sexta-feira, 21 de novembro de 2014

O CÉU SÃO OS OUTROS.

Porque somos chamados a realizar a vontade de Deus nas mínimas circunstâncias do dia a dia, temos de considerá-Lo o nosso melhor amigo.

Jean-Paul Sartre abriu as portas da humanidade para o terceiro milênio, apresentando, em uma sentença, um modelo de vida intrinsecamente contrário ao cristianismo: “O inferno são os outros”. Essa expressão cheia de significado resume a lógica do individualismo. Na era da modernidade, em que a técnica se torna cada vez mais avançada, ao ponto de muitos a confundirem com o próprio infinito, o homem contemporâneo é constantemente pressionado a isolar-se em suas conquistas materiais, pelo que se esquece de suas responsabilidades pessoais e comunitárias [1]. Neste jogo de interesses egoístas, o dom da amizade é solapado nas bases.
Resumidamente, o existencialismo de Sartre considera “os outros” como todos aqueles que, no contato diário conosco, revelam as nossas fraquezas e defeitos. Eles são “o inferno” porque nos julgam com sua presença. Tiram a nossa máscara de piedade. Com efeito, a vida comunitária, na visão existencialista, é um fardo angustiante, mesmo que exista um esforço para suportar a presença indesejada do outro.
Não é preciso dizer o quão daninha é essa visão distorcida da realidade. A vida social é uma exigência natural do ser humano. Não se trata simplesmente de algo acessório, mas de uma necessidade básica para o desenvolvimento das capacidades do homem, a fim de que — conhecendo-se a si mesmo por meio da relação com os demais, do serviço mútuo e do diálogo com seus irmãos — ele responda satisfatoriamente à sua vocação [2]. Ora, a presença dos “outros”, longe de ser uma consciência julgadora — como descreve Sartre —, é uma autoestrada para a autêntica liberdade e conquista do Sumo Bem, pois, no trato com as dificuldades e diferenças de temperamento do próximo, cada um é chamado a crescer em caridade. Diz São Josemaría Escrivá [3]:
Chocas com o caráter deste ou daquele... Tem de ser assim necessariamente; não és moeda de ouro que a todos agrade.
Além disso, sem esses choques que se produzem ao lidar com o próximo, como havias de perder as pontas, as arestas e saliências — imperfeições, defeitos — do teu temperamento, para adquirires a forma cinzelada, polida e energicamente suave da caridade, da perfeição?
Se o teu caráter e o caráter dos que convivem contigo fossem adocicados e moles como gelatina, não te santificarias.
Neste sentido, o existencialismo nada mais é que a filosofia do desespero. Sartre é incapaz de amar; por isso, vê o inferno onde, na verdade, está o céu. Quando não se está convencido pelo amor cristão, torna-se evidentemente impossível a convivência fraterna, já que “uma verdadeira fraternidade entre os homens” — recorda-nos o Papa Francisco — “supõe e exige uma paternidade transcendente” [4]. Ainda mais: é “a partir do reconhecimento desta paternidade, (que) se consolida a fraternidade entre os homens, ou seja, aquele fazer-se ‘próximo’ para cuidar do outro” [5]. Caso contrário, o ser humano é reduzido a uma mera engrenagem do organismo social, uma peça que se pode descartar a qualquer momento. O “outro” é tão somente um obstáculo na lei da “seleção natural”. Só os mais fortes sobrevivem.
A medida do cristianismo é diferente. No Evangelho de São João, Jesus se refere aos seus discípulos pela palavra “amigo”: “ Non iam servos, sed amicos — Já não vos chamo servos, mas amigos” (Jo 15, 15). Com esta expressão, Cristo convida os apóstolos a não somente se relacionarem com Deus-Todo Poderoso, mas também com Deus-Conosco: o Deus que é amigo e se faz presente para o homem a todo momento. Assim explicava o futuro Papa João Paulo I, Cardeal Albino Luciani: “O nosso Deus é tão pouco rival do homem que quis fazer-se seu amigo, levando-o a participar da sua própria natureza divina e da sua própria felicidade eterna” [6]. Assim, porque somos chamados a realizar a vontade de Deus nas mínimas circustâncias do dia a dia, temos de considerá-Lo o nosso melhor amigo, “levando uma vida segundo o Evangelho, com coragem e fidelidade” [7]. Ademais, a palavra amigo também exprime um convite à abertura ao próximo, para fazer-se companheiro em suas necessidades. Um antigo adágio nos lembra que a verdadeira amizade consiste nisto: Idem velle, idem nolle — querer as mesmas coisas e não querer as mesmas coisas. Isso indica que a amizade é uma comunhão do pensar e do querer. E, em última instância, significa a capacidade de entregar a vida pelo irmão (Jo 15, 13; 10, 15).
Há uma advertência de São Gregório Magno capaz de resumir tudo: “Se tendeis para Deus, tende cuidado que não O alcanceis sozinhos” [8]. Ora, a caminhada para o céu nunca pode ser realizada individualmente, uma vez que a fé “não é uma relação isolada entre o ‘eu’ do fiel e o ‘Tu’ divino, entre o sujeito autônomo e Deus; mas, por sua natureza, abre-se ao ‘nós’, verifica-se sempre dentro da comunhão da Igreja” [9]. Por isso, a missão evangelizadora dos cristãos se concretiza mediante o interesse pela vida do outro, por seus dramas e felicidades, por suas derrotas e conquistas, estendendo-lhe a mão amiga e consoladora de Deus. De fato, dizia Bento XVI aos jovens da Espanha certa vez, Jesus “não deixa de infundir alento nos corações, e leva-nos continuamente à arena pública da história, como no Pentecostes, para darmos testemunho das maravilhas de Deus” [10]. Jesus quer contar com a nossa amizade. Seremos amigos d’Ele na amizade com “os outros”. 











Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Pio XII, Os perigos do Tecnicismo. Radiomensagens de Natal. 1953.
  2. Catecismo da Igreja Católica, n. 1879
  3. Caminho, n. 20
  4. Francisco, Mensagem para o dia mundial da Paz (8 de dezembro de 2013), n.1
  5. Ibidem
  6. Albino Luciani, Ilustríssimos senhores, págs 18-19
  7. Discurso do Papa Bento XVI aos jovens da Arquidiocese de Madri, 2 de abril de 2012
  8. H Ev 1, 6, 6: PL 76, 1097s.
  9. Discurso do Papa Bento XVI aos jovens da Arquidiocese de Madri, 2 de abril de 2012
  10. Ibidem

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