quarta-feira, 10 de novembro de 2010

O CAMINHO MÍSTICO.


Nos dias de hoje, quando se fala em espiritualidade, muitos pensam logo na espiritualidade mística. Esta é uma tendência mundial atual, acho que tem a ver com uma certa mudança sutil que anda em curso no Inconsciente Coletivo e acho também que seria adequado iniciarmos essa postagem com algumas definições anônimas diversas a respeito da Mística: o que é a Mística?

"É a insistência de que tudo o que é... não é tudo!";

"É o engajamento na busca do Deus-Mistério";

"É a experiência de Deus";

"Místico é tudo aquilo ou aquele(a) que, mediante a contemplação espiritual, procura atingir o estado de êxtase de união direta com a divindade";

"O místico é alguém que vive do encontro pessoal com Deus";

“O místico é aquele que aspira a uma União pessoal ou à Unidade com o Absoluto”.

Faço questão de não citar as fontes dessas definições curtas, porque quando se trata de entender o que é a Mística, não há o que se explicar, não interessa o nome de quem falou, onde está escrito... tudo que nos interessa, nesse caso, é a idéia em si e por si mesma.

De qualquer modo, percebemos que as principais interpretações do termo não se excluem não se anulam entre si, mas se complementam ou se aperfeiçoam.

A via mística está muito em voga nos dias de hoje, e a grande maioria logo pensa em procurá-la no Budismo, no Hinduísmo ou entre outras tradições orientais.

Os que anseiam por uma espiritualidade mística, via de regra, nem sequer cogitam buscá-la no Cristianismo, e a “culpa” desse fenômeno, ao meu ver, é em grande parte das próprias igrejas, o que já é uma outra longa história.

Mas a verdade é que a tradição cristã sempre foi caracterizada por fortes correntes místicas. A Mística estava presente na mensagem do Cristo desde o princípio.

O alemão Karl Rahner, um dos mais importantes teólogos do século XX, proferiu a famosa frase:"

O cristão do futuro será um místico, ou não existirá mais."Rahner entende "um místico" como alguém que não apenas "ouviu falar" de Deus ou leu a seu respeito em algum lugar, mas o experienciou, e o percebe, vivenciando-o.

Essa é uma bela definição do ser místico.Quando acentuamos o Caminho Místico no Cristianismo, criamos, ao mesmo tempo, uma ligação com os místicos das outras religiões; pois os representantes da Mística, desde que estejam nesse caminho com uma real disposição e empenhados verdadeiramente na Busca, passam por experiências semelhantes entre si... Esses buscadores, independente da religião que professem, não apenas se respeitam como também se estimam uns aos outros, e não pensam em “converter-se” mutuamente.

E assim interpretam suas experiências cada um a sua maneira.Há interpretações de fato bem diferentes de uma mesma realidade na Mística cristã, na hinduísta, na budista...Ocorre que hoje há tão pouca clareza no uso da palavra “Mística” quanto no entendimento do conceito de “espiritualidade”. É muito fácil perceber que não são poucos os que se definem como "místicos" sem saber exatamente o que isso quer dizer.

Mas os representantes da verdadeira Mística, em qualquer religião, sempre foram cautelosos quanto a se chamarem a si mesmos de místicos. Relataram suas experiências e o caminho da meditação ou da oração contemplativa, mas nunca sucumbiram ao perigo de se identificar com a imagem arquetípica do "místico".

Agostinho, assim como C. G. Jung, sempre vê na identificação com uma imagem arquetípica o perigo da vaidade. Ele entendeu que, quando não levamos em conta as nossas reais necessidades, nós as vivemos inconscientemente com maior intensidade. Segundo esses mestres, quando alguém se identifica com a imagem do "místico", vive a sua necessidade de ser alguém especial, importante, e muitas vezes o que está por trás desse desejo é a ânsia de ser notado e de se colocar acima dos outros: “Como uma ‘pessoa mística’, me torno mais interessante”... - Este não é um sentimento espiritual saudável.“Infelizmente, vejo essa tendência hoje, em muitos que se afirmam místicos. Por isso, sempre tomo cuidado quando alguém me pergunta se sou 'um místico'.

Estimo o caminho místico e realmente procuro segui-lo; todavia, nunca me chamarei ‘místico’.” ( Anselm Grün)Na Mística Cristã há, sobretudo, duas tendências: a Mística da União e a Mística do Amor. Sem dúvida, não se podem separar nitidamente uma da outra; pois a Mística da União está compenetrada de Amor, e na Mística do Amor trata-se da União com o Bem-amado. Mas nas duas tendências podemos distinguir alguns acentos diferentes.Na Mística da União visa-se a experiência do ser puro.

Em silêncio, uno-me com Deus. Em silêncio, torno-me Um com Deus e, ao mesmo tempo, um com o momento atual, um comigo mesmo e com tudo que existe. Nessa experiência de União, que na tradição se chama Comunhão, Deus não é mais experimentado como estando diante de nós, mas como fundamento de todo o ser.

No Cristianismo, Deus é sempre ao mesmo tempo pessoal e suprapessoal. Não é eliminada a lembrança de Deus como “Vós”, mas ela fica em segundo plano.A mística grega antiga era, sobretudo, uma Mística de União. O que aí se busca são experiências da Grande Presença. Enquanto estou totalmente neste momento, - o Agora, - totalmente unido com tudo o que existe, experimento, afinal, também a base de todo o ser: Deus, que me compenetra como sendo o Ser verdadeiro e Único.

