terça-feira, 12 de julho de 2011

UMA ESPIRITUALIDADE SACERDOTAL.



1. A qualidade sacerdotal de todo o Povo de Deus e o ministério apostólico são, na Igreja, fruto da sua identificação com Cristo e total participação no Seu ser e missão. Daí que esta qualidade sacerdotal inspire toda ávida cristã, na caminhada de fidelidade da Igreja e de cada cristão. Numa arreigada tradição espiritual, que bem conhecemos, a fidelidade cristã foi apresentada como uma “imitação de Jesus Cristo”. Com esta linguagem exprime-se a visão neo-testamentária da vida cristã concebida como seguimento de Jesus Cristo, no discípulado, na certeza de que toda a nossa vivência da vida nova segundo o Espírito, brota da nossa identificação e união com Cristo, de que a Eucaristia é a expressão principal e decisiva.

Esta união a Cristo, de onde brota a possibilidade e a exigência da caridade, faz com que toda a vida cristã seja profundamente sacerdotal, quer para todo o Povo de Deus que encontra em cada expressão da caridade uma “hóstia espiritual”, quer para os sacerdotes, cujo ministério é uma exigência acrescida de identificação com Cristo. É isto que Paulo aconselha aos Filipenses ao escrever-lhes: “Tende entre vós, os mesmos sentimentos que foram os de Jesus Cristo” (Fil. 2,5).

Discernimento da autenticidade do ministério.

2. Este é um dos “sentimentos” de Jesus Cristo que se transforma, para nós, numa exigência contínua de autenticidade e de radicalidade. Desde o início da Sua vida pública se torna claro que a missão de Jesus é messiânica. Isso é claramente expresso por Pedro no diálogo que Jesus tem com os discípulos em Cesareia de Filipe: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt. 16,16). Mas torna-se igualmente claro que Jesus recusa a ideia messiânica corrente, de um Messias político e triunfal, cuja missão se esgotava na alteração das circunstâncias presentes de Israel e que faz um discernimento lúcido e corajoso, a partir da Sagrada Escritura, de interpretar a sua missão messiânica como realizando a missão do Servo sofredor, que dá a vida como resgate por uma multidão, anunciado pelo Profeta Isaías (cf. Is. 53).

Parece ser já esse o sentido das tentações de Jesus no deserto, referidas pelos três evangelistas sinópticos: “Quando analisamos as propostas do demónio, vemos claramente que não se trata de vulgares incitações à gulodice, à vã glória ou à ambição. Em relação estreita com a missão de Jesus, aparecem-nos como uma espécie de inquérito sobre a maneira de Jesus conceber a Sua missão messiânica e o que o demónio pretende não é tanto levar Jesus a pecar contra este ou aquele preceito divino, mas desviá-lo desse messianismo humilde do Servo de Yahwé”[1]. É também dessa perspectiva do Messias sofredor que Pedro pretende desviar Jesus, na primeira vez que Jesus fala da Sua morte aos seus discípulos (cf. Mt. 16,21-23).

Esse é o primeiro sentimento de Jesus que Paulo selecciona na Carta aos Filipenses: “Ele, de condição divina, não defendeu ciosamente o posto que O igualava a Deus. Mas rebaixou-se a Si mesmo, tomando a condição de escravo e tornando-Se semelhante aos homens. Comportando-se como um homem, humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte e morte na Cruz” (Fil. 2,6-8). Paulo refere a dupla concretização deste “abaixamento” do Filho de Deus: o ter-se feito homem, e o ter aceite ser condenado à morte numa Cruz.

Este tema do abaixamento (Kenose) de Cristo, tornou-se no centro de toda a imitação de Cristo e na chave de todo o discernimento autêntico da vida cristã e, com maioria de razão, do sentido da dimensão sacerdotal da Igreja e do sacerdócio como sacramento de redenção. Este é um tema de actualidade na Igreja de hoje: definir a especificidade do ministério sacerdotal. Esse discernimento não pode ser feito sem o relacionar com a dimensão sacerdotal de todo o Povo de Deus e sem o confrontar com esta humildade do Servo, que não busca honras ou benefícios humanos, nem defende estatutos sociais, mas que se identifica com o Mestre neste “dar a vida” – e dar a vida não é só morrer – pela redenção do nosso mundo.

São Paulo, na segunda Carta aos Coríntios tem deste discernimento uma ideia clara. A dimensão de oferta redentora da vida, tornada possível pela novidade pascal e pela acção do Espírito Santo, é exigência e dom dos sacerdotes e do Povo sacerdotal: “Se alguém está em Cristo, é uma criação nova; o ser antigo desapareceu e um novo ser surgiu. E tudo isto vem de Deus, que nos reconciliou com Ele, por Cristo, e nos confiou o ministério da reconciliação… somos embaixadores de Cristo. É como se Deus exortasse através de nós” (2Cor. 5,17-21).

A obediência filial.

3. Esta identificação corajosa com a missão do Servo de Yahwé, Jesus fá-la por obediência filial a Deus Seu Pai, o que supõe um discernimento do que é a vontade de Deus numa circunstância concreta. No Cântico de Isaías 53 aparece-nos, pela primeira vez, com clareza, que o sacrifício do justo em vez dos pecadores, pode ser o desígnio de Deus. Para Jesus isso torna-se claro, e trata-se, seguindo essa via, de obedecer à vontade do Pai. “Pai, se é possível, faz com que esta taça passe longe de Mim. No entanto, que não se faça como Eu quero, mas como Tu queres” (Mt. 26,39).

