sábado, 29 de março de 2014

PARA REFLETIR.

“Quando nos dispomos simplesmente a obedecer a Deus, um pouco de esforço poderá fazer uma grande diferença.”
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Contemplative Prayer, de Thomas Merton

A IGREJA QUE NASCEU ANTES DA BÍBLIA.

Durante 1500 anos a Igreja Católica conservou as Sagradas Escrituras e a transmitiu a seu povo através das Missas.

“Recebereis uma força, a força do Espírito Santo que virá sobre vós; e sereis então minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria, até as extremidades da terra” (At 1,8).

Diante desta passagem podemos nos perguntar: “– Jesus deixou algo escrito?” Ele disse: “sobre a Bíblia edificareis a minha Igreja”? Não! Cristo fundou a Igreja sobre a vida e o testemunho dos apóstolos. Por esse motivo, não podemos afirmar que somos uma “religião do livro” – apesar de alguns estudiosos das religiões nos considerarem assim. Somos uma “religião do testemunho”.

Os livros contidos na Bíblia servem para nos relatar fatos e verdades de fé. “Diante daquilo que acabei de ler, como deve ser a minha atitude para com Deus e os meus irmãos?”. É para que façamos este tipo de confronto conosco mesmo que as Sagradas Escrituras existem. Servem para mudar a nossa vida (ação transformadora). Mas nem sempre estes textos sagrados existiram. Vejamos como se formou este conjunto de textos sagrados, para que compreendamos a essência da Palavra de Deus.

Comecemos pelo período em que alguns livros foram escritos. É importante saber que o escrito mais antigo do Novo Testamento é 1Tessalonicenses – redigido por volta do ano 51 d.C., quando Paulo se encontrava na Acaia (cf. At 18,12). É importante começarmos por este exemplo apenas para demonstrar que a Bíblia não segue uma ordem cronológica; o primeiro livro do Novo Testamento não foi o Evangelho de Mateus. Além disso, Paulo morreu e provavelmente não viu sequer um Evangelho escrito. Os fatos sobre a vida de Jesus que este incansável apóstolo tanto pregava foram-lhe relatados de maneira oral. 

A Igreja, portanto, não nasceu da Bíblia, mas o contrário. Ela não precisou esperar vinte anos após a morte de Jesus para que começasse a nascer (com a carta de São Paulo citada acima). Ela já estava aí. E, além disso, havia entre os cristãos um código de conduta, uma certa tradição, que consistia em dizer com fidelidade quem era Jesus Cristo.

O último livro do Novo Testamento a ser escrito foi o Apocalipse, escrito por São João por volta do ano 100 d.C., quando este se encontrava exilado na ilha de Patmos. Nesta altura da História ainda não havia Bíblia, apesar de todos os seus livros já estarem escritos. Isto porque, quando São Paulo, São João, São Judas Tadeu escreveram suas cartas eles não sabiam que estavam escrevendo partes do Novo Testamento. Os cristãos ainda precisavam escolher quais seriam os escritos que iriam compor as Escrituras Sagradas.

A decisão do Cânone Bíblico, isto é, dos livros que iriam compor as Sagradas Escrituras demorou cerca de 200 anos. Um tempo relativamente longo. Mas a Igreja não resolveu cruzar os braços e esperar esse tempo todo para então afirmar: “Pronto! Agora somos Igreja”. Ela já era antes das Escrituras existirem.

Por volta dos anos 70 d.C. surgem os evangelhos sinóticos e, aos 100 d.C., o evangelho de São João. Não somos nem capazes, muitas vezes, de lembrarmos o que comemos ontem no almoço, como é então que 70, 100 anos depois as pessoas ainda lembravam de detalhes da fala e da vida de Jesus Cristo? Somente por obra do Espírito Santo. O que nos faz crer que a Bíblia foi inspirada por Deus.

Além de toda essa dificuldade ainda havia hereges que queriam reduzir o Novo Testamento a pouquíssimos livros, já outros queriam fazer um apanhado com mais de 40 livros – como era o caso dos gnósticos. Coube, então, aos bispos da Santa Igreja o papel de discernir quais escritos falavam de Cristo com autenticidade e quais eram apócrifos. Portanto, o Espírito deveria inspirar quem escrevia e quem lia. Cada novo escrito que chegava ao conhecimento dos bispos era como uma maçaneta nova, caso o prelado tivesse a chave, a autenticidade da porta seria provada. 