Para muitos que têm dificuldades com o Cristianismo, a Mística da União seria um bom caminho para entrarem novamente em contato com a sua própria base divina e, desse modo, se tornarem abertos para aquele Deus totalmente diferente e ao mesmo tempo tão igual, que não podemos compreender, mas sentir.Na Mística do Amor trata-se, de um modo bastante feminino, do Amor a Deus que se aproxima da humanidade. A mística do Amor, praticada pelas “beguinas”, - mulheres que, sem pronunciar votos, viviam livremente em grupos espalhados pelos países baixos e Bélgica, na Idade Média (séculos XIII e XIV), era sobretudo uma mística nupcial. Para elas, Jesus era o "noivo" que abraça a alma mística. Essas místicas falavam sobre suas experiências numa linguagem quase erótica, e nesse processo era muito apreciada a interpretação do "Cântico dos cânticos", livro do Antigo Testamento.

Esses cânticos são utilizados para se expressar o Amor de Deus, e as místicas falam sobre o "namoro divino", em que podiam alegrar-se da proximidade de seu sublime "noivo". Refere-se até ao "Leito do Amor", em que elas podiam descansar com seu Bem-amado. Nem preciso mencionar o alto grau de intimidade com o Divino que precisamos sentir para exercer uma tal espiritualidade em nossas vidas.Mas a Mística do Amor também sempre se refere a um “Vós”; a União com o Amado nunca é entendida como "ser a mesma coisa que" ou "ser igual" a Ele. Ser um com Deus é estar nEle, ter o "eu" dissolvido nEle, é estar liberto do ego, dos apegos, das mesquinharias, do medo... em perfeita Harmonia e Liberdade.O Concílio de Calcedônia, no ano de 451, definiu a União do ser humano com Deus, na experiência mística, como “sem mistura e sem separação”.Na experiência da União, estamos totalmente unidos com Deus. Somos uma só realidade com Deus, mas ao mesmo, esse Deus continua impossível de ser conquistado. Não podemos dominá-lo ou tê-lo completamente.

Tanto a Mística da União como a Mística do Amor ensinam que a perfeita União com Deus, neste nosso mundo, ainda não pode ser perene ou permanente. Ela dura um momento e se dissolve. Depois disso, vive-se novamente o estar separado de Deus.Místicos vivem sempre a tensão entre o estar unido e o estar separado, entre integração e dilaceramento. Essa é a razão primeira de existirem as formas religiosas, as práticas, a oração, a liturgia, a meditação... Todos esses são elementos do chamado Caminho de Volta, a eterna saga do Filho Pródigo.Os primeiros monges ascetas sempre se esforçaram por realizar a exortação da Primeira Carta de São Paulo aos Tessalonicenses: “Orai continuamente”, ( I Ts 5,17).A oração foi e continua sendo para os monges cristãos um caminho concreto para buscar a desejada sintonia divina permanente.

A oração era associada com a pulsação do coração, que é sempre contínua, enquanto estivermos vivos. Para eles, mesmo quando a pessoa não está orando conscientemente, é preciso conduzir a vida como se fosse uma grande oração, em todos os seus atos, pensamentos, intenções.Para Agostinho, a "Saudade" era o caminho perfeito para essa oração sem interrupção. Não podemos falar sempre com Deus, nem levantar sempre as mãos e nem ficar sempre ajoelhados. Mas a "Saudade" de Deus deveria estar sempre em nós.

Orar, para Agostinho, é a arte do despertar em nós a Saudade divina.“Se não quiseres interromper a oração, então não interrompas a Saudade de Deus. A tua ininterrupta Saudade é a tua voz de oração ininterrupta.” ( Sto. Agostinho)Quando estamos em contato com essa sublime Saudade, então nosso coração está com Deus.Na Saudade, Deus gravou o seu vestígio dentro dos nossos corações.

Para Agostinho, a mística consiste em manter “acordada” e sempre viva a Saudade de Deus, na qual Ele se mantém presente no coração humano. Quando percebemos em nós essa Saudade, já alcançamos, para além deste mundo, o Mundo de Deus. Assim, temos dentro da nossa alma uma âncora, que nos mantém firmes e nos faz “penetrar além do véu” (Hebreus 6,19).

Curioso é que, séculos depois de Agostinho, Friedrich Nietzsche, um dos maiores inimigos declarados do Cristianismo e da religião, no seu tempo, surpreendentemente colocou de maneira muito similar a relação entre saudade e Mística. Ele declarou que “onde a saudade e o desespero se acasalam, há mística”.A Mística não é uma espécie de posse, da qual possamos nos orgulhar, ou algo que nos envaideça por essa nossa suposta qualidade de “pessoa mística”.

A verdadeira Mística nasce exatamente no lugar do nosso desespero. Sim. Lá, onde nos desesperamos de nós mesmos, porque nada nos sustenta mais e percebemos que nossa existência não tem fundamento por si mesma.Então, se não nos deixamos afundar no desespero, mas o combinamos com a Saudade, aí acontece o “salto” para dentro de Deus: aquele Deus totalmente diferente, no qual não conseguimos ainda nos organizar ou nos acomodar confortavelmente, mas que nos recolhe enquanto, no meio do desespero dessa insaciável Saudade santa, tivermos confiança nEle, entregando-nos ao inalcançável.Nietzsche inadvertidamente entendeu algo da Mística Cristã, ao combinar saudade com desespero. A Mística não é algo que podemos exigir de nós mesmos.

A Mística é, antes, sempre esse salto, do desespero do próprio eu para dentro do Mistério inalcançável e Infinito, que nos acolhe, conforta e ilumina.


Fonte e bibliografiaEsta postagem contém trechos da obra:JOHNSON, Paul. História do Cristianismo, Rio de Janeiro: Imago, 2001, pp 11-14.
Fonte:pemiliocarlos

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