terça-feira, 28 de agosto de 2012

ESTADOS UNIDOS, UM PRESIDENTE MORMON?

Estados Unidos, um presidente mórmon?
Michael Sean Winters- Revista Popoli. ( Jesuítas italianos)
 
No dia 29 de maio, Mitt Romney obteve o número necessário de delegados que, na convenção do fim de agosto, em Tampa(Flórida), lhe garantirão a nomeação como candidato republicano às eleições presidenciais de novembro. Romney obteve sucesso apesar do fato de ser mórmon, ou seja, de pertencer a uma religião profundamente em conflito com a base do Partido Republicano, branca e evangélica (composta por batistas, pentecostais, metodistas e muitos outros).

O mormonismo começou nos anos 1920, por obra de Joseph Smith, que afirmava ter tido visões divinas.
O Livro de Mórmonque Smith dizia ter traduzido das tábuas de ouro que lhe foram mostradas por um anjo, revela que Deus, centenas de anos antes do nascimento de Cristo, levou uma tribo dispersa deIsrael aos atuais Estados Unidos e que Jesus visitou esse povo depois da sua ressurreição.
Esse e outros textos canônicos formam a base de uma série de crenças em contraste com o cristianismo tradicional. Os fiéis rejeitam a fórmula do Credo sobre a Trindade, acreditam em uma revelação contínua de Cristo através dos profetas mórmons e negam que Deus tenha criado o mundo do nada.

Uma questão ainda mais controversa é a que se refere à poligamia, praticada pelos mórmons até o fim do século XIX, quando, depois que uma decisão da Suprema Corte proibiu o casamento com várias mulheres, os líderes da Igreja anunciaram ter recebido uma nova revelação que os chamava a abandonar a prática.
É interessante notar que o bisavô de Romney se recusou a abandonar suas quatro esposas e seus 30 filhos e, em 1885, fugiu para o México. O pai de Romney nasceu no México e voltou para os EUA apenas aos cinco anos.

Em resumo, o mormonismo abraça muitas crenças que católicos e protestantes consideram esotéricas, na melhor das hipóteses, senão heréticas.
Ao contrário dos fundamentalistas, que acreditam que a Bíblia é a única revelação autorizada de Deus, os mórmons acreditam que as revelações posteriores têm um status canônico igual.
Diferentemente dos pentecostais, que acreditam que o Espírito Santo continua inspirando as curas através da oração ou o falar muitas línguas, os mórmons acreditam que a revelação é contínua, através da mediação das lideranças religiosas.
Recentemente, diante dos protestos dos judeus, eles abandonaram a prática de celebrar o “batismo por procuração” daqueles que foram mortos no Holocausto. Caso único também é a crença dos mórmons no Jardim do Éden, localizado no Estado de Missouri.

Além de ter diferenças doutrinais, os mórmons e os evangélicos estão competindo em muitas partes do mundo na sua obra de proselitismo.
Os primeiros encorajam os jovens a passar dois anos em atividade missionária – Romney, quando jovem, esteve na França –, e, segundo a Igreja mórmon, há cerca de 50 mil missionários ativos em todo o mundo.
Apesar disso, muitos evangélicos admitem que os mórmons tendem a viver de modo devoto, embora nos erros das suas doutrinas. Aos mórmons não é permitido fumar ou beber álcool, e eles também têm que se abster do café. Enfatizam muito a importância da família e se opõem ao aborto, exceto em casos de estupro, incesto ou para salvar a vida da mãe.

Além disso, a sua Igreja financiou o esforço para proibir os casamentos entre pessoas do mesmo sexo na Califórnia. Assim, enquanto muitos pastores evangélicos consideram heréticas as convicções dos mórmons e se preocupam que uma presidência de Romney poderá dar legitimação a essa religião com a qual eles competem pelas conversões na África, Ásia e América Latina, no entanto, eles veem em Romney alguém que reflete melhor do que Obama os seus valores de ética sexual e social, especialmente depois que o atual presidente se manifestou em favor dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo.