Passaram-se muitos anos e já havia Bíblia em muitos lugares. Era por volta do ano de 1500. Neste período nasceu a Reforma Protestante. Para Martinho Lutero, foi fácil afirmar que sola scriptura (somente a Escritura) é fundamento para a verdade de fé, quando vivia na época da imprensa e podia fazer tiragem de cópias e distribuir Bíblia a quem quisesse.

Durante 1500 anos a Igreja Católica conservou as Sagradas Escrituras e a transmitiu a seu povo através das Missas, isto porque nem todos tinham condições de ter a Bíblia em casa. Esta era escrita em pergaminho (feito com pele de carneiro), com uma tinta especial e através de um monge que escrevia à mão a Bíblia inteirinha. Agora, imagine o preço de um produto como esse! Era caríssimo! Por isso, só era reservada a mosteiros, catedrais e bibliotecas ricas.

Mas a Santa Igreja, em sua grande sabedoria, jamais deixou de transmitir Jesus Cristo, a Palavra de Deus, o Verbo Encarnado às pessoas. Mesmo quando a Bíblia ainda nem estava escrita. Sempre foi possível falar de Jesus. Daquele homem que tocou a vida de muitas pessoas ao longo de dois mil anos.

A Palavra de Deus não é a Bíblia, é Jesus, vivo e ressuscitado. Não é um livro onde aprendemos uma doutrina. Nem mesmo um livrinho de histórias. Quando lemos sobre Jesus na Celebração Eucarística trazemos Cristo à assembleia e não apenas um saber milenar. Da mesma maneira que ele vem em forma de pão a nós, também vem em forma de palavra.

 

 



(Reparatoris) 

LITURGIA DIÁRIA - O FARISEU E O PUBLICANO

Primeira Leitura (Os 6,1-6)
Leitura da Profecia de Oseias.
1“Vinde, voltemos para o Senhor, ele nos feriu e há de tratar-nos, ele nos machucou e há de curar-nos. 2Em dois dias, nos dará vida, e, ao terceiro dia, há de restaurar-nos, e viveremos em sua presença. 3É preciso saber segui-lo para reconhecer o Senhor. Certa como a aurora é a sua vinda, ele virá até nós como as primeiras chuvas, como as chuvas tardias que regam o solo”.
4Como vou tratar-te, Efraim? Como vou tratar-te, Judá? O vosso amor é como nuvem pela manhã, como orvalho que cedo se desfaz. 5Eu os desbastei por meio dos profetas, arrasei-os com as palavras de minha boca, mas, como luz, expandem-se meus juízos; 6quero amor, e não sacrifícios, conhecimento de Deus, mais do que holocaustos.
Responsório (Sl 50)
— Eu quis misericórdia e não o sacrifício!
— Eu quis misericórdia e não o sacrifício!
— Tende piedade, ó meu Deus, misericórdia! Na imensidão de vosso amor, purificai-me! Lavai-me todo inteiro do pecado, e apagai completamente a minha culpa!
— Pois não são de vosso agrado os sacrifícios, e, se oferto um holo­causto, o rejeitais. Meu sacrifício é minha alma penitente, não despre­zeis um coração arrependido!
— Sede benigno com Sião, por vossa graça, reconstruí Jerusalém e os seus muros! E aceitareis o verdadeiro sacrifício, os holo­caustos e oblações em vosso altar!
 
Evangelho (Lc 18,9-14)

Naquele tempo, 9Jesus contou esta parábola para alguns que confiavam na sua própria justiça e desprezavam os outros: 10“Dois homens subiram ao Templo para rezar: um era fariseu, o outro cobrador de impostos. 11O fariseu, de pé, rezava assim em seu íntimo: ‘Ó Deus, eu te agradeço porque não sou como os outros homens, ladrões, desonestos, adúlteros, nem como este cobrador de impostos. 12Eu jejuo duas vezes por semana, e dou o dízimo de toda a minha renda’.
13O cobrador de impostos, porém, ficou à distância, e nem se atrevia a levantar os olhos para o céu; mas batia no peito, dizendo: ‘Meu Deus, tem piedade de mim que sou pecador!’ 14Eu vos digo: este último voltou para casa justificado, o outro não. Pois quem se eleva será humilhado, e quem se humilha será elevado”.

