda: a humildade é necessária para que o homem se ame segundo aquilo que possui de mais nobre, que é a sua alma, moldada à imagem e semelhança de Deus. Do contrário, os homens acabam vendendo a própria alma por algumas moedas de prata, como fizeram muitos na história. Fora da humildade não há salvação.




Equipe Christo Nihil Praeponere 
Referências
  1. Jacques Maritain. Humanismo Integral: uma visão nova da ordem cristã. (Trad. Afrânio Coutinho). São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1945, p. 24-26.
  2. Ibidem.
  3. Santo Afonso de Ligório. Da humildade. XI, 1-2.

SANTO ANDRÉ, IRMÃO DE SÃO PEDRO, PONTE PARA CRISTO E PARA A UNIDADE DOS CRISTÃOS

O que as Igrejas católica e ortodoxa têm a ver com os irmãos São Pedro e Santo André, cabeças de Roma e de Constantinopla.

O Apóstolo Santo André, considerado pela Igreja ortodoxa como seu patrono e fundador, era irmão de São Pedro, o primeiro Papa.
Nascido em Betsaida, foi discípulo primeiramente de São João Batista. Quando começou a seguir Jesus, influenciou seu irmão Pedro, a quem testemunhou: “Encontramos o Messias”.
Aliás, Santo André aproximou várias outras pessoas de Jesus, o que lhe valeu, tradicionalmente, o título de “ponte do Salvador”. Um exemplo são os gregos a quem ele, junto com Filipe, apresentou o Cristo. Os Evangelhos também citam Santo André na passagem da multiplicação dos pães e dos peixes, quando ele menciona para Jesus que havia somente cinco pães e dois peixes.
Boa parte do que sabemos a seu respeito veio da tradição, segundo a qual, depois do Pentecostes, ele pregou em diversas regiões e acabou sua vida terrena crucificado na Grécia em uma cruz em forma de “X” – é precisamente por isso que é chamada de “Cruz de Santo André” aquela nesse formato, acompanhada tradicionalmente pelas seguintes palavras do Apóstolo:
“Salve Santa Cruz, tão desejada, tão amada! Tira-me do meio dos homens e entrega-me ao meu Mestre e Senhor, para que eu, de ti, receba O que por ti me salvou!”
Atribui-se a Santo André o estabelecimento da Igreja em Bizâncio, o que dará origem ao Patriarcado de Constantinopla, do qual, portanto, ele é considerado o fundador.
A propósito: foi no dia de Santo André (30 de novembro) de 2014 que o Papa Francisco, sucessor de São Pedro, e o Patriarca Bartolomeu, sucessor de Santo André, renovaram os laços de irmandade entre a Igreja católica e a Igreja ortodoxa num encontro histórico realizado na Turquia. É lá que se localiza a cidade de Constantinopla, hoje chamada de Istambul.
Na homilia daquela ocasião, o Papa Francisco declarou que as duas Igrejas caminham rumo à plena comunhão com “sinais eloquentes de unidade real, embora ainda parcial“, e afirmou:
“Ao longo dessa estrada, somos apoiados pela intercessão do Apóstolo André e do seu irmão Pedro, considerados pela tradição os fundadores das Igrejas de Constantinopla e de Roma. Imploremos de Deus o grande dom da unidade plena e a capacidade de acolhê-lo em nossa vida. E não nos esqueçamos jamais de rezar uns pelos outros”.




Redação da Aleteia