Durante as eleições primárias, Romney fracassou constantemente para conquistar os votos dos evangélicos brancos, dirigidos a outros candidatos. Em Estados como Tennessee, Carolina do Sul e Kansas, onde os evangélicos brancos eram a maioria dos eleitores, Romney foi derrotado. Mas depois de gastar milhões de dólares nas eleições primárias em campanhas contra os seus adversários, no fim, Romney saiu vencedor.

A pergunta em torno da sua campanha era se os seus péssimos resultados entre os evangélicos brancos seriam compensados pela hostilidade, senão pelo ódio, que estes mesmos eleitores têm contra Obama. Até agora, a resposta é positiva: os evangélicos brancos estão engolindo o sapo e estão se alinhando com a candidatura deRomney.

Uma pesquisa de maio passado realizada pelo PRRI (Public Religion Research Institute) mostrou que, entre os evangélicos brancos, Romney obteria 68% dos votos (Obama, 19%). Em comparação, entre os brancos pertencentes às Igrejas protestantes “históricas” (aqueles que não se identificam como “evangélicos”, como os episcopais e os presbiterianos), Obama superava Romney com 50% contra 37%.
Obama superava Romney entre os católicos (46% contra 39%), mas entre os católicos brancos Romney levava a melhor com 48% contra 37%. De fato, são os católicos de origem latino-americana que apoiam Obama majoritariamente.

Ainda em maio, uma pesquisa da Brookings Institution, prestigioso think-tank de Washington, concluía que “os entrevistados em geral – e em particular os evangélicos brancos – são propensos a votar em Romney, independentemente do que sabem de sua religião”. Na verdade, aqueles que se identificam como eleitores de “ideias políticas conservadoras” são mais propensos a apoiar Romney depois de qualquer menção à sua fé, um resultado que provavelmente deriva da associação de Romney com o conservadorismo da Igreja mórmon.

Outro ponto de convergência entre Romney e os eleitores evangélicos é a visão sobre o excepcionalismo norte-americano. Em 1979, quando o Rev. Jerry Falwell formou a Maioria Moral para organizar os eleitores evangélicos e encorajá-los a entrar na política, ele disse que ser “pró-americano” era um elemento-chave da sua agenda.
A ideia de que os EUA têm uma missão especial e providencial no mundo tem raízes profundas na história protestante dos EUA, e Falwell atualizava essa história para favorecer um chauvinismo extraordinariamente disposto a pressionar pelo emprego da força militar dos EUA no mundo como instrumento de difusão da democracia e do cristianismo.

Para os mórmons, esse chauvinismo é, se possível, ainda mais extremo. Joseph Smith não só acreditava que o Jardim do Éden estava localizado nos EUA e que lá ocorreria também a segunda vinda de Cristo, mas também acreditava que a Constituição norte-americana foi inspirada por Deus.

Ainda em 1969, o chefe da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (esse é o nome oficial dos mórmons) reafirmava desta forma essa convicção: “Nós acreditamos que a Constituição dos EUA foi inspirada divinamente, que foi redigida por ‘homens sábios’ que Deus fez nascer para esse ‘propósito específico’, que os princípios representados na Constituição são tão fundamentais e importantes que, se possível, deveriam ser estendidos para os direitos e a proteção de toda a humanidade”.

Mitt Romney, que foi missionário e depois também bispo mórmon, começou a adotar nos seus discursos os termos do excepcionalismo norte-americano, arrancando aplausos entusiasmados. Para um homem que mudou de opinião sobre uma série de questões, esse é um tema em que as suas convicções religiosas e políticas do seu partido coincidem perfeitamente, embora o excepcionalismo norte-americano tenha um história infeliz em terras estrangeiras.

O que quer que se possa esperar de uma presidência de Romney, certamente não faltará uma política externa mais enérgica e militarizada do que a buscada pelo presidente Obama

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