 Oséias 6, 1-6 – “Voltemos para o Senhor!”

O maior desejo do nosso coração humano é viver na presença de Deus e a Palavra de hoje nos assegura que a Sua vinda é certa como a aurora que surge todos os dias nos trazendo claridade para o conhecimento das coisas que nos cercam e o calor que nos envolve e abriga. Assim, o profeta Oséias nos convida a voltarmos com confiança para o Senhor, na certeza de que Ele há de nos perdoar e curar. Voltar para o Senhor com o coração arrependido é acolher a Sua misericórdia que vem ao encontro da nossa miséria e nos dá chance de recomeçar a viver o nosso desígnio de felicidade. Não é “apenas cumprindo os rituais” que seremos salvos e curados, é preciso que saibamos seguir e aceitar o Senhor a fim de reconhecê-Lo. O Senhor vem a nós também como as chuvas que chegam primeiro, ou mesmo tardiamente, mas no tempo certo regam a terra do nosso coração e nos preparam para acolher a semente do amor do Pai. Deus está onde vive o amor, por isso, o Senhor quer se fazer conhecer e se revelar a nós nos animando e dando esperança como a chegada de um novo dia. O nosso amor é frágil e superficial, porém Deus nos afirma que é diferente de nós, por isso, não guarda ressentimentos contra nós e os Seus juízos são como a luz que nos esclarece as dúvidas e nos revela o que há escondido dentro de nós. Portanto, só o Senhor poderá nos julgar e nem nós mesmos (as) sabemos as razões e as motivações para o mal ou o bem que praticamos. Deste modo, é necessário que conservemos o coração seguro: Deus quer se deixar conhecer por nós, desde já e pede somente o nosso amor e a nossa confiança e não, sacrifícios. Confiemos Nele! – Você tem percepção da presença de Deus no seu coração? – Você percebe o Seu chamado a Sua proteção? - Você tem consciência de que a sua alma busca a Deus? – O que satisfaz a sua alma?

Salmo 50 – “Eu quis misericórdia e não o sacrifício!”

O Senhor não se cansa de nos dizer isso e nós continuamos a querer oferecer a Ele sacrifícios, coisas difíceis e que nunca conseguimos praticar. E o mais simples nós não alcançamos, mas podemos aprender com o salmista: “Meu sacrifício é minha alma penitente, não desprezeis um coração arrependido”. O coração arrependido é sinal de humildade e de sacrifício.

Evangelho – Lucas 18, 9-14 – “o fariseu e o publicano”

O fariseu e o publicano subiram ao templo para rezar e expunham diante de Deus os seus corações. Aos olhos de Deus o ato de subir ao templo não é o que tem mais valia, mas sim, o sentimento que trazemos em nós quando a Ele dirigimos as nossas preces e a nossa adoração. O Senhor sonda os nossos corações e sabe como somos! Assim sendo, o reconhecimento da nossa limitação e da nossa incapacidade diante do pecado e o acolhimento da misericórdia revelada em Jesus Cristo é o que nos justifica diante do Pai. A oração da auto louvação, isto é, da admiração a nós mesmos (as) pelas coisas boas que fazemos ou das coisas ruins que não praticamos é um discurso que não agrada a Deus. Ele conhece as nossas misérias, por isso, a oração que proferirmos no silêncio será ouvida e agradável ou não aos Seus ouvidos, na medida da nossa humildade. A ideia de humildade é muito deturpada pela mentalidade do mundo. Alguns acham que ser humilde é se rebaixar, deixar-se ser pisado, ficar calado (a) diante das injustiças e deixar-se explorar. Humilde, no entanto é o homem ou a mulher que reconhecem a sua limitação e a medida da sua capacidade. Por isso, Deus quer de nós uma oração que parta de um coração contrito, arrependido, humilhado, penitente e dependente do amor de Jesus para ser salvo, porque é Ele quem nos justifica perante o Pai! O poder pertence a Jesus Cristo, a ação, é Dele e nós, somos apenas instrumentos em Suas mãos misericordiosas. Se nos “acharmos justos (as)” por nossa conta própria, não precisaremos de defensor, receberemos a nossa própria justiça. Precisamos examinar se nós também não estamos fazendo como aquele fariseu cheio de razão que olha para os publicanos ao nosso lado e os julgamos piores do que nós! – Como é a sua oração diante de Deus? - Você costuma se auto elogiar? - Você reconhece a medida da sua capacidade e da sua incapacidade? -Você tem voltado para a casa justificado (a), ou não? – Você tem feito o exame da sua consciência diante do Senhor? – Você crer que Jesus vê o seu coração? – O que Ele acha de você?