Esta obediência do Filho é um dos sentimentos que Paulo sublinha no abaixamento de Jesus Cristo: “humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte” (Fil. 2,8). Esta obediência ao Pai, expressão do Seu amor filial, é a linha de força de todo o comportamento de Jesus: apresentando-se como modelo àqueles que hão-de acreditar n’Ele, “vir a Ele”, Jesus diz: “Porque Eu desci do Céu para fazer, não a minha vontade, mas a vontade d’Aquele que me enviou” (Jo. 6,38).

A obediência de Cristo é expressão encarnada da Sua missão redentora, pois evoca toda a longa e triste história da infidelidade e da desobediência de Israel. São Paulo é muito claro, a este respeito, na Carta aos Romanos. Depois de ter dito que Israel continua prisioneiro da Sua desobediência (cf. Rom. 3,10 e 11,32), afirma: “assim como a falta de um só arrastou todos os homens para a condenação, assim a obra de justiça de um só proporciona a todos a justificação que dá a vida. Com efeito, como pela desobediência de um só homem, a multidão se tornou pecadora, assim pela obediência de um só a multidão recuperará a justiça” (Rom. 5,18-19). A Carta aos Hebreus sublinha a importância que tem a sua situação de Filho na qualidade desta obediência e como ela se torna modelo para a nossa obediência, nós que fomos elevados à qualidade de filhos: “Sendo Filho, aprendeu, no que sofreu, a obediência. Depois de ter sido tornado perfeito, tornou-se para todos aqueles que lhe obedecem, princípio de salvação eterna” (Heb. 5,8-9).

A obediência enquanto prioridade absoluta dada à vontade de Deus e ao seu desígnio é o principal desafio posto à nossa liberdade e componente decisiva da fidelidade a Jesus Cristo. A aprendizagem da obediência faz-se ao ritmo do discernimento contínuo do desígnio de Deus, o que só é possível, seguindo Jesus Cristo.

Dar a vida pelas ovelhas.

4. Um outro sentimento perene de Jesus Cristo, que inspira necessariamente a espiritualidade sacerdotal é o desejo de dar e comunicar a vida. “Eu vim para que as ovelhas tenham a vida e a tenham em abundância. Eu sou o bom pastor e o bom pastor dá a vida pelas suas ovelhas” (Jo. 10.10-11). Neste testemunho que Jesus nos dá dos seus mais profundos sentimentos, há dois aspectos complementares: a disposição de dar a Sua vida pelas ovelhas, prova máxima de amor e de solicitude pastoral, e que Ele concretizará na Sua morte; e o desejo ardente de comunicar aos outros a vida que n’Ele está em plenitude, porque a recebe continuamente do Pai. Ele sabe que a vida que pode comunicar é a vida eterna, uma vida que não morre (cf. Jo. 19,16). Comunicar esta vida será a vitória sobre o pecado, expressão dramática da ausência de vida.

Esta radicalidade pastoral de Jesus Cristo concretiza o mais profundo desejo de quem ama: comunicar a vida e fazer viver. Este é o dinamismo devorador do ministério sacerdotal, que resume o sentido da vida do próprio sacerdote: comunicar a vida, fazer viver. E a vida que comunicamos não é a nossa, não tem em nós a sua fonte; é a vida de Cristo ressuscitado, através da força criadora do Espírito e que nós comunicamos pelo nosso ministério. A vida que damos é a mesma que precisamos de receber. Um sacerdote que vive em Cristo, ao comunicar a vida, alia a eficácia sacramental do ministério à força do testemunho.

Comunicar a vida é também a fonte da nossa alegria. Nada nos faz participar tanto no júbilo da Páscoa como partilhar com os outros essa passagem da morte à vida, esse ver as pessoas deixarem-se invadir pela vida. Comunicar a vida é, na vida de um sacerdote, uma paixão de amor.

A fidelidade à Igreja.

5. Este desejo de comunicar a vida de Cristo marca o ritmo da fidelidade do sacerdote ao Povo de Deus, que Cristo ama com amor esponsal. O texto do Apocalipse nas mensagens aos “anjos” das Igrejas, em que todos os comentadores reconhecem os pastores dessas Igrejas, mostra com uma veemência extraordinária que “as comunidades cristãs valem, em grande parte, o que valerem os seus pastores”[2]. Aí se sublinha, na vida dos pastores, a importância primordial da caridade (cf. Apc. 2,16), que exige uma fidelidade até à morte, testemunho que nos é dado pelo “anjo” da Igreja de Esmirna (cf. Apc. 2,8-11).

O sacerdote só existe por causa da Igreja, porque Cristo ama a Igreja e quis fazer dele expressão sacramental desse amor. A fidelidade do sacerdote não é, apenas, uma atitude pessoal; é a participação na fidelidade amorosa de Cristo à sua Igreja. E esta fidelidade de Jesus Cristo é o seu “sentimento” que resume, depois da Páscoa, toda a Sua pessoa e missão; a fidelidade ao amor faz a ponte entre o tempo e a eternidade.

JOSÉ, Cardeal-Patriarca


Notas:
[1] A. FEUILLET, “Le sacerdoce du Christ et de ses ministres”, p. 187

[2] Ibidem, p. 195

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