Helena Serpa,

sexta-feira, 28 de março de 2014

ESTOU SÓ.

“Como posso evitar fazer amigos se preciso tanto deles e, na verdade, quase nunca sou meu próprio amigo? Sou tão rico que posso comprar toda sua solidão de uma só vez. Toda sua privacidade é minha. Eu os apoio sem ser apoiado. Estou só.”

 






Raids on the Unspeakable, de Thomas Merton (New Directions Press, New York), 1966, p. 117

DEUS E O BARBEIRO.

Uma pequena história com uma grande lição.

Certo dia, um homem foi ao barbeiro para mudar seu corte de cabelo. Como é costume nestes casos, eles começaram a bater papo. Conversa vai, conversa vem, e acabaram falando sobre Deus. O barbeiro disse:

- Eu não acredito que Deus existe, como você está falando.

E o cliente respondeu:

- Mas por que você diz isso?

- Oras, é muito fácil – explicou o barbeiro. Basta sair à rua para perceber que Deus não existe. Diga-me: se Deus realmente existisse, você acha que haveria tantas pessoas sofrendo, doentes, tantas crianças abandonadas? Se Deus existisse, não haveria tanto sofrimento e dor na humanidade. Eu não consigo acreditar que exista um Deus que permite tudo isso.

O cliente ficou pensando por um momento, mas não quis responder, para evitar uma discussão.
O barbeiro acabou seu trabalho e o cliente foi embora. Ao sair do salão, viu na rua um homem de cabelo muito comprido e descuidado, uma barba grossa e longa, como se nunca a tivesse aparado. Este homem parecia estar há anos e anos sem ir ao barbeiro, pois tinha uma aparência muito desalinhada.

O cliente então voltou ao salão e disse ao barbeiro:

- Sabe de uma coisa? Acabei de descobrir que os barbeiros não existem.
- Como assim? – disse o barbeiro. Olhe para mim, eu estou aqui, sou barbeiro!
- Não – respondeu o cliente. Os barbeiros não existem porque, se existissem, não haveria pessoas com o cabelo e a barba tão longos e descuidados, como aquele homem que caminha ali na rua.

- Ah, mas é claro que os barbeiros existem, eu estou aqui. O problema é que essas pessoas não vêm ao meu salão.

Então, o cliente concluiu:

- Pois é, esta é a questão sobre a qual conversamos: Deus existe, sim! O que acontece é que as pessoas não vão até Ele, e é por isso que há tanta dor e miséria no mundo.

* * *

Queridos amigos do povo de Deus: vivemos em um mundo às vezes muito incrédulo. As pessoas já não querem saber nada de Deus. Dizem que Ele não existe porque, segundo elas, se Ele existisse, não permitiria tanta dor e sofrimento no mundo.

Quantas vezes poderíamos dizer que o sol não existe porque só vemos nuvens e não sentimos o seu calor?
Mas Deus está aqui, junto a nós. Ele caminha conosco, se alegra conosco e sofre conosco. Deus nos deu recursos suficientes para que todos nós possamos viver bem nesta terra, mas a nossa falta de solidariedade impede que isso aconteça.

Deus não apenas conhece nossos sofrimentos e se compadece: Ele sabe muito bem o que é a dor do desprezo, da perseguição, da condenação injusta e da terrível morte na cruz.
Aproximemo-nos de Jesus, o Filho de Deus, e coloquemos nossas dores, sofrimentos e preocupações em suas mãos. Sentiremos o alívio e a força para aproximar-nos com simplicidade daqueles que mais sofrem, para compartilhar com eles o que somos e temos.

 

 



(Texto de Dom Omella, publicado pela agência SIC)